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    Onda de assassinatos políticos coloca em risco democracia no México

    Analistas dizem que execuções estão ligadas aos cartéis de drogas, que tentam influenciar as eleições

    Ramiro Solorio, candidato a prefeito de Acapulco pelo Partido Encuentro Social (PES), é acompanhado por membros da Guarda Nacional Mexicana durante campanha no México
    Ramiro Solorio, candidato a prefeito de Acapulco pelo Partido Encuentro Social (PES), é acompanhado por membros da Guarda Nacional Mexicana durante campanha no México 09/05/2024REUTERS/Raquel Cunha

    Lizbeth Diazda Reuters

    Acapulco, México

    Dezenas de candidatos políticos foram mortos no México, antes das eleições nacionais de 2 de junho. Em algumas partes do país, o risco de violência e assassinato é tão alto que muitos dos candidatos fazem campanhas politicas ao lado de guardas armados, usam coletes à prova de balas e andam em carros blindados.

    “Temos medo de ser assassinados”, disse Ramiro Solorio, de 55 anos, candidato a prefeito de Acapulco, ao cumprimentar moradores de uma das periferias pobres da cidade mexicana que disputa cargo.

    Solorio é protegido por 15 membros da Guarda Nacional após autoridades federais constatarem riscos significativos à sua segurança.

    Mais candidatos políticos foram mortos no estado de Guerrero, onde fica Acapulco, do que em qualquer outro estado do México.

    De setembro a maio, 34 candidatos ou aspirantes a candidatos foram assassinados em todo o México. Analistas de segurança dizem que as execuções estão ligadas principalmente aos cartéis de drogas, que tentam influenciar as eleições locais.

     

     

    A Reuters conversou com mais de uma dúzia de candidatos e chefes de partidos para entender o impacto da violência nas eleições locais e os temores enfrentados por muitos aspirantes a políticos.

    Solorio, que concorre pelo Partido Encontro Social, está particularmente preocupado porque fez da segurança uma questão central de sua campanha.

    Vestindo-se frequentemente como um lutador mexicano com uma máscara azul de luta livre, ele se autodenominou “El Brother”, enquanto bate de porta em porta prometendo ser duro contra o crime e a corrupção.

    “A coexistência entre o governo e o crime é uma realidade”, alegou o candidato, prometendo limpar o governo local e restaurar a lei e a ordem.

    A expectativa é que o partido do atual presidente do México, Morena, vença confortavelmente a eleição presidencial.

    Entretanto, a violência contra candidatos locais é uma mancha significativa no legado do presidente Andrés Manuel López Obrador, gerando mais críticas de que ele não conseguiu melhorar a situação de segurança do México.

    López Obrador deixará o cargo neste ano, ao final do mandato. Seu sucessor será escolhido em 2 de junho, mesmo dia das eleições para os governos locais, mais afetados pela violência.

    O atual presidente minimizou os dados que mostram um aumento nos ataques como “sensacionalismo”.

    O líder mexicano defende legado na segurança, apontando para uma queda de 5% nos homicídios no ano passado em comparação com 2022. Mas o número de assassinatos ainda gira em torno de 30 mil por ano e mais pessoas foram mortas durante seu mandato do que em qualquer outra administração na história moderna do México.

    “Há áreas em que os candidatos definitivamente não podem entrar”, disse Eloy Salmeron, chefe do partido oposicionista PAN em Guerrero.

    Em algumas regiões, o partido não apresentou nenhum candidato. “Há muito medo”, acrescentou.

    Presidente do México, Andres Manuel Lopez Obrador
    Presidente do México, Andrés Manuel López Obrador / Foto: Divulgação

    Campanha eleitoral com maior violência contra candidatos

    A campanha eleitoral desde ano já registrou o maior número de incidentes violentos contra candidatos, informou a consultoria de risco Integralia. Foram 560 incidentes, número muito superior aos 389 registrados na última eleição presidencial.

    A soma de mortes das eleições presidenciais deste ano ainda está ligeiramente abaixo da registrada nas eleições para governador de 2021.

    “A violência que o processo eleitoral está enfrentando é sem precedentes”, disse Armando Vargas, especialista da Integralia.

    As preocupações com a segurança fizeram com que dezenas de aspirantes a candidatos desistissem no México, e inúmeros outros decidiram não concorrer.

    O impacto na política municipal, em particular, colocou em risco o próprio funcionamento da democracia em determinados estados.

    Na cidade Tumbiscatio, no estado mexicano Michoacan, cartéis usaram drones armados com explosivos e autoridades decidiram que local não é seguro o suficiente para abrigar uma cabine de votação. Eleitores precisarão viajar para um município vizinho para escolher prefeito e outros cargos municipais.

    No estado, os locais de 11 cabines de votação originalmente planejados foram cancelados devido, em parte, a preocupações com a segurança, segundo planilha da autoridade eleitoral vista pela Reuters.

    “É um ataque à própria democracia”, disse Vicente Sanchez, especialista em segurança do Instituto de Pesquisa Pública Colegio de la Frontera Norte (Colef), em Tijuana.

    Ele afirma que grupos do crime organizado estão efetivamente escolhendo as autoridades locais, ameaçando ou assassinando aqueles a quem se opõem.

    Em Michoacan, que faz fronteira com Guerrero, Francisco Huacus está concorrendo ao Congresso pelo partido PRD. Ele faz campanha em um veículo blindado e veste colete à prova de balas.

    “Temos que fazer campanha como se estivéssemos em uma zona de guerra”, disse.

    Huacus relata que seus colegas candidatos a cargos locais correm ainda mais perigo do que ele, dado que os grupos do crime organizado estão mais interessados em exercer influência local para ajudar a controlar as rotas do tráfico.

    Diante dos ataques, o governo mexicano estendeu a proteção de segurança — geralmente envolvendo guardas armados — a cerca de 500 candidatos em todo o país que declararam que suas vidas estão em risco. Essa é apenas uma pequena fração do total de candidatos que concorrem a mais de 20 mil cargos políticos na votação de junho.