Papa Leão alerta no Parlamento da Espanha que mundo está em profunda crise
Esta foi a primeira vez que um pontífice discursou no Congresso espanhol

O papa Leão XIV disse ao Parlamento da Espanha que a escalada dos conflitos, o aprofundamento da polarização e o desrespeito generalizado aos direitos humanos levaram o mundo a uma crise profunda, em um de seus discursos políticos mais abrangentes até agora, nesta segunda-feira (8).
Leão, que adotou um tom mais enérgico recentemente contra a direção da liderança global, também repetiu com firmeza sua oposição ao aumento dos gastos militares europeus, pedindo aos políticos que, em vez disso, acabem com as guerras que assolam o mundo e ajudem os imigrantes.
"O mundo está passando por uma profunda crise espiritual e cultural, que se manifesta em múltiplas formas de violência, polarização e desconfiança mútua", disse o papa no discurso, que veio horas depois que Israel e Irã renovaram seus ataques um contra o outro no teste mais grave a um cessar-fogo de dois meses.
"As armas podem impor um silêncio temporário, mas nunca podem construir uma paz autêntica e duradoura", afirmou ele.
O papa também se reuniu nesta segunda-feira com seis vítimas de abuso sexual praticado por membros do clero e disse aos bispos que eles precisam oferecer reparações, buscando solucionar um escândalo que prejudicou gravemente a credibilidade da Igreja local.
Um relatório de 2023 do Provedor de Direitos Humanos da Espanha estimou que houve centenas de milhares de vítimas de abusos clericais no país ao longo de décadas.
Fundamentos éticos
Proferidas em espanhol e recebidas com sete minutos de aplausos de pé pelos parlamentares, as declarações de Leão marcaram um raro discurso papal a um Legislativo nacional e o primeiro de um papa ao Parlamento da Espanha. A fala faz parte de uma visita de uma semana ao país, na qual o pontífice se reuniu com imigrantes e sem-teto, e pediu aos líderes nacionais que parem de dividir seus eleitorados.
O papa, cuja visita à Espanha culminará com encontro com imigrantes nas Ilhas Canárias que enfrentaram as perigosas águas do Atlântico para entrar na Europa, disse que a falta de ajuda aos imigrantes do mundo está desafiando "o fundamento ético da ordem internacional".
Ele afirmou que os países devem buscar soluções que vão além da "mera gestão de fluxos migratórios" e que abordem as causas que forçam as pessoas a deixar seus países de origem, incluindo guerras, pobreza e mudanças climáticas.
Ele declarou ao Parlamento que "a grandeza moral de uma nação se manifesta acima de tudo em sua capacidade de acompanhar, proteger e amar as vidas que passam pela maior fragilidade".
Mais de 3.000 pessoas morreram em 2025 tentando chegar às Ilhas Canárias, na costa oeste da África, muitas vezes em botes improvisados, de acordo com a ONG Caminando Fronteras.
O governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez lançou um programa de anistia em massa, permitindo que cerca de 500 mil imigrantes solicitem a regularização de sua situação migratória.
Alerta contra perigos da IA
Leão, que publicou um manifesto fervoroso no mês passado instando governos globais a desacelerarem o desenvolvimento de sistemas de IA, pediu nesta segunda-feira uma "vigilância ética rigorosa" sobre como a IA é usada na guerra.
Para ele, o aumento dos gastos militares europeus, que cresceram no ano passado no maior ritmo desde o fim da Guerra Fria em meio à pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é "preocupante".
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, recusou-se a atender às exigências de Trump para que os países-membros da Otan aumentem gastos com defesa para 5% do PIB. No mês passado, o papa classificou o rearmamento europeu como uma traição à diplomacia.
Leão também apresentou algumas de suas observações mais profundas até o momento, abordando o equilíbrio na relação entre Igreja e Estado. Ele defendeu a proteção da liberdade religiosa, afirmando que a fé "não pode ser relegada ao silêncio como se fosse irrelevante para a vida pública".
O papa também defendeu a privacidade do sigilo da confissão católica, que obriga o sacerdote a não revelar nenhuma informação que lhe seja dada pelos penitentes.
Diversos países, incluindo a França, têm debatido se devem obrigar os padres a denunciar os abusos sexuais revelados em confissões, na esteira de escândalos que abalaram a Igreja internacionalmente.
Proteger o selo, disse Leão, preserva "um espaço sagrado de liberdade interior, onde o crente pode abrir sua alma diante de Deus".


