Rússia usa vacina Sputnik V para aumentar influência na América latina

Prontidão para fechar acordos, baixo custo e facilidade de armazenamento estão entre os fatores que Moscou usa a seu favor para melhorar reputação na região

Frasco da Sputnik V, a vacina russa contra a Covid-19
Frasco da Sputnik V, a vacina russa contra a Covid-19 Foto: Sputnik V/Divulgação

Stefano Pozzebon, da CNN

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A Rússia está se tornando um grande fornecedor de vacinas contra Covid-19 para a América Latina, um movimento que pode ter consequências de longa data na formação do mundo pós-pandemia e diminuir ainda mais o prestígio dos Estados Unidos na região.

Apesar de Moscou enfrentar protestos internos e ser criticada sobre questões de direitos humanos por parte EUA, França, Reino Unido, Canadá e outros países ocidentais, essas questões tiveram pouca ressonância na América Latina, que celebrou a publicação recente na The Lancet, o principal jornal médico da Grã-Bretanha, de uma avaliação positiva revisada por pares da Sputnik V.

Eduardo Valdés, ex-diplomata e membro da coalizão governamental Frente de Todos, que agora preside o Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados da Argentina, diz que há uma linha clara entre as negociações de vacinas e fatores externos.

“Agora não é hora de fazer ideologia. Nosso objetivo é que o hemisfério ocidental obtenha suas vacinas e não se intrometa nos assuntos internos de outra pessoa”, disse ele à CNN.

Pedindo ajuda a Moscou

Embora historicamente seja vista como o “quintal” geopolítico de Washington, a América Latina está cada vez mais se voltando para Moscou em busca de ajuda para lidar com a pandemia. 

Seis países da região – Argentina, Bolívia, México, Nicarágua, Paraguai e Venezuela – já autorizaram o uso da vacina Sputnik V. Outros estão considerando pedidos de autorização, cada vez mais urgentes devido à escassez global de vacinas.

O caso da Colômbia é um exemplo: Bogotá, o aliado regional mais próximo dos EUA, agora está prestes a autorizar a Sputnik V também – uma decisão que surpreendeu muitos devido ao estreito alinhamento entre alguns setores da coalizão governamental e o Partido Republicano dos EUA. 

No passado, membros de direita do próprio partido do presidente colombiano Iván Duque, o Centro Democrático, criticaram abertamente o envolvimento de Vladimir Putin na América Latina.

Mas quando o país se viu sem vacinas no final de janeiro, Duque parece ter decidido colocar a ideologia de lado. No dia seguinte à publicação sobre a Sputnik V na Lancet, a Colômbia anunciou que estava entrando em negociações com a Rússia.

Menos de três meses antes, Bogotá havia expulsado duas autoridades russas em circunstâncias pouco claras. Mas isso “não influenciou as negociações para trazer a vacina para cá”, disse Leonid Sboiko, primeiro secretário da embaixada russa em Bogotá, à CNN. O Ministério da Saúde da Colômbia não quis comentar sobre o andamento das negociações.

No mínimo, o acordo da vacina pode ser um passo para suavizar as coisas. “Ambos os países querem virar a página. Foi lamentável, mas queremos seguir em frente”, disse Sboiko. “Cooperar nas vacinas é a questão mais urgente no momento e vai influenciar positivamente as relações bilaterais [da Colômbia e da Rússia].”

Sboiko disse à CNN que o Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF), que lida com a comercialização da Sputnik V, apresentou na semana passada um pedido de autorização de uso emergencial para a agência médica colombiana Invima, e está pronto para entregar 100.000 doses dentro de 14 dias após a compra.

Doses da Sputnik V são desembarcadas em aeroporto da Argentina
Doses da vacina russa Sputnik V são desembarcadas em aeroporto da Argentina
Foto: Reuters

“Acho que eles tiveram que aceitar e comprar a vacina independentemente de quem a produz. E os russos agiram com enorme pragmatismo”, disse à CNN Juan Carlos Ruiz, professor de Relações Exteriores da Universidad del Rosario de Bogotá.

A Colômbia começará a vacinação esta semana, após receber 50.000 doses de uma primeira remessa da Pfizer.

Facilidade de fazer negócios

A necessidade de garantir mais vacinas é sentida com urgência na região. Os países latino-americanos estão entre os mais afetados no mundo pela pandemia, mas as campanhas de vacinação em grande escala ainda não começaram, com poucas exceções.

De acordo com a Universidade de Oxford, os países da América do Sul aplicaram, em média, menos de duas doses de qualquer vacina contra o coronavírus por 100 pessoas, em comparação com quase cinco doses por 100 pessoas na União Europeia (UE) e mais de 14 doses por 100 pessoas nos EUA.

A prontidão da Rússia para fechar acordos tem sido fundamental para a disseminação da vacina na América Latina até agora, de acordo com Danil Bochkov, especialista em relações internacionais no Conselho de Assuntos Internacionais da Rússia.

“É sempre mais fácil negociar com o Estado do que com uma empresa privada, que tem de se proteger de possíveis riscos temendo enormes perdas. As empresas estatais são mais fáceis de negociar, especialmente quando estão perseguindo objetivos políticos”, disse Bochkov à CNN.

Valdés, o legislador argentino, diz que as negociações com Moscou foram mais fáceis do que com a Pfizer, de quem o governo argentino planejava inicialmente comprar vacinas.

“Quando analisamos o contrato, avaliamos que o da Pfizer não cumpria os protocolos legais que esperávamos”, disse. “Entramos em contato com os russos, o presidente [argentino Alberto] Fernandez se relacionava diretamente com Putin, e isso acelerou as coisas”, disse ele à CNN.

A Argentina comprou até agora 25 milhões de doses da vacina Sputnik V e distribuiu mais de 600.000 unidades. Enquanto isso, o país ainda espera receber o primeiro lote de vacinas da Pfizer.

Em um comunicado à CNN, a Pfizer disse que a empresa continua comprometida em trabalhar com o governo argentino, mas se recusou a comentar sobre o status das negociações confidenciais.

Os vizinhos regionais Peru e Brasil também citaram dificuldades nas negociações com a Pfizer, supostamente por causa de algumas das cláusulas de responsabilidade, antes de procurarem outras vacinas – Sinopharm, de fabricação chinesa, no Peru, e Coronavac e AstraZeneca, no Brasil.

Além da facilidade de negociação, mais dois fatores contribuíram para a disseminação da Sputnik V na América Latina, de acordo com analistas e legisladores envolvidos na compra de vacinas na Argentina e na Bolívia: a Sputnik V é barata e relativamente fácil de armazenar.

Sem qualquer tipo de negociações, o RDIF fixou o preço da Sputnik V em aproximadamente US$ 10 por dose – quase metade do preço da vacina da Pfizer, que custa US$ 19,50 por dose. As economias latino-americanas foram gravemente atingidas pela pandemia, e qualquer economia possível é mais do que bem-vinda por administradores e políticos.

A vacina russa também pode ser armazenada em uma temperatura de 2 a 8 ° C e não requer a temperatura de ultracongelamento em que a vacina Pfizer é armazenada. A maior parte da América Latina carece de infraestrutura para manter temperaturas extremamente baixas, especialmente em regiões rurais com acesso rodoviário limitado.

Frasco com a vacina Sputnik V em clínica em Rostov-On-Don, Rússia
Frasco com a vacina Sputnik V em clínica em Rostov-On-Don, Rússia
Foto: Sergey Pivovarov/Reuters

Outras vacinas de empresas privadas, como as da AstraZeneca e da Moderna, ainda não chegaram em grandes quantidades à América Latina, enquanto países como Brasil, Chile e México investiram em vacinas de fabricação chinesa.

Em todo o mundo, 26 países já aprovaram a Sputnik V.

O que a Rússia tem a ganhar

Ex-diplomatas e analistas em Buenos Aires, Bogotá e La Paz dizem que Putin agora pode colher os benefícios da disseminação da vacina, potencialmente usando-a como um cartão de visita global para iniciar relacionamentos novos e mais tolerantes.

De acordo com Andrés Serbín, presidente do Coordenador Regional de Pesquisas Sociais e Econômicas (Cries), um think tank de política externa em Buenos Aires, os interesses da Rússia na América Latina são tanto políticos, para rivalizar com a hegemonia dos Estados Unidos no hemisfério ocidental, quanto comerciais, para ampliar mercados para empresas russas. Vender a vacina atende a esses dois objetivos.

“A Rússia fez uma grande aposta na vacina: nos últimos anos, o país redescobriu a América Latina, não por ideologia, mas porque se o seu objetivo é questionar as normas e valores da ordem internacional liberal e a América Latina é uma região particularmente sensível a esse objetivo”, disse Serbin.

Tanto a Rússia quanto a China estão procurando melhorar sua reputação após anos de confronto com os EUA e a UE, e o papel de fornecedor de vacinas para o mundo em desenvolvimento é uma oportunidade perfeita para uma campanha positiva de relações públicas. 

Como afirma Bochkov, “a Rússia dominou o uso da Sputnik V como instrumento diplomático até agora”.

Comercialmente, vender milhões de doses de vacinas também significa obter lucros multimilionários – algo de importância primordial para a economia russa, que foi atingida por sanções ocidentais nos últimos tempos.

Em contraste, a maneira como o Ocidente está lidando com a distribuição da vacina muitas vezes parece introspectiva. Em janeiro, a Grã-Bretanha e a UE disputaram a distribuição da vacina, enquanto a Casa Branca aumentou as compras para um total de mais de 7 doses potenciais disponíveis para cada americano, de acordo com dados coletados pela Duke University.

“A diferença é que os Estados Unidos estão trabalhando para obter vacinas principalmente para vacinar cidadãos norte-americanos. Outros, como a Rússia e a China, estão procurando estreitar as relações onde podem”, disse Pablo Solón, ex-embaixador da Bolívia nas Nações Unidas, à CNN.

Oportunidade perdida para o Ocidente?

As potências ocidentais poderiam ter aproveitado a vantagem política – e até moral –, diz Amadeo Gandolfo, um acadêmico argentino em comunicação política da Universidade Humboldt, de Berlim. 

Ele argumenta que os países ocidentais perderam uma oportunidade importante de reivindicar uma vitória moral quando permitiram que as empresas patenteassem suas vacinas.

“Diante da necessidade absoluta de todo mundo obter a vacina, deixá-la nas mãos das empresas farmacêuticas e não permitir uma liberação da fórmula, é algo que afastou alguns setores da América Latina”, disse à CNN.

Doses da Sputnik V, vacina russa contra a Covid-19
Doses da Sputnik V, vacina russa contra a Covid-19; Bahia assinou acordo para distribuir até 50 milhões de doses
Foto: Andrey Rudakov – 7.ago.2020/ Fundo Russo de Investimento Direto/ Reuters

Agora, como acontece com qualquer novo produto patenteado, as vacinas desenvolvidas de forma privada são protegidas por direito de propriedade e não podem ser replicadas por outras empresas ou países. 

Portanto, enquanto empresas privadas como Pfizer e AstraZeneca estão lutando para atender aos pedidos de compra, outros laboratórios não podem intervir para produzir as mesmas vacinas e aumentar os suprimentos.

Em vez disso, muitos países ocidentais investiram no Covax, uma estrutura promovida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para comprar vacinas a granel e garantir entregas a países em desenvolvimento que não podem pagar sozinhos.

Mas embora a Covax prometa inocular até 20% do mundo em desenvolvimento e diga que priorizará quatro países latino-americanos, incluindo Bolívia e Colômbia para acesso antecipado, ela ainda não distribuiu uma única dose.

Se os esforços de vacinação seriam mais iguais se as empresas farmacêuticas ocidentais não fossem autorizadas a patentear e comercializar as vacinas é algo discutido desde o início da pandemia. Um esforço da África do Sul e da Índia instando a Organização Mundial do Comércio (OMS) a suspender os direitos de propriedade intelectual relacionados à Covid-19 não teve êxito até agora.

Isso custará caro aos governos ocidentais na geopolítica pós-pandemia, argumenta Sólon, o diplomata boliviano. “O mundo é multipolar há algum tempo. Mas, neste mundo multipolar, a Rússia e a China estão avançando rapidamente. A situação da vacina está apenas fortalecendo essa tendência.”

(Texto traduzido; leia o original em inglês)

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