Putin diz que pode suspender ataques à Ucrânia caso haja eleição
Presidente russo afirma que governo de Zelensky é ilegítimo; líder europeu foi eleito democraticamente em 2019, mas país não permite eleições enquanto lei marcial estiver em vigor

A Rússia está preparada para considerar uma pausa temporária nos ataques em território ucraniano caso Kiev realize eleições, afirmou o presidente russo, Vladimir Putin, durante uma coletiva de imprensa anual de fim de ano nesta sexta-feira (19).
"Estamos preparados para considerar garantir a segurança das eleições na Ucrânia, ao menos abstendo-nos de realizar ataques dentro do país no dia da eleição", disse Putin.
O presidente russo, que há muito tempo alega sem fundamento que o governo do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky é ilegítimo, acrescentou: "O governo ucraniano precisa finalmente se legitimar, e isso é impossível sem a realização de eleições."
Zelensky foi eleito democraticamente em 2019, e a Ucrânia não permite eleições enquanto a lei marcial estiver em vigor, como ocorre desde a invasão russa de 2022.
No entanto, para resolver a questão das concessões territoriais em um acordo de paz com a Rússia, Zelensky afirmou na semana passada que o povo ucraniano teria que decidir, em última instância, se a Ucrânia cederia território à Rússia, seja por meio de eleições ou de um referendo.

Putin exige respeito em troca de interrupção das operações militares
A Rússia não lançará mais nenhuma “operação militar especial” enquanto o Ocidente a tratar com “respeito”, declarou Putin durante a coletiva de imprensa.
A Rússia chama eufemisticamente de “operação militar especial” a invasão da Ucrânia em 2022. O que deveria ser uma campanha breve se transformou em uma guerra que já dura quase quatro anos.
Questionado se planeja lançar outra “operação militar especial” no futuro, Putin respondeu que isso depende de como o Ocidente vai tratar a Rússia.
“Não haverá operações se nos tratarem com respeito e cuidarem dos nossos interesses, como sempre tentamos cuidar dos deles, e não nos enganarem como fizeram com a expansão da Otan para o leste”, declarou Putin em resposta a um repórter da BBC.
“Disseram que não haveria movimento para o leste, nem um centímetro sequer; essa é uma citação direta. E daí? Como dizem aqui, simplesmente nos enganaram, ignoraram nossos interesses de segurança”, afirmou o presidente russo.
A Otan adota uma política de portas abertas, o que significa que os países podem solicitar a adesão, se assim o desejarem. Devem então demonstrar que atendem a certos critérios políticos, econômicos e militares.
Finlândia e Suécia, dois países conhecidos por sua neutralidade, são os integrantes mais recentes da aliança. Os países também sentiram a necessidade de reforçar sua segurança após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Rússia quer cooperação em termos de igualdade
Putin afirmou que a Rússia está pronta para cooperar com a Europa, o Reino Unido e os EUA, mas em termos de igualdade.
Questionado pela BBC sobre sua visão para o futuro da Rússia, Putin deu uma resposta longa e confusa, concluindo que o futuro da Europa deve ser "com a Rússia".
"Quero terminar com mais uma coisa. Estamos prontos para trabalhar com vocês: com o Reino Unido, com a Europa e com os EUA, mas em termos de igualdade e com respeito mútuo", disse Putin. "Se finalmente chegarmos a esse ponto, todos sairemos ganhando."
Putin citou Helmut Kohl, o primeiro chanceler da Alemanha unificada, que na década de 1990 defendeu a integração da Rússia à ordem liderada pelo Ocidente após o colapso da União Soviética.
Putin afirmou que Kohl havia dito que “o futuro da Europa, para se manter como um centro independente de civilização, deve necessariamente ser ao lado da Rússia”.
“Nós nos complementamos naturalmente, trabalharemos juntos e nos desenvolveremos juntos. Se isso não acontecer, a Europa desaparecerá gradualmente”, disse Putin.
Kohl, no entanto, argumentou na época que a recém-formada Federação Russa deveria receber assistência econômica e ser acolhida pelo Ocidente para facilitar sua transição para a democracia.
Rússia diz que aceitou concessões à Ucrânia
Putin disse que a Rússia foi solicitada a fazer concessões em relação à Ucrânia durante sua cúpula com o presidente americano Donald Trump no Alasca, em agosto, e que aceitou algumas, enfatizando que a decisão agora está “completamente” nas mãos do Ocidente e da Ucrânia.
Putin declarou que acredita que Trump está fazendo esforços sérios e sinceros para acabar com a guerra na Ucrânia e que, na prática, aceitou as propostas de do presidente americano no Alasca, sem dar mais detalhes.
“Portanto, dizer que rejeitamos algo é absolutamente incorreto e infundado. A decisão está completamente nas mãos de nossos oponentes ocidentais, por assim dizer”, declarou.
No entanto, a Rússia se recusa a abandonar sua exigência de que a Ucrânia se retire completamente das regiões orientais de Donetsk e Luhansk, incluindo áreas que a Rússia não conseguiu ocupar em mais de uma década de combates.
Na semana passada, Zelensky afirmou que os Estados Unidos sugeriram que a Ucrânia se retirasse de partes dessas duas regiões, conhecidas coletivamente como Donbas, para criar uma “zona econômica livre”. Zelensky alegou que os Estados Unidos consideraram isso um compromisso entre as posições ucraniana e russa.
Pouco depois, o conselheiro do Kremlin, Yuri Ushakov, reiterou que a Rússia ainda aspira a ocupar toda a região de Donbas.
“Toda a Donbas é russa”, declarou Ushakov em 12 de dezembro.



