
Pfeifer: Sem rumo, Europa avança na rota da fragmentação
Coordenador do Grupo de Análise de Estratégia Internacional da USP, Alberto Pfeifer, explica que continente enfrenta pressão econômica e bélica - diante da Guerra na Ucrânia
A Europa é uma embarcação sem rumo em um processo de mais fragmentação - em vez de integração - segundo análise do coordenador do Grupo de Análise de Estratégia Internacional da USP (Universidade de São Paulo), Alberto Pfeifer.
Para Pfeifer, o continente europeu "aponta mais para dispersão do que propriamente para uma convergência." Esse movimento seria motivado por uma série de fatores como uma inflação em alta, dificuldades de suprimentos de energia, a Guerra da Rússia contra a Ucrânia e uma redução na capacidade industrial - especialmente na inovação.
Segundo dados compilados pelo CSIS (Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais), o continente europeu tem apenas 10 empresas entre as 100 companhias de tecnologia mais valiosas do mundo. Os Estados Unidos têm 60; a China, 13.
O especialista pontua que os países poderiam convergir em torno da "indústria de defesa". "Justamente como resposta às ameaças externas da Rússia, da China eventualmente e da indisposição dos Estados Unidos de seguirem sustentando a defesa e a segurança europeias", afirma Pfeifer.
A União Europeia se comprometeu - até 2030 - a colocar 800 bilhões de euros no setor militar com o plano ReArme Europe. Além disso, países europeus que são membros da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) aumentaram suas despesas de defesa para 2% do PIB depois de fortes pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Algumas nações como Polônia, Lituânia, Letônia e Estônia escalonaram seus investimentos para acima de 3% - todos estes fazem fronteira com a Rússia ou Belarus.
No entanto, o valor ainda se mostra insuficiente. Em declarações recentes, o secretário geral da Otan, Mark Rutte, defendeu que sejam gastos de 5% a 10% do PIB para o orçamento de defesa. Um aumento desta magnitude deve significar uma redução em uma série de programas de bem-estar social que marcam o continente.
"Há quem diga que isso vai levar a disputas regionais e que potenciais divergências vão levar ao ressurgimento de potências europeias como a Alemanha", explica Pfeifer.
O governo alemão, mesmo diante de uma dura lei orçamentária, aprovou um pacote de gastos militares de 52 bilhões de euros - que devem ser utilizados para compra de veículos, mísseis e satélites. "Uma Alemanha rearmada sempre é um espectro perigoso no cenário europeu", diz o especialista
"Mas nos próximos 10 anos, a Europa vai continuar nessa situação de fragilidade. Parcerias com a Europa serão frágeis", conclui.


