Quem foi Niño Guerrero, líder do Tren de Aragua com atuação no Brasil

Gangue venezuelana, antes restrita a prisões, alcançou presença em nações da américa latina e europa

Uriel Blanco, da CNN
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Pouco depois das 21h de sexta-feira (12), no horário local, o presidente dos EUA, Donald Trump, fez um anúncio incomum em sua plataforma de mídia social Truth Social.

Trump disse que os EUA e a Venezuela haviam colaborado para matar Héctor Rusthenford Guerrero Flores, também conhecido como “Niño Guerrero” e identificado como o principal líder da notória gangue criminosa Tren de Aragua, que os EUA designaram como uma Organização Terrorista Estrangeira no início do segundo mandato de Trump.

O ataque contra Guerrero Flores foi “rápido e letal”, afirmou Trump, acrescentando que, sob sua liderança, os EUA irão “encontrar esses assassinos cruéis e chefes do tráfico a qualquer hora, em qualquer lugar, e enviá-los às profundezas do inferno onde eles pertencem”.

Em sua publicação, Trump incluiu um vídeo de 10 segundos do suposto assassinato, mostrando uma visão aérea de um prédio com telhado de metal galvanizado sendo destruído por uma explosão.

O governo da vice-presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou em um comunicado separado que a operação conjunta foi realizada “no sudeste do estado de Bolívar”, na Venezuela, acrescentando que os EUA e a Venezuela haviam trocado tanto informações de inteligência quanto apoio técnico especializado.

Até que o ataque conjunto fosse anunciado na sexta-feira, o paradeiro de Guerrero Flores era desconhecido. O líder criminoso, que, segundo as autoridades, ajudou a fundar o Tren de Aragua, estava foragido há anos, com antecedentes criminais que se estendem por décadas.

Trump descreveu Guerrero Flores como “infame” em seu anúncio, mas poucos americanos provavelmente sabem algo sobre ele.

Quem tiver curiosidade encontraria poucas informações em registros e declarações governamentais. A página de procurado de Guerrero Flores no Departamento de Estado tem apenas uma foto granulada em preto e branco, com sua altura e peso listados como “desconhecidos”.

Então, quem foi “Niño Guerrero”?

Direto de Aragua

Embora a biografia de Guerrero Flores no Departamento de Estado seja breve, ela inclui seu nome completo e data de nascimento, embora, curiosamente, isso difira da data de nascimento registrada em documentos judiciais venezuelanos.

Ambos os documentos afirmam que Héctor Rusthenford Guerrero Flores nasceu na cidade de Maracay, capital do estado venezuelano de Aragua, em 1983.

De acordo com uma decisão da Suprema Corte da Venezuela de 2018, o histórico criminal de Guerrero Flores começou em 2005, quando ele foi preso pelo assassinato de um oficial. Anos depois, em setembro de 2012, ele escapou de uma notória prisão em Tocorón, Aragua, antes de ser recapturado em 2013.

Foi após sua recaptura, em algum momento entre 2013 e 2015, que o Tren de Aragua começou a assumir sua forma atual.

O grupo gradualmente acumulou mais poder e território dentro da prisão de Tocorón, e o Tren de Aragua passou a se aliar a outras gangues criminosas para expandir sua influência. Ele acabou controlando o bairro San Vicente, na cidade natal de Guerrero Flores, Maracay, segundo o think tank InSight Crime e relatórios do Observatório Venezuelano da Violência.

Em 15 de dezembro de 2016, um tribunal do estado de Aragua condenou Guerrero Flores a 17 anos e dois meses de prisão por doze crimes, incluindo homicídio doloso, fuga da custódia, ocultação de arma de guerra, tráfico de drogas e associação criminosa.

No entanto, o controle do Tren de Aragua dentro da prisão de Tocorón era tão absoluto, com piscinas e restaurantes construídos pelos próprios presos dentro dos muros do presídio, que manter Guerrero Flores encarcerado ali era tão eficaz quanto deixá-lo livre.

Foi somente quando o governo venezuelano assumiu o controle total da instalação em outubro de 2023 que descobriram que ele havia desaparecido. Ele havia se tornado um fugitivo e assim permaneceu até sua morte.

O Departamento de Estado dos EUA ofereceu uma recompensa de 5 milhões de dólares por informações que levassem à sua captura ou condenação.

Em dezembro de 2025, o escritório do procurador dos EUA para o Distrito Sul de Nova York acusou Guerrero Flores de ordenar, dirigir e facilitar atos de terrorismo dentro dos Estados Unidos.

De gangue de prisão a organização terrorista estrangeira

Com Guerrero Flores no comando, o Tren de Aragua não apenas expandiu sua presença na Venezuela, como também chegou a outros países da região e, supostamente, até cruzou o Atlântico.

Segundo o InSight Crime, a gangue mantém presença na Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Chile. Enquanto isso, a Transparencia Venezuela, braço venezuelano da organização não governamental Transparency International, afirma que o grupo criminoso também opera no Brasil e na Costa Rica.

Da mesma forma, autoridades mexicanas relataram prisões de supostos líderes e pessoas ligadas ao Tren de Aragua. Em 2023, uma investigação da CNN documentou sua presença nos Estados Unidos.

Em março de 2024, o irmão de Guerrero Flores, Gerso, foi preso em Barcelona, na Espanha, e extraditado para a Venezuela alguns meses depois. Pouco mais de um ano depois, a polícia espanhola prendeu 13 indivíduos que descreveu como a primeira célula conhecida do Tren de Aragua desmantelada no país.

Em julho de 2024, o então presidente dos EUA, Joe Biden, designou o Tren de Aragua como uma grande organização criminosa transnacional. Mas, no início de seu segundo mandato, Donald Trump foi além, assinando uma ordem executiva que classificou a gangue como organização terrorista estrangeira. Logo depois, Equador, Peru e Argentina seguiram o mesmo caminho.

O Tren de Aragua e outras gangues latino-americanas estão no centro da primeira onda de deportações do governo Trump. Desde o início de seu segundo mandato, o presidente e seus aliados têm argumentado, dentro e fora dos tribunais, que a presença de supostos membros de gangues dentro dos Estados Unidos faz parte de uma “invasão” mais ampla ao país vinda de sua fronteira sul.

O governo dos EUA usou esse argumento para deportar centenas de pessoas em março de 2025, após Trump invocar a Lei de Inimigos Estrangeiros.

Alguns meses depois, em setembro, o Departamento de Defesa dos EUA começou a perseguir supostas embarcações de tráfico de drogas que operavam no Caribe e no leste do Pacífico, algumas das quais, segundo as autoridades, estariam ligadas à gangue venezuelana.

Mais de 200 pessoas morreram nos ataques dos EUA contra essas embarcações. O governo Trump não apresentou provas públicas da presença de narcóticos nos navios atacados, nem de suas ligações com cartéis de drogas.

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