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    Relatório detalha falhas na coordenação e caos na retirada dos EUA do Afeganistão

    Documento também faz recomendações para melhorias em situações futuras; Estados Unidos deixaram região após 20 anos em 2021

    Afeganistão: foto revela mais de 600 afegãos em avião militar de carga da Força Aérea dos EUA
    Afeganistão: foto revela mais de 600 afegãos em avião militar de carga da Força Aérea dos EUA Defense One/Handout via Reuters

    Jennifer HanslerKylie Atwoodda CNN

    O Departamento de Estado dos Estados Unidos divulgou na sexta-feira (30) o relatório de Revisão Pós-Ação do Afeganistão, que revelou que as decisões dos governos Trump e Biden de retirar todas as tropas americanas do país do Oriente Médio tiveram consequências prejudiciais.

    O documento detalha as deficiências condenatórias do atual governo que levaram à mortal e caótica retirada dos EUA, depois de quase duas décadas na região.

    “As decisões do presidente (Donald) Trump e do presidente (Joe) Biden de encerrar a missão militar dos EUA no Afeganistão tiveram sérias consequências para a viabilidade do governo afegão e sua segurança”, disse o relatório.

    “Essas decisões estão além do escopo desta revisão, mas a equipe AAR [Revisão Pós-Ação, na sigla em inglês] descobriu que durante ambas as administrações houve consideração insuficiente de nível sênior dos piores cenários e a rapidez com que eles poderiam acontecer”, afirmou.

    O relatório foi divulgado publicamente mais de um ano após a conclusão da revisão de 90 dias da evacuação e inclui descobertas sobre as tumultuadas semanas finais da presença dos Estados Unidos no Afeganistão, bem como uma série de recomendações para melhorias no futuro.

    Um alto funcionário do Departamento de Estado não explicou por que demorou tanto para o documento ser publicado, nem por que foi divulgado antes de um fim de semana de feriado no país, dizendo que não discutiriam questões relacionadas ao “processo”.

    Questionado sobre o documento e se admitia que houve “erros durante a retirada”, Biden observou que havia jurado que a Al-Qaeda “não estaria lá”.

    “Eu disse que obteríamos ajuda do Talibã”, destacou o presidente em resposta à pergunta gritada após comentários feitos na Casa Branca. “Eu tinha razão”, pontuou.

    Uma avaliação da Inteligência dos EUA em agosto passado descobriu que a Al-Qaeda não havia se reconstituído no Afeganistão após a retirada americana.

    A saída frenética do governo Biden após 20 anos de envolvimento dos Estados Unidos está sob imenso escrutínio de legisladores predominantemente republicanos.

    No entanto, as acusações sobre quem foi o responsável pelas caóticas semanas finais recaíram amplamente nas linhas partidárias, com os republicanos apontando o dedo para o governo Biden e os democratas, incluindo a Casa Branca, culpando o governo Trump pelo acordo que colocou a retirada ação.

    Críticas mais contundentes às ações administrativas de Biden

    O relatório do Departamento de Estado contém críticas muito mais contundentes sobre as ações do governo Biden do que o documento resumido da Casa Branca divulgado em abril.

    Esse documento culpou as decisões do governo Trump por criar as condições que levaram ao caos da evacuação e não admitiu abertamente nenhum erro.

    O relatório observou que “quando o governo Trump deixou o cargo, questões-chave permaneceram sem resposta sobre como os Estados Unidos cumpririam o prazo de maio de 2021 para uma retirada militar total, como os Estados Unidos poderiam manter uma presença diplomática em Cabul após essa retirada e o que pode acontecer com aqueles elegíveis para o programa de Visto Especial de Imigrante (SIV), bem como com outros afegãos em situação de risco”.

    Depois que Biden decidiu, em abril de 2021, prosseguir com a retirada total, com um novo prazo de 11 de setembro de 2021, a velocidade subsequente do “retrógrado” das forças armadas dos EUA no Afeganistão “agravou as dificuldades que o Departamento enfrentou para mitigar a perda dos principais facilitadores das Forças Armadas”.

    “Criticamente, a decisão de entregar a Base Aérea de Bagram ao governo afegão significava que o Aeroporto Internacional Hamid Karzai (HKIA) seria o único caminho para uma possível operação de evacuação de não combatentes (NEO)”, colocou o relatório.

    Essa operação teve que ser acelerada quando, em meados de agosto de 2021, após rápidas vitórias do Talibã, o presidente Ashraf Ghani fugiu do Afeganistão e o governo de Cabul entrou em colapso.

    “A partida repentina do presidente Ghani de Cabul e a queda da cidade para o Talibã aconteceram com uma velocidade que pegou quase todos os observadores de perto de surpresa”, destacou o relatório.

    O documento também observou que “até a queda de Cabul, voos comerciais para fora do Afeganistão estavam disponíveis, e mesmo os afegãos que planejavam partir estavam demorando para vender propriedades e resolver seus negócios”.

    “Mas havia sinais de alerta de que as perspectivas de que as forças do governo afegão defenderiam Cabul e resistiriam a uma possível transferência negociada de poder estavam evaporando”, ponderou.

    A condução da operação de evacuação foi uma das áreas em que a administração federal e o Departamento de Estado receberam mais críticas, já que milhares de afegãos que serviram ao lado das forças americanas foram deixados para trás e os que estavam no terreno lutaram em circunstâncias perigosas para tentar chegar ao aeroporto e sair antes que fosse tarde demais.

    “O planejamento militar dos EUA para um possível NEO estava em andamento há algum tempo, mas a participação do Departamento no processo de planejamento do NEO foi prejudicada pelo fato de que não estava claro quem no Departamento tinha a liderança”, constatou a revisão.

    “Os altos funcionários do governo não tomaram decisões claras sobre o universo de afegãos em risco que seriam incluídos no momento em que a operação começou, nem determinaram para onde esses afegãos seriam levados. Isso aumentou significativamente os desafios que o Departamento e o Departamento de Defesa enfrentaram durante a evacuação”, complementou.

    “Imenso desafio” para o Departamento de Estado

    De acordo com a revisão, “a preparação e o planejamento da crise foram inibidos até certo ponto por preocupações sobre os sinais que poderiam ser enviados, especialmente qualquer coisa que pudesse sugerir que os Estados Unidos perderam a confiança no governo afegão e, assim, contribuir para seu colapso”, o que aconteceu em meados de agosto de 2021.

    Embora o Departamento de Estado tenha estabelecido uma Força-Tarefa de Coordenação do Afeganistão, “não conseguiu estabelecer uma força-tarefa mais ampla, pois a situação no Afeganistão se deteriorou no final de julho e início de agosto de 2021”.

    “Nomear um diretor do 7º andar para supervisionar todos os elementos da resposta à crise teria melhorado a coordenação em diferentes linhas de esforço”, afirmou o relatório, referindo-se ao andar do Departamento de Estado onde estão localizados os escritórios dos altos funcionários.

    O relatório observou que, em meio ao caos, o Departamento de Estado recebeu um “volume esmagador de ligações e mensagens de outras agências governamentais, do Congresso e do público perguntando sobre casos individuais, principalmente no que diz respeito a afegãos em situação de risco”, o que criou um imenso desafio.

    Além disso, o Departamento de Estado “se mostrou incapaz de impedir que os que estava, no local em Cabul recebessem várias ligações e mensagens diretas de altos ou antigos funcionários, membros do Congresso e/ou cidadãos proeminentes solicitando e, em alguns casos, exigindo que fornecessem assistência a afegãos em risco específico”.

    “Responder a essas demandas muitas vezes colocava os funcionários do Departamento em risco ainda maior e dificultava o esforço de remover grupos maiores de pessoas”, constatou a análise.

    “Mudar constantemente a orientação política e as mensagens públicas de Washington sobre quais populações eram elegíveis para realocação e como a embaixada deveria gerenciar o alcance e o fluxo aumentaram a confusão e muitas vezes falharam em levar em consideração os principais fatos no local”, observou.

    O coordenador do Conselho de Segurança Nacional para comunicações estratégicas, John Kirby, disse à CNN na sexta-feira que Biden “queria que a equipe estivesse pronta” para “cenários de baixa probabilidade, alto risco e pior caso”.

    Kirby não abordou os detalhes do relatório, que expôs como o Departamento de Estado não se preparou totalmente para esses cenários.

    Nem todas as conclusões da revisão foram negativas, tendo elogiado o trabalho dos funcionários envolvidos nos esforços de evacuação, principalmente os da embaixada dos Estados Unidos em Cabul.

    “A AAR afirmou o que eu e muitos já sabíamos ser verdade: nosso povo no Afeganistão, em Washington e em locais ao redor do mundo demonstrou extraordinária coragem, engenhosidade e dedicação à missão diante de condições complexas e exigentes”, reforçou o secretário do Estado, Antony Blinken, em um e-mail aos funcionários na sexta-feira.

    “Nos próximos dias, semanas e meses, continuarei a ouvi-lo, aprender com as melhorias que você está fazendo e trabalhar com você para atender ao objetivo das recomendações da revisão”, continuou Blinken no e-mail, que foi obtido pela CNN.

    O relatório detalhou 11 recomendações, principalmente relacionadas à resposta e preparação para crises do Departamento.

    “Em particular, as recomendações do AAR identificam a necessidade de planejar melhor para os piores cenários, reconstruir e fortalecer as principais capacidades de gerenciamento de crises do Departamento e garantir que os altos funcionários ouçam à mais ampla gama possível de pontos de vista, incluindo aqueles que desafiam as suposições operacionais ou questionam a sabedoria das principais decisões políticas”, concluiu o relatório.

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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