Petróleo: dessa vez, combinaram com os russos

Os EUA têm todo o interesse em cortar a produção, como exigiu a Rússia nas negociações com os sauditas, para elevar o preço do óleo

Presidente da Rússia, Vladimir Putin
Presidente da Rússia, Vladimir Putin Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Lourival Sant'Annada CNN

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Rússia e Arábia Saudita colocaram fim à guerra de preços por fatias no mercado, que inundou o mundo de petróleo e se somou à pandemia para derrubar o preço do barril de mais de US$ 60, em janeiro, para menos de US$ 30. Os dois países concordaram em cortar em 10 milhões de barris por dia (mb/d) a produção do grupo chamado Opep+, que inclui os integrantes da organização liderada pela Arábia Saudita mais os seus aliados, sendo a Rússia a principal.

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O acordo prevê ainda que outros países produtores fora desse grupo cortem outros 5 mb/d, totalizando 15% da produção mundial. A queda na demanda por causa da pandemia e mais o aumento da produção desencadeado pela guerra de preços entre russos e sauditas geraram um excedente de 30 mb/d. A capacidade de armazenamento do mundo já estava se esgotando. 

O acordo, portanto, resolve apenas metade do problema. Por isso, depois de uma euforia inicial que levou a uma alta de 11 centavos de dólar no barril do tipo Brent, ele encerrou o dia em queda de 4 centavos, a US$ 31,48.

A proposta de corte pelos outros produtores será levada à teleconferência do G-20 nesta sexta-feira pela Arábia Saudita, que está na presidência de turno do grupo. 

Os representantes russos disseram, durante as negociações com os sauditas, que só colocariam o corte de sua produção em prática se os Estados Unidos fizessem o mesmo. O objetivo da Rússia ao rejeitar a proposta saudita de cortar a produção, no dia 6 de março, era justamente reduzir a fatia de mercado do petróleo de xisto americano. 

A Opep recomendou na época a redução de 1,5 mb/d para conter a queda do preço causada pela diminuição da demanda em razão da pandemia. Os sauditas produziam na época 9,8 mb/d; hoje esse número está em 12 mb/d. A Rússia, alinhada desde 2016 com os sauditas, viu na proposta de corte a chance de uma flexão de músculos com os EUA por meio de sua aliada, a Arábia Saudita. O barril do petróleo de xisto americano custa perto de US$ 30 para ser extraído, enquanto o russo sai por cerca de US$ 19 e o saudita, US$ 3.

Os russos estão incomodados com a importância ganha pelos Estados Unidos no mercado, que nos últimos anos se tornaram o maior produtor mundial e o quarto exportador. Além disso, os americanos vêm atuando como co-reguladores (ao lado de Opep e Rússia) do preço, graças às sanções impostas por eles ao Irã e à Venezuela. Por meio de waivers, ou concessões especiais, o governo americano autoriza empresas a explorar e comercializar petróleo desses países. 

A gota d’água para a retaliação russa foi a imposição, em dezembro, de sanções americanas contra a construção do gasoduto Nord Stream 2, que liga a Rússia à Alemanha. As sanções levaram a construtora suíça Allseas a suspender a obra, no dia 21 de dezembro. A Rússia fornece 39% do gás consumido pela União Europeia. A obra reduzirá a dependência russa de sua adversária Ucrânia, por onde passa o gasoduto que leva parte do gás russo para a Europa. 

É claro que a Rússia também sofre com a queda do preço: petróleo e gás representam cerca de 60% de suas exportações e 30% de seu PIB. Mas o presidente Vladimir Putin vinha se preparando para essa guerra desde 2017, quando criou passou a destinar o excedente da receita do petróleo acima de US$ 40 o barril para um fundo nacional que hoje soma US$ 150 bilhões. O país também tinha reservas de US$ 500 bilhões no início da guerra de preços há um mês. Os sauditas também tinham esse montante em reserva, mas precisam fazer frente à queda de US$ 300 bilhões no valor das ações da Aramco depois da oferta pública inicial de ações (IPO) da estatal do petróleo em dezembro. Pelo contrato da venda do IPO, o reino bancaria prejuízos dos investidores. A queda foi causada justamente pela diminuição da demanda e do preço do barril.

Mesmo assim, o príncipe-herdeiro saudita, Mohamed bin Salman (MBS), não quis passar a impressão de que estava “fraquejando” perante Putin, no momento em que tenta se consolidar no poder. Por isso, dobrou a aposta e inundou o mercado. Mas Putin também está preocupado em mostrar força, no momento em que busca apoio popular para uma mudança na lei que lhe permite se reeleger para mais dois mandatos de seis anos. 

O governo americano não achou graça na queda-de-braço. As companhias americanas do setor estão altamente endividadas, e estimaram em seus balanços um barril entre US$ 55 e US$ 60 para este ano. A indústria do petróleo e gás de xisto está espalhada por muitos estados, incluindo alguns importantes na corrida eleitoral americana, como o Michigan. Seu crescimento é um trunfo eleitoral dos republicanos e uma quebradeira do setor seria má notícia para o presidente Donald Trump. 

Portanto, os EUA têm todo o interesse em cortar a produção, como exigiu a Rússia nas negociações com os sauditas, para elevar o preço. O secretário de Estado Mike Pompeo telefonou para MBS no dia 24 para pedir o fim da guerra de preços. Ele lembrou o príncipe das “responsabilidades” da Arábia Saudita como líder na produção de energia e presidente de turno do G-20. Faltava MBS combinar com os russos. 

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