Para que serve a palavra 'guerra'
Se essa for a única palavra com o poder de mobilizar as pessoas antes que a morte bata à sua porta, então, que seja: estamos em guerra

Um dos principais desafios dos governantes neste momento é explicar para a população de seus países por que é preciso impor um sofrimento econômico tão grande, causado pela paralisação das atividades. Isso é ainda mais difícil porque as pessoas mais vulneráveis, que têm menos reservas financeiras, são também as que têm trabalhos que não podem ser realizados remotamente, e ainda as que têm menor grau de instrução, menos informação e, portanto, menor capacidade de entender uma ameaça invisível, abstrata — até o coronavírus matar alguém próximo, ou até precisarem de um hospital, e o encontrarem lotado.
É por isso que os líderes têm usado cada vez mais a palavra “guerra”. Em seu pronunciamento neste domingo, a rainha Elizabeth II lembrou a primeira vez que se dirigiu ao povo britânico. Foi pelo rádio, em 1940, ao lado de sua irmã, Margareth. As duas meninas explicaram para as crianças do país por que elas precisavam ficar em casa, para se proteger dos bombardeios alemães.
A Segunda Guerra Mundial também foi lembrada nesse domingo pelo vice-almirante Jerome Adams, supervisor do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos: “Isso vai ser um Pearl Harbor, um 11 de Setembro”. Em número de mortos, já é algo bem maior. O ataque japonês ao porto do Havaí, em 1941, matou 2.403 pessoas; os atentados de 11/9/2001, cerca de 3 mil. Até o domingo, a Covid-19 havia matado 9.441 americanos. E a curva ainda está subindo. Como disse o presidente Donald Trump no sábado: “Vai haver muita morte (nas próximas duas semanas)”.
A força da comparação com esses eventos não está no número de mortes, mas na forma como o país se mobilizou naqueles momentos. Ninguém duvidava da gravidade da ameaça. É a esse sentimento, desconhecido da maioria das pessoas, que esses líderes querem remetê-las.
Nesses três meses de Covid-19, o mundo já coleciona um volume extraordinário de informações e de experiências, tanto positivas quanto negativas. Na Ásia e na Europa, já existem muitos aprendizados sobre o que deu certo e o que não deu certo. Em síntese: não há como impedir o alastramento do vírus e o colapso dos sistemas de saúde sem o isolamento e distanciamento social, para retardar a contaminação e dar tempo para uma parte da população se curar antes de outra parte adoecer.
Por incrível que pareça, no entanto, uma grande fatia da população mundial parece não ter acesso à informação e à análise corretas, ou ainda a capacidade de processar uma e outra. Entram então alguns líderes políticos, empresariais e religiosos, com o interesse de manipular os sentimentos das pessoas, que já resistem à ideia de paralisar suas atividades, seu ganha-pão, e encontram nessas mensagens o reforço, a ilusão que buscavam. Graças a essa negação da realidade, a doença se espalha, mata mais e prejudica mais a economia.
É claro que não se pode simplesmente dizer para as pessoas ficarem em casa sem oferecer uma fonte de receita para manter aquelas que não podem trabalhar remotamente, ou cujos segmentos econômicos tenham paralisado. Como mostram agora os 10 milhões de pedidos de seguro-desemprego nos EUA nas duas últimas semanas, a paralisia atinge em cheio os serviços de hospedagem, alimentação, lazer, e mesmo o de saúde (não relacionado com doenças respiratórias), que têm salários baixos e poucos direitos trabalhistas.
Parte da resistência tem origem exatamente nisso: muitos governantes, empresários, líderes religiosos e mesmo indivíduos com mais reservas financeiras não se sentem confortáveis em ter de parar de ganhar e, além disso, ainda repartir o que têm com outros.
Daí então de novo a necessidade de palavras dramáticas. Eu, que cobri muitas guerras, nunca gostei da banalização dessa palavra. Nada é comparável com a sensação de estar sob bombardeio, ou no meio de tiroteio, ao longo de dias, semanas, meses. Mas, se essa for a única palavra com o poder de mobilizar as pessoas antes que a morte bata à sua porta, então, que seja: estamos em guerra.