OEA quer discutir ataques dos EUA no Caribe e crise na Venezuela

Em entrevista à CNN, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Albert Ramdin, afirmou que o Brasil pode ter papel central em debates sobre unidade regional, migração e desafios geopolíticos nas Américas

Gabriel Garcia, da CNN Brasil
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Nos últimos anos, a OEA (Organização dos Estados Americanos) passou a ser alvo de críticas sobre uma suposta perda de influência e dificuldade de manter protagonismo em um continente cada vez mais polarizado e atravessado por tensões geopolíticas externas.

E isso não é exclusividade da OEA. O multilateralismo como um todo, e seus principais organismos, têm sido enfraquecidos na nova dinâmica global, onde grandes potências passam a ignorar cada vez mais decisões coletivas e o protecionismo volta a ganhar força.

É nesse contexto que o secretário-geral da OEA, Albert Ramdin, desembarca no Brasil nesta segunda-feira (17) para uma visita oficial, na qual todas as questões geopolíticas — inclusive os ataques norte-americanos no Caribe e a crise interna da Venezuela — devem ser discutidas com as autoridades brasileiras.

Para o alto representante da organização, a liderança do Brasil é estratégica para a estabilidade regional, especialmente em um momento em que diferentes países das Américas atravessam processos eleitorais, tensões internas e desafios migratórios.

A OEA é o principal organismo político do continente americano, reunindo 34 países das Américas para promover democracia, direitos humanos, segurança e cooperação regional. Criada em 1948, funciona como um fórum permanente de diálogo e mediação de crises no hemisfério.

A visita de Ramdin ocorre em meio à escalada de tensões entre Estados Unidos e Venezuela, após ações militares norte-americanas no Caribe reacenderem alertas sobre riscos de instabilidade no hemisfério.

Já a crise interna venezuelana, marcada por processos eleitorais contestados por diversos países do continente e que se arrasta há mais de uma década, permanece como um dos temas mais sensíveis da diplomacia hemisférica e um dos pontos em que mais se questiona o papel atual da OEA.

Apesar disso, Ramdin insiste que o organismo continua relevante e que pode mediar o tema “em breve”, caso os Estados-membros assim solicitem.

A crescente rivalidade entre Estados Unidos e China também permeia as discussões na região.

Países latino-americanos enfrentam pressão direta na disputa por influência global, mas o representante da OEA defende que o hemisfério não deve permitir que essa competição externa contamine suas relações internas.

Veja a entrevista concedida pelo diplomata à CNN:

CNN: O senhor pode falar um pouco sobre sua viagem ao Brasil e sobre as reuniões previstas?

Albert Ramdin: “Temos uma programação completa, é uma visita oficial, e eu presumo que parte dessa programação inclua também um encontro com o presidente da República Federativa do Brasil. Certamente vou me reunir com diversos ministros e, claro, com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. A liderança do Brasil é importante, e quero discutir com as autoridades de política externa todos os desafios que estamos enfrentando. Não se trata apenas da relação bilateral entre a OEA e o Brasil, mas de questões mais amplas, como fortalecer a cooperação regional, aprofundar a unidade entre os países, falar sobre as muitas eleições que teremos nas Américas e sobre como podemos trabalhar juntos para promover paz e prosperidade. A contribuição do Brasil para o hemisfério não deve ser subestimada, assim como seu papel dentro da OEA.”

CNN: Como a OEA avalia as ações militares recentes dos Estados Unidos no Caribe e a escalada de tensões com a Venezuela?

Albert Ramdin: “Nós estamos monitorando todos esses acontecimentos. Temos conhecimento de todos os movimentos, declarações e ações realizadas. Incentivamos fortemente que todos os Estados-membros mantenham um nível de paz e segurança no hemisfério. Nós somos uma zona de paz nas Américas e queremos preservar isso. Qualquer conflito, caso exista, não pode escalar a ponto de gerar insegurança. Diplomacia, consultas e discussões devem prevalecer, e os países precisam se abster de ações que possam comprometer a segurança continental. Espero que a responsabilidade dos Estados envolvidos seja demonstrada.”

CNN: A crise interna da Venezuela ainda produz grande instabilidade regional. Qual a avaliação da OEA?

Albert Ramdin: “Sabemos que existem problemas na Venezuela, especialmente relacionados à legitimidade da administração atual. Sei que muitos governos pedem às autoridades venezuelanas que apresentem provas de que venceram as eleições. Para a OEA, que representa 34 Estados-membros, não se trata de escolher um lado. É importante manter algum nível de engajamento com autoridades e outros atores. Nosso papel é buscar soluções para o futuro. O multilateralismo é essencial. No momento, essa questão não está no Conselho Permanente da OEA. Eu espero que isso ocorra em breve, após solicitação dos Estados-membros, para discutir não apenas a Venezuela, mas também a questão das ações dos Estados Unidos no Caribe.

CNN: Há quem diga que a organização já não tem o peso de antes.

Albert Ramdin: “Há um sentimento no mundo inteiro, e isso não é exclusivo da OEA, acontece também com o Conselho de Segurança da ONU e outras organizações, que o valor do multilateralismo e intuições multilaterais é menos forte que antes. Pode haver verdade nisso, mas a OEA ainda é fundamental. Se ela não existisse, teríamos problemas muito maiores. A organização existe há quase 80 anos e foi decisiva na transição das Américas de ditaduras para democracias. Temos desafios, claro, mas avançamos muito. Hoje o continente é majoritariamente pacífico e comprometido com soluções. É esse espírito que precisamos preservar.”

CNN: E sobre a crise migratória que afeta o continente?

Albert Ramdin: “Precisamos de uma visão mais ampla. Eu entendo e respeito as medidas individuais de países que deportam ou repatriam migrantes irregulares. Cada país tem o direito de aplicar sua legislação. Mas não basta o arcabouço jurídico. Precisamos entender as causas: insegurança, crime organizado, falta de oportunidades, pobreza extrema. Isso gera migração forçada. A maioria dessas pessoas não quer ir embora; elas são obrigadas. A solução passa por investimentos em emprego, educação e desenvolvimento nos próprios países de origem. Sem isso, a pressão migratória continuará.”

CNN: A região está sendo pressionada pela rivalidade entre EUA e China?

Albert Ramdin: “Esperamos que essas tensões não tenham impacto nas relações dentro do hemisfério. Os países vão resolver seus problemas no nível global. As Américas têm seus próprios desafios. Precisamos de unidade. Já vivemos uma polarização política intensa; não podemos importar rivalidades externas. Não acho que os países devam escolher lados, mas essa decisão cabe a eles. Devemos encontrar formas de trabalhar com ambos. Coletivamente somos mais fortes.”

CNN: O Brasil pode liderar algum tipo de mediação na crise da Venezuela?

Albert Ramdin: “O Brasil deve determinar o papel que deseja. É um país grande, com tradição diplomática forte e liderança nas Américas. Vejo valor na visão brasileira. Queremos manter a região como zona de paz. Grandes economias como Brasil, Argentina, Canadá e México, todas do G20, podem, juntas, criar um ambiente melhor de paz e prosperidade.”

CNN: A OEA foi acionada após a aplicação da Lei Magnitsky e sanções contra brasileiros?

Albert Ramdin:“O assunto não chegou à OEA, e sou cauteloso ao falar de temas bilaterais. É importante que os países conversem. Há canais diplomáticos e políticos para isso. Somos parte do mesmo espaço geográfico. Precisamos resolver problemas de forma pacífica e construir uma agenda comum baseada em desenvolvimento e resultados positivos. É uma questão bilateral e espero que seja resolvida. Os dois países são maduros e encontrarão um caminho.”