ONU alerta para censura e mortes no Dia da Liberdade de Imprensa

Secretário-geral destaca aumento de assassinatos de jornalistas, impunidade e pressão sobre o jornalismo no mundo

João Scavacin, da CNN Brasil, em São Paulo
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No Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, celebrado neste domingo (3), a ONU (Organização das Nações Unidas) fez um alerta sobre os riscos enfrentados por jornalistas em diferentes partes do mundo, incluindo censura, vigilância, assédio judicial e mortes.

Em mensagem, o secretário-geral António Guterres afirmou que a atividade jornalística atravessa um momento de pressão crescente, marcado por ameaças à segurança dos profissionais e restrições ao acesso à informação.

Segundo Guterres, os últimos anos registraram um aumento acentuado no número de jornalistas mortos, muitos deles deliberadamente visados em zonas de conflito.

O secretário-geral destacou ainda que 85% dos crimes cometidos contra profissionais da imprensa não são investigados nem resultam em condenação, cenário que classificou como “um nível de impunidade inaceitável”.

Na mensagem, o líder das Nações Unidas ressaltou que jornalistas colocam em risco a própria segurança para relatar fatos e buscar a verdade, tanto em cenários de guerra quanto em contextos em que autoridades e grupos de poder tentam evitar fiscalização pública e escrutínio.

Guterres também comentou que fatores como crises econômicas, novas tecnologias e manipulação de informações têm ampliado a pressão sobre a liberdade de imprensa em escala global. Para ele, a deterioração do acesso à informação confiável e a distorção do debate público aprofundam a desconfiança social e fragilizam a coesão entre sociedades.

Ainda de acordo com o secretário-geral, ataques ao jornalismo dificultam a prevenção e a resolução de crises, ao comprometerem a circulação de informações verificadas e o acompanhamento de acontecimentos de interesse público.

Ao final da mensagem, António Guterres defendeu a proteção dos direitos dos jornalistas e pediu a construção de um ambiente em que profissionais da imprensa possam atuar com segurança e em que a verdade seja preservada.

Violência online amplia riscos para mulheres jornalistas

Além das ameaças físicas e institucionais, profissionais da imprensa, especialmente mulheres, também enfrentam aumento da violência digital. Dados do relatório Ponto de Virada: Impactos, Manifestações e Reparação da Violência Online na Era da Inteligência Artificial mostram que, desde 2020, delegacias e postos policiais em todo o mundo passaram a receber o dobro de denúncias relacionadas à violência contra mulheres que atuam no jornalismo.

O estudo, financiado pela União Europeia e encomendado pela ONU Mulheres, aponta que 12% das entrevistadas relataram ter sofrido compartilhamento não consensual de imagens pessoais, incluindo conteúdos íntimos ou sexuais. Outras 6% afirmaram ter sido vítimas de "deepfakes", enquanto quase uma em cada três recebeu mensagens com investidas sexuais não solicitadas.

A pesquisa conclui que esses ataques costumam ser deliberados e coordenados, com o objetivo de silenciar mulheres em espaços públicos e comprometer sua credibilidade profissional e reputação pessoal.

Os impactos já aparecem no comportamento das vítimas. Segundo o levantamento, 41% das mulheres entrevistadas afirmaram praticar autocensura nas redes sociais para evitar abusos, enquanto 19% disseram restringir sua atuação profissional como consequência direta da violência online.

Entre jornalistas e profissionais da mídia, os índices são ainda mais altos. 45% relataram autocensura nas redes sociais no último ano, aumento de 50% em relação a 2020, e quase 22% disseram limitar conteúdos ou posicionamentos no trabalho. Uma em cada quatro jornalistas foi diagnosticada com ansiedade ou depressão associadas à violência digital, enquanto quase 13% relataram diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático.

O relatório também aponta fragilidade na proteção legal. Com base em dados do Banco Mundial, menos de 40% dos países possuem legislação específica para proteger mulheres contra assédio cibernético e perseguição online, deixando cerca de 1,8 bilhão de mulheres e meninas sem respaldo jurídico.

A chefe da Seção de Fim da Violência contra as Mulheres da ONU Mulheres, Kalliopi Mingeirou, declarou que o avanço da inteligência artificial tem tornado o abuso online mais acessível e mais nocivo. De acordo com ela, esse cenário contribui para a erosão de direitos em um contexto de retrocessos democráticos e misoginia em rede, exigindo respostas urgentes de sistemas legais, plataformas digitais e instituições.

Brasil passa EUA em ranking de liberdade de imprensa pela 1ª vez

O Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026, publicado na quinta-feira (30), pela organização RSF (Repórteres Sem Fronteiras), mostrou que o Brasil subiu para a 52ª posição no ranking deste ano, ultrapassando, pela primeira vez, os Estados Unidos, que ocupam o 64º lugar.

Dentre as 180 nações avaliadas, o Brasil avançou 58 posições desde 2022, saindo do 111º lugar. Em relação a 2025, os brasileiros subiram cinco posições, saindo do 63º lugar e ultrapassando os americanos pela primeira vez desde a criação do índice, em 2002.

Os Estados Unidos registraram outra queda pelo quarto ano consecutivo, indo da 42ª posição em 2022 para a atual 64ª. Segundo a organização, Washington caiu nos indicadores de Segurança e de Contexto Político.

"O presidente dos EUA, Donald Trump, transformou seus repetidos ataques à imprensa e aos jornalistas em uma política sistemática", diz o documento.

A RSF atribuiu a melhora brasileira devido à implementação de protocolos que investigam crimes contra profissionais de imprensa e ao fato de não haver registros de assassinatos de jornalistas no país desde 2022.

A facilitação do acesso à informação no Brasil também é apontada como um fator para a melhora na posição, assim como o fim de hostilidades do governo contra a imprensa do país, que ocorria no período anterior a 2023.

Apesar da melhora na posição, o Brasil é avaliado como um país em condição problemática, que deve melhorar quesitos políticos, econômicos e sociais.

Em primeiro lugar no índice apareceu a Noruega com um "mercado de mídia dinâmico, uma emissora pública forte, setor privado diversificado e editoras com independência editorial", consta o levantamento.

Já ocupando a pior posição em liberdade de imprensa, está a Eritreia, país do nordeste da África. O documento aponta que o país mantém controle total da mídia, não havendo veículos independentes, além de aprisionar jornalistas e manter vigilância constante.