Reino Unido tem mais casos de Covid que França, Alemanha, Itália e Espanha juntas

Grã-Bretanha registrou quase meio milhão de casos da doença nas últimas duas semanas

Pessoas andam de máscaras pelas ruas no Reino Unido
Pessoas andam de máscaras pelas ruas no Reino Unido REUTERS

Rob Pichetada CNN

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Em dezembro do ano passado, quando a primeira de várias variantes preocupantes da Covid-19 se espalhou pelo Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson tomou a impopular decisão de cancelar os planos de Natal para milhões de britânicos.

“Estamos sacrificando nossa chance de vermos pessoas queridas neste Natal para termos uma chance melhor de proteger suas vidas e assim possamos vê-las em Natais futuros”, declarou Johnson, dando um passo marcante em sua carreira –passo que ele havia descartado apenas alguns dias antes.

Dez meses depois, a atitude do Reino Unido em relação à Covid-19 mudou até ficar irreconhecível. Praticamente todas as restrições da Inglaterra foram suspensas em julho, com os eventos e setores de hospitalidade voltando à sua capacidade total. Johnson incentivou os britânicos a “começarem a aprender a viver com este vírus”.

Mas a variante Delta (ainda mais transmissível do que a cepa Alpha que destruiu os planos do final do ano passado) não foi embora. O país tem vivido de forma discreta um resistente alto número de casos, internações e mortes quando comparado com o resto da Europa. A Grã-Bretanha registrou quase meio milhão de casos nas últimas duas semanas (foram quase 50 mil só na segunda-feira, (18)), mais do que a França, Alemanha, Itália e Espanha juntas. O Reino Unido registrou 223 mortes na terça-feira (19), o maior número diário desde o início de março.

Boris Johnson diferiu de grande parte dos líderes da União Europeia em sua abordagem. Embora vários países do continente tenham introduzido passaportes para vacinas, a Inglaterra suspendeu seu plano original de fazê-lo. O uso de máscaras, o distanciamento social e outras medidas não são mais exigidos por lei na Grã-Bretanha. É um contraste com ações muito mais rígidas em vários países europeus, onde a prova de vacinação ou um teste negativo são necessários para visitar bares e restaurantes ou trabalhar em diversas setores. inclusive na saúde.

Os hospitais na Grã-Bretanha estão agora perto de ruir mais uma vez sob a pressão de novas internações. Ao mesmo tempo, o sucesso da vacinação precoce do país corre o risco
de ser anulado por um lançamento claudicante da vacinação de reforço e para crianças.

“Políticas excepcionais levam a resultados excepcionais”, disse Deepti Gurdasani, epidemiologista da Universidade Queen Mary em Londres, à CNN. “É muito previsível, É uma
consequência de abrir tudo. Estamos chegando ao inverno e as coisas só vão piorar”, acrescentou a especialista.

Alguns serviços talvez tenham de fechar. O porta-voz do primeiro-ministro admitiu na segunda-feira que um inverno “desafiador” está por vir, e o próprio Johnson não descartou a volta da exigência de máscaras ou restrições mais fortes para proteger o Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês) do país nas próximas semanas.

Mas especialistas (incluindo os próprios chefes de saúde de Johnson) estão implorando por uma mudança mais urgente na abordagem. A Confederação do NHS, que representa os provedores do serviço público do governo, instou o governo na quarta-feira (20) a adotar seu “Plano B” de medidas, que incluiria passaportes de vacinação no estilo europeu e mais exigências de máscara. Mas o governo descartou essa medida por enquanto, apenas insistindo que estava observando de perto os números de casos.

“Há uma série de maneiras pelas quais estamos fora de sintonia com a Europa Ocidental e o resto do mundo”, opinou Martin McKee, professor de Saúde Pública Europeia na London
School of Hygiene & Tropical Medicine. “Vimos em outros países europeus que medidas coletivas fazem uma grande diferença. Devíamos estar nos perguntando: Estamos certos? Não há evidência de que estamos”.

Lançamento lento

O motor por trás do otimismo renovado da Grã-Bretanha no ano novo foi seu programa de vacinação, que ultrapassou a maioria dos países em sua escala inicial e definiu a narrativa
de Johnson de que a Grã-Bretanha estava saindo de forma triunfante da pandemia.

No entanto, o país está lutando para repetir esses primeiros sucessos ao tentar vacinar adolescentes e aplicar doses de reforço a idosos e pessoas em situação de risco. “O lançamento das doses reforço da Inglaterra não está conseguindo acompanhar o ritmo do lançamento da primeira e segunda doses de vacina”, alertou John Roberts, consultor do grupo Covid-19 Actuaries Response, que monitora os números da vacinação, em um comunicado na segunda-feira.

Mais de um mês após o início da aplicação do reforço, menos da metade dos maiores de 80 anos vacinados duas vezes o receberam. “Está claro que acelerar o lançamento do reforço
é vital para reduzir a pressão sobre os serviços de saúde e minimizar as mortes relacionadas à Covid neste outono e inverno”, completou.

O grupo estimou que, no ritmo atual, as 22 milhões de pessoas que compõem os grupos de maior risco do país não serão vacinadas com três doses até o final de janeiro, apesar das promessas iniciais do governo de que o programa protegeria as pessoas durante o inverno.

As vacinas continuam a reduzir o número de pacientes com Covid-19 que precisam de tratamento hospitalar, mas a redução da imunidade torna o ritmo do lançamento ainda mais importante. A maioria das pessoas com mais de 40 anos na Grã-Bretanha foi originalmente imunizada com a vacina desenvolvida por Oxford/AstraZeneca, cuja eficácia contra a variante Delta demonstrou ser menor do que as vacinas da Pfizer e Moderna.

Um estudo ainda em fase de pré-impressão da agência Public Health England (PHE) descobriu que a proteção da vacina contra a infecção caiu de 66,7% para 47% após 20 semanas,
em comparação com uma queda de 90% para 70% para a vacina da Pfizer. Pesquisa separada da PHE descobriu que a eficácia da AstraZeneca contra a internação de Delta caiu de pouco mais de 90% para pouco menos de 80% após 140 dias, enquanto sua eficácia contra a morte permaneceu perto de 90%. A Pfizer permaneceu acima de 90% em ambas as
métricas.

Muitos especialistas atribuem a falta de ímpeto na campanha de vacinação do Reino Unido aos meses de resultados positivos do governo de Johnson. “Todas as mensagens e ações do governo sugerem que estamos fora de perigo”, disse Gurdasani.

“Há muitas mensagens de que a pandemia essencialmente acabou, então muitas pessoas estão pensando que não é preciso se preocupar”, acrescentou o professor McKee. Também há preocupações no outro extremo do espectro de idade, já que o NHS trabalha para vacinar maiores de 12 anos e evitar uma repetição da transmissão galopante nas escolas
que interrompeu grande parte das aulas em junho e julho.

O programa teve um início ruim em meio a conselhos iniciais conflitantes dos órgãos científicos do país. Enquanto a França, por exemplo, começou a vacinar menores de 18 anos em
junho, o governo britânico deu sinal verde para a mudança apenas em setembro.

Até agora, 1,2 milhão de adolescentes já receberam uma dose de vacina e apenas 260 mil tiveram duas doses na Inglaterra. “O problema não é que os adolescentes não queiram se
vacinar. Há muitos que estão desesperados para receber a vacina, mas ela ainda não está disponível na escola”, contou a epidemiologista Gurdasani.

As escolas reclamaram da falta de equipe de vacinação. O atraso da Inglaterra em permitir que adolescentes visitassem os centros nacionais de vacinação fez com que o país ficasse
atrás da Escócia na inoculação dessa faixa etária.

“Há uma perda de direção aqui”, disse o professor McKee. “Não está claro quem está no comando”.

Inverno deve ser rigoroso

As taxas de Covid-19 da Grã-Bretanha estão acima de grande parte das da Europa, mas suas medidas de mitigação permanecem mínimas.

“O governo está totalmente dependente do programa de vacinação, que agora está acontecendo de forma bem largada”, disse McKee. “É realmente necessário fazer uma revisão urgente de onde somos diferentes de outros países, e avaliar se devemos mesmo ser diferentes, e qual a razão para isso”.

O professor McKee se juntou a vários especialistas para pedir um pacote de medidas que espelhem o que acontece no continente. Vários países europeus, incluindo França e Itália,
têm passaportes da Covid-19 e vacinação necessária para profissionais de saúde, enquanto muitos outros ainda exigem máscara em espaços lotados – algo que o Reino Unido não
adota.

O primeiro-ministro, por outro lado, abandonou os planos iniciais de introduzir medidas semelhantes. “Os passaportes de vacinas têm um papel importante a desempenhar; as experiências francesa e italiana mostram que sim”, afirmou McKee.

Os casos permaneceram baixos em ambos os países desde a introdução das medidas. Os cuidados de saúde são delegados no Reino Unido. Os passaportes para vacinas foram anunciados no País de Gales e na Escócia. Enquanto isso, Johnson está mantendo-os a Inglaterra sob seu cenário de “Plano B”. Mas, com taxas de infecção tão altas todos os dias, muitos se perguntam por que o “Plano A” ainda está em vigor.

“Temos taxas de infecção extremamente altas em crianças e entre a população idosa”, revelou a doutora Gurdasani. “Estamos chegando ao inverno e as coisas só vão piorar”,
acrescentou.

O cansaço do povo com a Covid-19 é outro desafio. Eventos com aglomeração estão ocorrendo sem requisitos de vacinação e poucos vestígios da pandemia ainda permanecem
nas ruas britânicas durante os períodos de maior movimento. Apenas 40% dos britânicos ainda praticam regularmente o distanciamento social, em comparação com 62% em meados
de julho e 85% em abril, de acordo com o Office for National Statistics. A pesquisa também descobriu um declínio gradual no uso de máscaras.

Para alguns, essa tendência é alarmante. “Registramos de 30 a 40 mil casos todos os dias há meses. Não há nenhum outro país que tolere isso, mas foi normalizado” no Reino Unido,
disse Gurdasani.

O fluxo constante de internações não aumentou dramaticamente nos últimos dois meses, mas também não diminuiu: os números oficiais mostram que mais de 700 novos pacientes entram nos hospitais e centros de saúde todos os dias.

Isso deixa os hospitais, que já lutam para superar um acúmulo de tratamentos que foram adiados durante a pandemia, aguardando ansiosamente outro pico de inverno.

Na semana passada, o NHS da Inglaterra disse que mais pessoas (5,7 milhões ao todo) estavam esperando por tratamento do que em qualquer momento desde que começou a fazer seus registros. Enquanto isso, as equipes de saúde tiveram o mês de setembro mais movimentado já
registrado.

“Não há dúvida de que o NHS está atarefado, com o maior número de pacientes atendidos no pronto-socorro em setembro, 14 vezes mais pacientes de Covid-19 nos hospitais
em comparação com o mesmo mês do ano passado e recorde de chamadas de ambulância”, enumerou o professor Stephen Powis, diretor médico nacional do NHS.

O impacto que inverno irá trazer ainda é evitável. “Há tantas incógnitas”, disse McKee, observando que os picos anteriores previstos de infecções neste ano não se materializaram. Mas especialistas e funcionários do hospital temem uma nova tensão. “Não é um lugar onde a maioria dos profissionais de saúde queira estar”, acrescentou a epidemiologista Gurdasani. “De fato, fico assustada por estarmos nessa posição antes do inverno”.

Com o passar do ano, a natureza da segunda pandemia de Natal da Grã-Bretanha permanece uma incógnita.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês).

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