Prime Time

seg - sex

Apresentação

Ao vivo

A seguir

    “Perda de vidas e destruição de lares”: Lula critica guerra na Ucrânia e diz que medidas da ONU “já não funcionam”

    Presidente falou em sessão da cúpula do G7, no Japão, neste domingo (21)

    Presidente Lula em reunião do G7, no Japão.
    Presidente Lula em reunião do G7, no Japão. Ricardo Stuckert

    Da CNN

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) falou na sessão de trabalho da cúpula do G7 neste domingo (21), no Japão. Lula criticou a inoperância da Organização das Nações Unidas (ONU) em relação à prevenção de conflitos e repudiou os ataques na Ucrânia.

    Em discurso lido na sessão “Rumo a um mundo pacífico, estável e próspero”, que reuniu todos os países convidados, Lula afirmou que “os mecanismos multilaterais de prevenção e resolução de conflitos já não funcionam”.

    “Condenamos a violação da integridade territorial da Ucrânia”, disse o petista, reforçando sua posição desarmamentista ao afirmar que armas nucleares “não são fonte de segurança”, mas “instrumento de extermínio em massa que nega nossa humanidade e ameaça a continuidade da vida na Terra”.

    Antes de ler o discurso, Lula improvisou sobre a necessidade de abordar o tema da guerra da Ucrânia na ONU, que não estaria convocando reuniões sobre a pauta.

    Na fala, Lula disse que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, “deve se explicar” à ONU, assim como todos os países envolvidos na guerra.

    No Twitter, o presidente publicou que tem “repetido quase à exaustão que é preciso falar da paz” e que os combates “aumentam o sofrimento humano, a perda de vidas e a destruição de lares”.

    Lula sugeriu novamente que o Conselho de Segurança da ONU, “mais paralisado do que nunca”, seja reformado – declaração já feita em discurso na cúpula no sábado (20).

    No discurso deste domingo, o presidente sustentou a necessidade de reforma ao relembrar que as 3 últimas grandes guerras foram feitas por membros do Conselho de Segurança da ONU.

    “Membros permanentes continuam a longa tradição de travar guerras não autorizadas pelo órgão. O resultado é que hoje temos um Conselho que não dá conta nem dos problemas antigos, nem dos atuais, muito menos dos futuros.”

    O presidente destacou que o Brasil não trava conflitos com países vizinhos há mais de 150 anos e que o país participa de acordos de não proliferação nuclear.

    Por fim, Lula chamou atenção para conflitos que acontecem para além da Europa.

    “Israelenses e palestinos, armênios e azéris, cossovares e sérvios precisam de paz. Yemenitas, sírios, líbios e sudaneses, todos merecem viver em paz. Esses conflitos deveriam receber o mesmo grau de mobilização internacional”, dando especial atenção ao Haiti, que enfrenta problemas em decorrência de “décadas de indiferença quanto às reais necessidades do país”.

    Lei o discurso na íntegra

    Hiroshima é o cenário propício para uma reflexão sobre as catastróficas consequências de todos os tipos de conflito. Essa reflexão é urgente e necessária. Hoje, o risco de uma guerra nuclear está no nível mais alto desde o auge da Guerra Fria.

    Em 1945, a ONU foi fundada para evitar uma nova Guerra Mundial. Mas os mecanismos multilaterais de prevenção e resolução de conflitos já não funcionam.

    O mundo já não é o mesmo. Guerras nos moldes tradicionais continuam eclodindo, e vemos retrocessos preocupantes no regime de não-proliferação nuclear, que necessariamente terá que incluir a dimensão do desarmamento.

    As armas nucleares não são fonte de segurança, mas instrumento de extermínio em massa que nega nossa humanidade e ameaça a continuidade da vida na Terra.

    Enquanto existirem armas nucleares, sempre haverá a possibilidade de seu uso.

    Foi por essa razão que o Brasil se engajou ativamente nas negociações do Tratado para a Proibição de Armas Nucleares, que esperamos poder ratificar em breve.

    Em linha com a Carta das Nações Unidas, repudiamos veementemente o uso da força como meio de resolver disputas. Condenamos a violação da integridade territorial da Ucrânia.

    Ao mesmo tempo, a cada dia em que os combates prosseguem, aumentam o sofrimento humano, a perda de vidas e a destruição de lares.

    Tenho repetido quase à exaustão que é preciso falar da paz. Nenhuma solução será duradoura se não for baseada no diálogo. Precisamos trabalhar para criar o espaço para negociações.

    Também não podemos perder de vista que os desafios à paz e à segurança que atualmente afligem o mundo vão muito além da Europa.

    Israelenses e palestinos, armênios e azéris, cossovares e sérvios precisam de paz. Yemenitas, sírios, líbios e sudaneses, todos merecem viver em paz. Esses conflitos deveriam receber o mesmo grau de mobilização internacional.

    No Haiti, precisamos agir com rapidez para aliviar o sofrimento de uma população dilacerada pela tragédia. O flagelo a que está submetido o povo haitiano é consequência de décadas de indiferença quanto às reais necessidades do país. Há anos o Brasil vem dizendo que o problema do Haiti não é só de segurança, mas, sobretudo, de desenvolvimento.

    O hiato entre esses desafios e a governança global que temos continua crescendo. A falta de reforma do Conselho de Segurança é o componente incontornável do problema.

    O Conselho encontra-se mais paralisado do que nunca. Membros permanentes continuam a longa tradição de travar guerras não autorizadas pelo órgão, seja em busca de expansão territorial, seja em busca de mudança de regime.

    Mesmo sem conseguir prevenir ou resolver conflitos através do órgão, alguns países insistem em ampliar a agenda do Conselho cada vez mais, trazendo novos temas que deveriam ser tratados em outros espaços do sistema ONU.

    O resultado é que hoje temos um Conselho que não dá conta nem dos problemas antigos, nem dos atuais, muito menos dos futuros.

    O Brasil vive em paz com seus vizinhos há mais de 150 anos. Fizemos da América Latina uma região sem armas nucleares. Também nos orgulhamos de ter construído, junto com vizinhos africanos, uma zona de paz e não proliferação nuclear no Atlântico Sul.

    Testemunhamos a emergência de uma ordem multipolar que, se for bem recebida e cultivada, pode beneficiar a todos.

    A multipolaridade que o Brasil almeja é baseada na primazia do direito internacional e na promoção do multilateralismo.

    Reeditar a Guerra Fria seria uma insensatez.

    Dividir o mundo entre Leste e Oeste ou Norte e Sul seria tão anacrônico quanto inócuo.

    É preciso romper com a lógica de alianças excludentes e de falsos conflitos entre civilizações.

    É inadiável reforçar a ideia de que a cooperação, que respeite as diferenças, é o caminho correto a seguir.

    Muito obrigado.

    (Publicado por Gustavo Zanfer)