Como políticos muçulmanos dos EUA viraram alvo de republicanos nas eleições

Políticos conservadores buscam colocar muçulmanos no centro do debate eleitoral antes das Eleições de Meio de Mandato

Da Reuters
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O vice-presidente dos Estados Unidos, o republicano JD Vance, chamou Abdul El-Sayed, muçulmano e democrata que concorre ao Senado pelo estado de Michigan, de “muito, muito maléfico” em um comício em setembro. Vance acusou El-Sayed de defender o terrorismo por causa de comentários feitos após um ataque ocorrido em março contra uma sinagoga nos subúrbios de Detroit.

No Texas, o governador republicano Greg Abbott, que enfrenta uma disputa acirrada por mais um mandato, atacou um projeto imobiliário liderado por muçulmanos e pediu uma investigação sobre o que descreveu como esforços para criar “tribunais da sharia”. A acusação foi contestada pelos incorporadores e por grupos de direitos civis.

No Alabama, onde os muçulmanos representam menos de 0,5% da população, o senador republicano Tommy Tuberville, que concorre ao cargo de governador, alertou que “o inimigo está dentro dos portões”, referindo-se ao que chamou de islamismo radical.

Os comentários refletem um esforço para colocar os muçulmanos e o Islã no centro do debate eleitoral antes das Eleições de Meio de Mandato, em 3 de novembro, que determinarão se os democratas conseguirão tirar do Partido Republicano, do presidente Donald Trump, o controle do Congresso.

Críticos afirmam que a retórica ataca injustamente os muçulmanos, enquanto os republicanos dizem estar levantando preocupações legítimas sobre segurança, extremismo e o papel da religião na vida pública.

O porta-voz da campanha de Abbott, Eduardo Leal, disse que as medidas do governador do Texas em relação ao empreendimento tinham como objetivo investigar condutas supostamente ilegais, e não crenças religiosas.

Os muçulmanos somam cerca de 5,5 milhões de pessoas nos Estados Unidos, um aumento em relação aos 2,4 milhões registrados em 2007, segundo o Pew Research Center. Eles representam cerca de 1,6% da população do país.

Essa parcela da população alcançou uma série de marcos políticos nos últimos anos, com a eleição de muçulmanos para a Câmara dos Deputados dos EUA. Nova York elegeu seu primeiro prefeito muçulmano, Zohran Mamdani, no ano passado, enquanto El-Sayed pode se tornar o primeiro muçulmano eleito para o Senado dos EUA. Na Virgínia, Ghazala Hashmi tornou-se a primeira mulher muçulmana eleita para um cargo estadual ao vencer a disputa para vice-governadora.

Mas a retórica também se espalhou para as disputas pela Câmara dos Deputados.

Os deputados republicanos Keith Self e Chip Roy, ambos do Texas, organizaram um “Grupo pela América Livre da Sharia”, e o deputado republicano Randy Fine, da Flórida, apresentou um projeto de lei que, segundo ele, irá “combater o aumento” da aplicação da sharia nos Estados Unidos.

Assessores de Fine não responderam aos pedidos de comentário.

NO CENTRO DO DEBATE

El-Sayed, nascido nos Estados Unidos, tornou-se alvo da retórica anti-islâmica em todo o país.

As críticas de Vance se concentraram nos comentários feitos por El-Sayed após um homem jogar um veículo contra uma sinagoga nos subúrbios de Detroit, em março, enquanto havia crianças no prédio. El-Sayed condenou o ataque, mas também disse que “pessoas feridas ferem outras pessoas”, em referência ao agressor, observando que alguns parentes do homem no Líbano haviam sido mortos recentemente em um ataque aéreo israelense.

Posteriormente, El-Sayed afirmou que suas declarações poderiam ter sido mal interpretadas e pediu desculpas.

Em resposta ao ataque de Vance, El-Sayed disse no mês passado: “O mal é tirar o acesso à saúde das pessoas trabalhadoras em troca de isenções fiscais para bilionários. O mal é fazer as pessoas pagarem mais por mantimentos e combustível enquanto se promove guerras comerciais e guerras reais. O mal é dividir as pessoas para seu próprio ganho.”

El-Sayed também tem enfrentado críticas dos republicanos por se associar a Hasan Piker, um influenciador de esquerda nas redes sociais que afirmou que os Estados Unidos mereceram os ataques de 11 de setembro de 2001.

Em uma entrevista em um podcast, El-Sayed discutiu o sentimento de isolamento que alguns americanos experimentam, que ele atribuiu aos celulares e às redes sociais, e comparou a situação ao senso de comunidade que seus parentes no Egito desfrutam.

Em resposta, Tuberville publicou no X: “Se você odeia tanto os Estados Unidos, vá morar no Egito.”

Assessores da campanha de Tuberville não responderam aos pedidos de comentário.

ATAQUES A MINORIAS

O público tem dúvidas sobre Trump, cujo índice de aprovação está estagnado em cerca de 33%. Entre suas principais preocupações estão o alto custo de vida, a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã e as tarifas de Trump sobre produtos estrangeiros.

A atitude do público em relação a Israel mudou, especialmente entre os democratas, com pesquisas mostrando uma crescente simpatia pelos palestinos e uma oposição cada vez maior à ajuda militar dos EUA.

Aaron Hughes, professor de estudos religiosos da Universidade de Rochester e especialista em islamismo e judaísmo, disse que o aumento do foco nos muçulmanos ocorre enquanto os republicanos lutam para ganhar força política em questões como o custo de vida, a guerra contra o Irã e a imigração.

“Se você consegue se envolver na bandeira e criticar os muçulmanos e o islamismo, isso significa que não precisa realmente lidar com as questões”, disse ele em uma entrevista por telefone, classificando a estratégia como “alarmismo”.

“Você está pegando essa caracterização grosseira de uma comunidade e estabelecendo conexões com o Hamas, com o Irã... Acho extremamente chocante que haja essa confusão”, disse.

Os ataques retóricos ocorrem, observou Hughes, apesar de muitos muçulmanos terem crenças conservadoras que se alinham à ortodoxia republicana, como a oposição a alguns procedimentos de aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Há um histórico nos Estados Unidos de ataques a minorias em campanhas políticas, mas a retórica se tornou mais agressiva, segundo especialistas.

Há exatamente dois anos, alguns republicanos que concorriam a cargos públicos, incluindo Trump, espalharam a falsa alegação de que imigrantes haitianos que viviam na pequena cidade de Springfield, em Ohio, estavam comendo animais de estimação.

“Eles estão comendo os cachorros! As pessoas que chegaram. Estão comendo os gatos! Estão comendo... os animais de estimação das pessoas que moram lá”, disse Trump em um debate presidencial de 2024.

Embora Trump não esteja na disputa, o baixo apoio do público ao seu desempenho pode ser um empecilho para seus colegas republicanos.

Ashik Siddique, copresidente dos Socialistas Democráticos da América, não considera correto atribuir a islamofobia a apenas um partido político. “Infelizmente, às vezes, os democratas na liderança também alimentaram essa” retórica anti-islâmica, afirmou.

Ele se referia a uma entrevista de rádio concedida por Andrew Cuomo em outubro do ano passado, quando concorria como candidato independente à prefeitura de Nova York, antes de ser derrotado por Mamdani.

“Você consegue imaginar Mamdani no cargo” durante os ataques de 11 de setembro de 2001?, questionou Cuomo ao apresentador do programa.