O que se sabe sobre a crise entre Rússia e Ucrânia e o envolvimento dos EUA

Possível entrada da Ucrânia na Otan preocupa a vizinha Rússia, que movimenta tropas na fronteira para evitar possível aproximação dos EUA; saiba mais

Os presidentes Vladimir Putin, da Rússia, e Joe Biden, dos EUA, se encontraram em junho deste ano pela primeira vez, em Genebra, na Suíça
Os presidentes Vladimir Putin, da Rússia, e Joe Biden, dos EUA, se encontraram em junho deste ano pela primeira vez, em Genebra, na Suíça Mikhail Svetlov/Getty Images

Matthew ChanceLaura Smith-Sparkda CNN

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As tensões entre a Ucrânia e a Rússia estão no seu ponto mais alto em anos, com relatos de um aumento de tropas russas perto da fronteira da Rússia com a Ucrânia, alimentando temores sobre as intenções de Moscou.

A Ucrânia afirma que a Rússia está tentando desestabilizar o país antes de qualquer invasão militar planejada. As potências ocidentais alertaram repetidamente a Rússia nas últimas semanas contra novos eventuais movimentos agressivos contra a Ucrânia.

O Kremlin nega que esteja planejando um ataque e argumenta que o apoio da Otan à Ucrânia – incluindo aumento no fornecimento de armas e treinamento militar – constitui uma ameaça crescente no flanco ocidental da Rússia.

A situação é complexa, mas aqui está uma análise do que já se sabe.

Qual é a situação atual na fronteira?

Os Estados Unidos e a Otan descreveram nas últimas semanas os movimentos e as concentrações de tropas na Ucrânia e em seus arredores como “incomuns”.

No mês passado, fotos de satélite revelaram armas russas russo – incluindo canhões automotores, tanques de batalha e veículos de combate de infantaria – em movimento em um campo de treinamento a cerca de 300 km da fronteira.

Porém, poucas informações foram tornadas públicas para dar suporte à alegação das potências ocidentais de um aumento da ameaça.

Muitas das bases militares da Rússia estão a oeste do vasto país – local onde as ameaças estão concentradas.

O Ministério da Defesa da Rússia disse em 1º de dezembro que havia iniciado exercícios militares “regulares” de inverno em sua região sul, na parte que faz fronteira com a Ucrânia. Os exercícios envolvem mais de 10 mil soldados, disse o ministério.

Enquanto isso, as regiões de Donetsk e Luhansk, no leste da Ucrânia, que fazem fronteira com a Rússia, em uma área conhecida como Donbass, estão sob o controle de separatistas apoiados pela Rússia desde 2014. As forças russas também estão presentes na área, denominada pela Ucrânia como “territórios temporariamente ocupados”. A Rússia nega.

As linhas de frente do conflito não sofreram muitas alterações ao longo dos últimos cinco anos, mas há confrontos frequentes em pequena escala e ataques de franco-atiradores.

A Rússia mostrou descontentamento quando as forças ucranianas utilizaram um drone de combate de fabricação turca pela primeira vez em outubro para atacar uma posição ocupada pelos separatistas pró-russos.

A Rússia também conta com dezenas de milhares de forças em sua enorme base naval na Crimeia, território ucraniano que anexou em 2014. A península da Crimeia, que fica ao sul do resto da Ucrânia, agora está conectada por uma ponte rodoviária à Rússia.

Qual é a história do conflito entre a Ucrânia e a Rússia?

As tensões entre a Ucrânia e a Rússia, ambos estados que pertenciam à União Soviética, aumentaram no final de 2013 devido a um acordo político e comercial histórico da Ucrânia com a União Europeia.

Depois que o então presidente pró-russo, Viktor Yanukovych, suspendeu as negociações – supostamente sob pressão de Moscou – semanas de protestos em Kiev explodiram em violência.

Em março de 2014, a Rússia anexou a Crimeia, uma península autônoma no sul da Ucrânia com forte lealdade à Rússia, com o pretexto de que estava defendendo seus interesses e os dos cidadãos de língua russa.

Primeiro, milhares de soldados que falam russo, apelidados de “homenzinhos verdes” e mais tarde reconhecidos por Moscou como soldados russos, invadiram a península da Criméia. Em poucos dias, a Rússia concluiu sua anexação em um referendo que foi considerado ilegítimo pela Ucrânia e pela maior parte do mundo.

Pouco depois, separatistas pró-russos nas regiões de Donetsk e Luhansk, na Ucrânia, declararam sua independência de Kiev, provocando meses de combates intensos. Apesar de Kiev e Moscou terem assinado um acordo de paz em Minsk em 2015, intermediado pela França e Alemanha, houve repetidas violações do cessar-fogo.

De acordo com os últimos dados da ONU, houve mais de 3 mil mortes de civis relacionadas com o conflito no leste da Ucrânia desde março de 2014.

A União Europeia e os EUA impuseram uma série de medidas em resposta às ações da Rússia na Crimeia e no leste da Ucrânia, incluindo sanções econômicas contra indivíduos, entidades e setores específicos da economia russa.

O Kremlin acusa a Ucrânia de aumentar as tensões no leste do país e de violar o acordo de cessar-fogo de Minsk.

O que a Rússia diz

O Kremlin negou repetidas vezes que a Rússia tenha intenções de invadir a Ucrânia, insistindo que a o país não representa uma ameaça para ninguém e que movimenta tropas em seu próprio território e que essas ações não são motivo de alarde.

Moscou vê o crescente suporte que a Otan vem garantindo à Ucrânia – como armamento, pessoal e treinamento – como uma ameaça a sua própria segurança. Também acusou a Ucrânia de aumentar seu próprio número de soldados em preparação para uma tentativa de retomar a região de Donbass, uma alegação que a Ucrânia negou.

O presidente russo, Vladimir Putin, pediu acordos legais específicos que descartariam qualquer expansão futura da Otan em direção às fronteiras da Rússia, dizendo que o Ocidente não cumpriu suas garantias verbais anteriores.

Putin também disse que a implantação de armas sofisticadas na Ucrânia pela Otan, como sistemas de mísseis, estaria cruzando uma “linha vermelha” para a Rússia, em meio à preocupação em Moscou de que a Ucrânia esteja sendo cada vez mais armada por potências da Otan.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse no mês passado que armas e conselheiros militares já estavam sendo fornecidos à Ucrânia pelos EUA e outros países membros da Otan. “E tudo isso, é claro, leva a um agravamento da situação na linha de fronteira”, disse ele.

Se os EUA e seus aliados da Otan não mudarem de rumo na Ucrânia, o ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, advertiu que Moscou tem “o direito de escolher maneiras de garantir seus legítimos interesses de segurança”.

O que a Ucrânia diz

O governo ucraniano insiste que Moscou não pode impedir Kiev de estreitar laços com a Otan, se assim o desejar.

“A Rússia não pode impedir a Ucrânia de se aproximar da Otan e não tem o direito de dar qualquer palavra em discussões relevantes”, disse o Ministério das Relações Exteriores em um comunicado à CNN em resposta aos pedidos russos para que a Otan interrompa sua expansão para o leste.

“Quaisquer propostas russas para discutir com a Otan ou os EUA sobre as chamadas garantias de que a Aliança não se expandiria para o Leste são ilegítimas”, acrescentou.

A Ucrânia insiste que a Rússia está tentando desestabilizar o país. O presidente, Volodymyr Zelensky, disse recentemente que um plano de golpe envolvendo ucranianos e russos foi descoberto.

O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, advertiu que um golpe planejado pode fazer parte do plano da Rússia antes de uma invasão militar. “A pressão militar externa anda de mãos dadas com a desestabilização interna do país”, disse ele.

As tensões entre os dois países foram exacerbadas pelo aprofundamento da crise energética ucraniana. Kiev acredita que Moscou provocou a crise propositalmente.

Ao mesmo tempo, o governo de Zelensky enfrenta desafios em muitas frentes. A popularidade do governo estagnou em meio a vários desafios políticos domésticos, incluindo uma terceira onda de infecções por Covid-19 nas últimas semanas e uma economia em dificuldades.

Muitas pessoas também estão descontentes com o fato de o governo ainda não ter cumprido os benefícios que prometeu e encerrado o conflito no leste do país. Protestos antigovernamentais ocorreram em Kiev.

O que a OTAN diz

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, disse que a Rússia terá “um alto preço a pagar” se ela invadir novamente a Ucrânia, país parceiro da Otan, embora ainda não componha o grupo.

“Temos uma ampla gama de opções: sanções econômicas, sanções financeiras, restrições políticas”, disse Stoltenberg, em entrevista à CNN em 1º de dezembro.

Depois que a Rússia invadiu a Ucrânia em 2014, a Otan aumentou suas defesas “com grupos de batalha prontos para o combate na parte oriental da aliança, nos países bálticos, na Letônia… mas também na região do Mar Negro”, disse Stoltenberg.

Por ainda não ser membro da Otan, a Ucrânia não tem as mesmas garantias de segurança que os pertencentes ao bloco.

Mas Stoltenberg deixou em cima da mesa a possibilidade de a Ucrânia se tornar membro, dizendo que a Rússia não tem o direito de dizer à Ucrânia que não pode buscar a adesão.

O que dizem os Estados Unidos

Os EUA e seus aliados da Otan têm “profundas preocupações” em relação à “postura agressiva” adotada recentemente pela Rússia em relação à Ucrânia, disse o secretário de Estado Antony Blinken em uma cúpula da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) na Suécia.

Ele havia dito anteriormente que a Rússia está concentrando tropas de combate ao longo da fronteira com a Ucrânia e está instalando a capacidade de invadir em curto prazo, se assim desejar

Blinken ameaçou a Rússia dizendo que, “qualquer nova agressão pode desencadear sérias consequências”.

O governo Biden também está avaliando o envio de conselheiros militares e novos equipamentos, incluindo armamentos, para a Ucrânia para preparar os aliados para uma possível invasão russa, disseram à CNN em novembro várias fontes familiarizadas com as deliberações.

O governo Obama foi pego de surpresa quando a Rússia invadiu a Crimeia em 2014 e apoiou uma insurgência na região de Donbass, no leste da Ucrânia. Autoridades americanas dizem que estão determinadas a não serem apanhadas por outra operação militar russa.

“Nossa preocupação é que a Rússia possa cometer um erro grave ao tentar refazer o que empreendeu em 2014, quando reuniu forças ao longo da fronteira, cruzou em território ucraniano soberano e o fez alegando falsamente que foi provocado”, disse Blinken em novembro.

Quais outros fatores estão em jogo?

Outra grande questão gira em torno do fornecimento de energia. A Ucrânia vê o polêmico gasoduto Nord Stream 2 – conectando os suprimentos de gás da Rússia diretamente à Alemanha – como uma ameaça à sua própria segurança.

O Nord Stream 2 é um dos dois oleodutos que a Rússia instalou debaixo d’água no Mar Báltico, além de sua rede tradicional de oleodutos terrestres que atravessa a Europa Oriental, incluindo o território da Ucrânia.

Kiev vê os oleodutos espalhados por toda a Ucrânia como um elemento de proteção contra uma invasão da Rússia, uma vez que qualquer ação militar poderia interromper o fluxo vital de gás para a Europa.

Analistas e legisladores dos EUA levantaram preocupações de que o Nord Stream 2 aumentará a dependência europeia do gás russo e poderia permitir que Moscou visasse seletivamente países como a Ucrânia com cortes de energia, sem interrupção mais ampla do abastecimento europeu.

Contornar os países do Leste Europeu também significa que essas nações seriam privadas das lucrativas taxas de trânsito que a Rússia pagaria de outra forma.

Em maio de 2021, a administração Biden renunciou às sanções contra a empresa por trás do Nord Stream 2, dando sinal verde para sua operação. Autoridades americanas dizem que a medida é de interesse da segurança nacional dos Estados Unidos, pois busca reconstruir relações desgastadas com a Alemanha.

Os EUA impuseram no mês passado novas sanções a uma entidade ligada à Rússia e a um navio ligado ao Nord Stream 2. Alguns senadores americanos pediram a imposição de mais sanções para impedir a Rússia de usar o oleoduto como arma; A Ucrânia também pediu medidas mais duras.

“Vemos maneiras diferentes de impedir que esse oleoduto seja transformado em arma pela Rússia. Divergimos quando se trata do volume e da quantidade de sanções necessárias para proteger a Europa do Nord Stream 2”, disse Kuleba, o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, à CNN.

Matthew Chance, Laura Smith-Spark, Katharina Krebs, Anna Chernova, Alex Marquardt, Chandelis Duster, Radina Gigova e Nicole Gaouette, da CNN, contribuíram para esta reportagem

 

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