Por que a China comemora a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial?
Desfile militar na quarta (3) vai celebrar os 80 anos da rendição japonesa em 1945

A China realiza nesta quarta-feira (3), no horário local, um grande desfile militar em comemoração aos 80 anos da rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial.
O desfile faz parte de uma “guerra da memória” em que a China oferece uma história alternativa à narrativa ocidental, pois sente que seu papel na guerra foi subestimado.
Durante a Cúpula da Organização para Cooperação de Xangai, no início da semana, o presidente chinês, Xi Jinping, disse que é preciso promover uma "perspectiva histórica correta" da Segunda Guerra Mundial. Xi chamou o conflito de um importante ponto de virada no "grande rejuvenescimento da nação chinesa", afirmando que a China superou a invasão do Japão e se tornou uma potência econômica e geopolítica.
Por que a China comemora o fim da Segunda Guerra?
A China foi o primeiro país a entrar no que viria a ser a Segunda Guerra Mundial e foi aliada dos Estados Unidos e do Império Britânico desde Pearl Harbor, em 1941, até a rendição japonesa em 1945.
Cerca de 14 milhões de chineses morreram e até 100 milhões tornaram-se refugiados durante os oito anos do conflito com o Japão, de 1937 a 1945.
Em 7 de julho de 1937, um confronto entre tropas chinesas e japonesas na ponte Marco Polo, nos arredores de Pequim, levou a uma guerra total. Um ano depois, em meados de 1938, a situação militar chinesa era desesperadora.
A maior parte do leste da China estava nas mãos dos japoneses: Xangai, Nanjing, Wuhan. Muitos observadores externos presumiram que a China não conseguiria resistir e o cenário mais provável seria uma vitória japonesa sobre a China.
No entanto, o líder da China, o nacionalista Chiang Kai-shek, juntamente com os seus improváveis aliados, os comunistas, se recusaram a desistir, recuando para o interior para continuar a resistência.
Esta decisão mudou o destino da Ásia. Se a China se tivesse rendido em 1938, o Japão teria controlado a China durante uma geração ou mais. As forças do Japão poderiam ter se voltado para a a então União Soviética, o Sudeste Asiático ou mesmo a Índia Britânica. A guerra poderia ter seguido um curso totalmente diferente.

No entanto, os chineses resistiram e, depois de Pearl Harbor, a guerra atingiu o nível mundial. Os Aliados ocidentais e a China se uniram contra o Japão. A relação entre os dois lados tornou-se mais próxima, e a China foi tratada como um dos Aliados.
Mas o país tinha muito menos recursos do que os outros Aliados, o que levou a uma verdadeira divergência nos pontos de vista do Ocidente e da China em relação à contribuição chinesa para a guerra.
Os Aliados Ocidentais valorizaram o fato de a resistência chinesa estar marrando mais de 600 mil soldados japoneses. No início da guerra, isto significou que essas tropas não poderiam ser facilmente transferidas para o resto da Ásia. No entanto, os EUA e o Reino Unido sabiam que tinham que priorizar seus objetivos. Libertar a Europa do terror nazista era a prioridade, até porque Stalin insistia que os Aliados ocidentais deviam fornecer ajuda aos soviéticos.
No entanto, os chineses tinham uma visão bastante diferente da questão. Para os Nacionalistas e Comunistas, a guerra começou em 1937 e eles foram, nas suas próprias palavras, “os primeiros a lutar”.
É verdade que os Exércitos da China eram fracos, mas muitas das melhores tropas foram sacrificadas em grandes batalhas como as de Xangai e Xuzhou.
A China sentia que tinha que aguentar os fardos de um grande aliado sem ter os mesmos recursos que os Estados Unidos, o Reino Unido e até mesmo a União Soviética.
A China não poderia ter vencido a guerra sozinha. A derrota do Japão dependeu das finanças, do apoio militar e dos suprimentos ocidentais e, em particular, dos americanos (embora as tropas terrestres ocidentais não tenham lutado na China). Mas as contribuições da China também foram muito importantes para o esforço de guerra.
Ao manter um grande número de tropas japonesas no seu território, a China serviu de exemplo para outros países não-ocidentais, mostrando que era possível lutar com o Ocidente e ainda se opor fortemente ao imperialismo (Chiang Kai-shek tentou persuadir os nacionalistas indianos, Nehru e Gandhi, a apoiar ativamente o esforço de guerra, embora não tenha tido sucesso).
História esquecida
Grande parte desta história foi esquecida no Ocidente e na China durante a Guerra Fria. Poucos queriam se lembrar do regime de Chiang Kai-shek, que foi empurrado para Taiwan pelos comunistas de Mao Zedong.
Na China de Mao, o Partido Comunista tinha pouco interesse em proporcionar qualquer espaço para reflexões positivas sobre seus inimigos nacionalistas.
Só a partir da década de 1980, quando a Revolução Cultural estava em declínio e era necessária uma nova fonte de nacionalismo, é que as autoridades chinesas permitiram uma reavaliação mais ampla da guerra, relembrando a contribuição do governo nacionalista e das tropas que lutaram na guerra.
Hoje, a China abraço explicitamente grandes partes da sua história de guerra que permaneceram tabu durante grande parte da Guerra Fria. Mas afirma que se as contribuições americanas para a derrota do Japão conferem aos EUA o direito a uma presença contínua na região, então os próprios sacrifícios da China também deveriam garantir os mesmo direitos a Pequim.
Na Ásia, a Segunda Guerra Mundial ainda é um assunto inacabado.
*Com informações da agência Reuters



