Rainha que personificava a estabilidade sai de cena em momento perigoso no mundo

Durante o reinado de 70 anos, guerras começaram e acabaram, assim como crises, tragédias, escândalos políticos, pandemias e recessões

Stephen Collinson, da CNN
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“Deus salve o rei”.

Com quatro palavras, Liz Truss - carregando o mais pesado dos fardos como primeira-ministra britânica após apenas dois dias no cargo - marcou o fim da segunda era elizabetana.

A frase de Truss, o ápice de um breve discurso de que oficializou a morte da rainha Elizabeth II na quinta-feira (8), foi impactante não apenas porque só britânicos com mais de 70 anos se lembram de tê-la ouvido em público antes.

A frase também encerrou uma época na qual a rainha se tornou um ícone global de liderança, embora (e talvez por essa razão) ela não tenha sido uma figura política. Em muitos aspectos, a influência da monarca se enraizou simplesmente no fato de que, ano após ano, década após década, ela estava lá, sempre. E agora ela se foi.

Durante o reinado de 70 anos, guerras começaram e acabaram, assim como crises, tragédias, escândalos políticos, pandemias e recessões.

Ela ascendeu ao trono sobre os tremores de um império em ruínas. Morreu junto com o reino que ela manteve unido, falecendo na mesma Escócia que vê o fervor pela independência em plena ebulição.

Elizabeth reinou - de forma distante e cumpridora, mas sempre presente - numa era turbulenta da liberação das mulheres, da expansão dos direitos de gays e lésbicas e da desindustrialização e a imigração que mudaram a face de seu país.

Mesmo passando pela Guerra Fria e a guerra civil da Irlanda do Norte, a entrada e depois a saída amarga da Grã-Bretanha da União Europeia e os fortes choques de uma economia globalizante, a rainha se manteve impassível, como se mantivesse uma última ligação com uma mitologia nacional heroica construída durante a Segunda Guerra Mundial.

Dos dias da televisão em preto e branco à era da internet e dos dispositivos móveis onipresentes - os mesmos que os súbitos agora usam para fazer selfies do luto na frente do Palácio de Buckingham -, a rainha foi uma presença constante.

Winston Churchill, Charles de Gaulle, John F. Kennedy, Mao Zedong, Ronald Reagan, Margaret Thatcher, Golda Meir, Mikhail Gorbachev e Papa João Paulo II governaram e passaram à história durante o longo reinado da rainha.

Quase tudo no mundo mudou até o ponto de ficar irreconhecível desde o dia em 1952 que ela soube, no Quênia, que seu pai George VI estava morto e ela era a rainha. Mas Elizabeth, estoica e formal, esteve sempre lá e sempre a mesma.

A sua morte, de forma calma e até mesmo súbita, apesar de ela ter 96 anos, removeu esse bastião da constância e da firmeza - e num momento em que a Grã-Bretanha e o mundo parecem os mais desorientados e voláteis em décadas.

O rei Charles III herda uma nação que está dividida, economicamente fragilizada e sob ameaça de um inverno terrível por causa dos preços elevados da energia e inflação causados pela questão da Rússia, numa espécie de nova Guerra Fria.

Um segundo conflito de superpotências com a China também está se avizinhando. Já o calor extremo que assustou Grã-Bretanha no final do verão do jubileu de platina da rainha anuncia um desastre climático em construção que pode ser especialmente perigoso para uma nação insular.

Charles - que, tal como o presidente Joe Biden num contexto levemente diferente, esperou a maior parte da sua vida para assumir seu papel de chefe de Estado - enfrenta a tarefa impossível de restaurar rapidamente a liderança e a estabilidade que a sua mãe ofereceu durante sete décadas.

Enquanto príncipe de Gales, ele muitas vezes pareceu inapto ao papel de rei depois de longos anos de espera. O colapso de seu casamento com Diana, princesa de Gales, suas tiradas políticas meio desajeitadas e um caráter peculiar dão a entender que ele ainda não é tão amado como a rainha.

Por quase três quartos de um século, Elizabeth foi a monarquia - merecedora da deferência e respeito mesmo entre uma minoria que via o direito divino dos reis e rainhas como um anacronismo absurdo e os casamentos e desventuras dos filhos da rainha e membros da realeza como um símbolo retrógrado de uma nação moderna. A maioria dos britânicos nunca conheceu a monarquia sem ela.

Um súbito aumento do republicanismo parece improvável, mas o novo rei, e seu herdeiro aparente, o príncipe William, o novo duque da Cornualha, devem reformular a instituição para o século 21 se quiserem prosperar ou pelo menos sobreviver como tal.

No exterior, a morte da rainha pode ter consequências também importantes.

Depois de um período de reflexão, os países do Commonwealth nos quais ela era chefe de estado, como Canadá e Austrália, com populações jovens que se diversificaram muito além da ascendência britânica, podem se perguntar se é finalmente hora de cortar os últimos laços com a pátria.

E a busca da Grã-Bretanha por um papel pós-Brexit como potência mundial intermediária terá de avançar sem o seu mais valioso bem no exterior: uma soberana que era a mulher mais famosa do mundo e que a maior parte do planeta conheceu a vida toda. De certa forma, ela fazia parte da vida de todos, uma figura reconhecida e lembrada através de gerações em um contínuo agora encerrado.

Onda global de tristeza

Na Grã-Bretanha, a ausência da Rainha será surpreendente. Seu rosto está em quase toda moeda e selo. As pessoas que chegaram aos 100 anos receberam um telegrama da monarca. No Natal deste ano, as famílias se contentarão com a tradicional transmissão real depois de brindarem e partirem o peru natalino com um novo rei na tela de televisão.

A reação à sua morte sublinhou a sua importância.

Houve um minuto de silêncio no US Open de tênis e as luzes foram apagadas na Torre Eiffel. Presidentes, premiês e monarcas enviaram mensagens de condolências antes do funeral de estado em Londres, que será certamente o encontro de mais alto nível de líderes globais em décadas.

A demonstração pública de sentimentos foi um testemunho da longevidade que a tornou uma figura global. O papel de Elizabeth acima da política, combinado com as suas décadas de onipresença, significou que ela podia se elevar acima das diferenças partidárias e se envolver com sucessivas gerações globais e governos de diferentes tendências políticas. Quando alguém de fora da Grã-Bretanha falava sobre “a rainha”, ninguém perguntava “qual rainha?”

No entanto, nem toda nação a queria. A sua posição é, afinal, um símbolo duradouro do império e da repressão colonial. Uma lista de nações a removeu como chefe de estado, incluindo Barbados no ano passado. Embora errasse pouco, seu compromisso inabalável com o dever e as convenções que cercam a coroa pode ter ferido sua família e sua nação.

Foi impossível, por exemplo, para a irmã da rainha, a princesa Margaret, casar-se com seu namorado, o capitão de grupo Peter Townsend, porque ele era divorciado e a monarca era também a chefe da Igreja Anglicana.

A aparente indiferença da Rainha à morte da princesa Diana em 1997 a colocou em maus lençóis com seus súditos - e ela teve de ceder ao clamor fazendo um discurso televisionado.
A morte da rainha poderia causar um novo olhar sobre os complicados arranjos constitucionais e o sistema político da Grã-Bretanha. Esse olhar inclui pensar numa força renovada pela independência ao norte da fronteira.

Embora a Grã-Bretanha seja uma sociedade muito mais equitativa do que era na época da coroação, em 1953, a família real continua a criar um sistema de classes que alguns britânicos consideram repressivo. As carruagens e os cavaleiros em trajes cerimoniais que irão figurar no seu funeral não podem disfarçar o status da Grã-Bretanha como um poder militar e diplomático mofado.

No entanto, Elizabeth também foi inegavelmente amada na sua nação e no exterior por milhões de pessoas.

As suas competências políticas de alto nível foram moldadas no meio do tédio de intermináveis missões no estrangeiro, de conversas banais em visitas oficiais ao seu país e no protocolo esmagador de jantares estatais. Ela não foi apenas respeitada porque era famosa (ela certamente deve ser a mulher mais fotografada da história humana) ou porque só durou mais tempo no poder do que qualquer outra pessoa.

A rainha pode ter sido constitucionalmente proibida de se envolver em política partidária, mas ela foi, mesmo assim, uma política extraordinária.

Nicholas Dungan, professor adjunto do Sciences Po, em Paris, e CEO da CogitoPraxis, uma consultoria empresarial e de liderança, disse que Elizabeth exemplificou os elementos mais elevados da liderança disciplinada e profissional.

“Não é preciso ter poder político para ser um líder. Não é preciso o poder duro para ser um líder. É preciso ter poder pessoal para ser um líder”, disse Dungan, definindo as qualidades essenciais da liderança como senso de propriedade, integridade e visão, todas presentes na monarca. “Seu dom pode ser a inspiração que ela nos dá para o futuro tanto quanto o serviço que ela nos deu durante sua vida”, continuou.

Na juventude, representando o Reino Unido no exterior, Elizabeth exalava glamour. Mais tarde, ela irradiou experiência e sabedoria como uma grande figura histórica. É por isso que mesmo os homens mais poderosos do mundo - os presidentes dos EUA - pareciam um pouco oprimidos quando a conheceram.

“Quando estávamos apenas começando a navegar pela vida de presidente e primeira-dama, ela nos deu as boas-vindas com braços abertos e com extraordinária generosidade”, afirmou o ex-presidente Barack Obama na quinta-feira (8), acrescentando que ele e sua esposa Michelle se encantaram com o legado da rainha “de serviço público incansável e digno".

O ex-presidente Donald Trump também pareceu deslumbrado após se encontrar com a rainha no Castelo de Windsor, em 2018.
“Que grande e bela senhora, não havia ninguém como ela!”, Trump declarou na quinta-feira.

Muitos norte-americanos se lembram da rainha por sua reação firme e rápida aos ataques de 11 de setembro de 2001, quando o hino nacional dos EUA foi tocado na cerimônia de Troca da Guarda no Palácio de Buckingham, e ela consolou o aliado traumatizado da Grã-Bretanha com as seguintes palavras: “o pesar é o preço que pagamos pelo amor”.

Uma líder hábil

A perspicácia política de Elizabeth foi exibida muito bem em dois episódios no final do seu reinado. Em 2011, ela foi a primeira monarca britânica a visitar a Irlanda desde a independência – uma viagem bastante sensível dada a animosidade histórica exemplificada pela sua posição e pelas batalhas sectárias entre unionistas e republicanos na Irlanda do Norte.

A sua visita foi, no entanto, extremamente bem-sucedida, já que ela demonstrou penitência pelos excessos das forças coloniais britânicas e ajudou a aliviar a desconfiança entre Londres e Dublin.

Num outro gesto de reconciliação, um ano depois, a rainha apertou as mãos de Martin McGuinness, um antigo líder do Exército Republicano Irlandês (IRA) durante os Troubles na Irlanda do Norte, que se tornou vice-primeiro-ministro após um acordo de paz.

O IRA assassinou o amado primo de segundo grau da rainha, lorde Louis Mountbatten (que também foi uma figura paterna para Charles) com uma bomba a bordo do seu barco em 1979.

Uma década depois, a rainha deu outra lição de liderança durante a pandemia. Mascarada e sozinha, ela velou seu marido, o príncipe Philip, o Duque de Edimburgo no funeral.

A sua vontade de compartilhar a solidão do seu povo numa época em que as reuniões eram restritas contrastaram com a bebedeiras e as festas fechadas, na 10 Downing Street (residência dos primeiros-ministros), dando origem a uma cadeia de eventos que levou à saída do primeiro-ministro Boris Johnson.

Numa mensagem especial do Castelo de Windsor, em abril de 2020, no meio da tristeza mais profunda da emergência de Covid-19, a rainha prometeu aos seus súditos, que estavam isolados em casa, que os tempos normais retornariam. “Vamos nos encontrar novamente”, prometeu.

Ela usou um trecho de uma letra de uma cantora querida pelos soldados na guerra, Vera Lynn, e lembrou o papel da família real na manutenção do moral nacional durante a Segunda Guerra Mundial, quando era uma jovem princesa e inspirou uma geração de britânicos no seu momento mais difícil.

A Grã-Bretanha está agora imersa num longo período de luto nacional, e os seus admiradores globais vão se habituar à estranha sensação de viver num mundo sem a rainha. É claro que reis e rainhas ingleses vivem e morrem há mil anos. Charles não é o primeiro monarca a lutar com um legado difícil de seguir.

Com tradição secular, os cortesãos procuraram facilitar esta transição e realçar o que os súditos veem como a caraterística mais forte da monarquia: um sentido da continuidade e da estabilidade que a política eleita não pode transmitir. Ele foi bem representado pelo anúncio simples da morte pregado no portão palácio de Buckingham em quinta-feira à noite.

"A rainha morreu em paz em Balmoral esta tarde”, diz o aviso suscinto, em uma moldura negra.

"O rei e a rainha consorte permanecerão em Balmoral esta noite e voltarão a Londres amanhã”.

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