Pentágono suspende orientação sobre triagem de testosterona para militares

Departamento de Defesa afirmou que o objetivo seria melhorar a prontidão; médicos expressaram preocupação com a medida

Idrees Ali e Julie Steenhuysen, da Reuters
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O Pentágono está suspendendo temporariamente uma orientação clínica publicada recentemente sobre uma nova política de triagem obrigatória para deficiência de testosterona entre militares com 30 anos ou mais, informou uma autoridade americana à Reuters nesta quinta-feira (03).

Na quarta-feira, o Pentágono publicou em seu site a “Orientação Clínica para Otimização da Saúde e do Desempenho Humano”. Na quinta-feira, o memorando e uma declaração do porta-voz Sean Parnell haviam sido removidos.

“O documento preliminar publicado em 2 de setembro de 2026 foi temporariamente suspenso para permitir atualizações”, disse a autoridade, acrescentando que a orientação provisória continua em vigor.

A Reuters foi a primeira a informar que a orientação havia sido suspensa.

As diretrizes clínicas detalhadas estabeleciam procedimentos distintos de triagem para deficiência de testosterona em homens e mulheres, que deveriam ocorrer durante as avaliações anuais de saúde.

A orientação entraria em vigor imediatamente, e o Pentágono afirmou que seu objetivo era melhorar a prontidão militar por meio da identificação e do tratamento de problemas hormonais e relacionados à disponibilidade de energia.

"Página não encontrada"

Um aviso de “Página não encontrada” apareceu nos sites do Pentágono e da Agência de Saúde de Defesa ao clicar nos links para o memorando e a declaração.

A orientação publicada na quarta-feira dizia que homens com 30 anos ou mais seriam submetidos a uma triagem por meio de um questionário, que poderia levar à realização de um exame de sangue para medir os níveis de testosterona e, se necessário, ao tratamento com hormônio testosterona.

As mulheres também passariam por um questionário e poderiam posteriormente receber tratamento para condições relacionadas a desequilíbrios hormonais que podem se manifestar como Deficiência Energética Relativa no Esporte (RED-S). A terapia hormonal com testosterona é recomendada apenas para o transtorno do desejo sexual hipoativo, caracterizado por um nível de interesse sexual reduzido que causa sofrimento.

O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, que tem promovido o uso de testosterona, anunciou a obrigatoriedade da triagem em julho, levantando questionamentos entre especialistas sobre a existência de uma base científica para uma política desse tipo. A Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA) planeja realizar uma reunião de especialistas em meados de setembro para discutir o uso médico da testosterona.

Médicos levantam preocupações

Médicos expressaram preocupação de que testes amplos de testosterona possam levar a tratamentos desnecessários ou potencialmente prejudiciais. Segundo eles, há poucas evidências de que a triagem universal para baixos níveis de testosterona entre militares melhoraria a prontidão das forças armadas dos EUA.

Nem a Associação Americana de Urologia nem a Sociedade Endócrina recomendam a realização rotineira de exames para detectar baixos níveis de testosterona.

A médica Helen Bernie, especialista em medicina sexual e reprodutiva masculina da Universidade de Indiana, disse ser favorável ao programa de triagem porque ele poderia identificar homens com problemas de saúde subjacentes importantes. Sobre a orientação que o Pentágono publicou na quarta-feira e posteriormente retirou, ela disse estar satisfeita com a inclusão de salvaguardas como a repetição dos exames, a investigação de causas reversíveis e o tratamento dessas causas, além de aconselhamento sobre fertilidade.

O médico Jason Goldman, especialista em medicina interna e ex-presidente imediato do Colégio Americano de Médicos, disse que a reposição de testosterona é útil quando as pessoas são devidamente avaliadas para condições nas quais o organismo não produz quantidade suficiente do hormônio.

Mas Goldman afirmou que existe risco de tratamento excessivo e de danos. Segundo ele, a reposição de testosterona pode agravar condições como a apneia do sono, aumentar a contagem de glóbulos vermelhos, elevar o risco de problemas cardíacos, aumentar o risco de infertilidade e agravar um câncer de próstata ainda não diagnosticado.

Ele disse que não há evidências de que uma triagem ampla entre militares produzirá um resultado positivo.

“Tomar testosterona não vai fazer de você um homem mais másculo, mais forte ou um indivíduo mais robusto. Simplesmente não é assim que funciona”, disse Goldman. “É uma política ruim em todos os aspectos.”