Saiba quem é Lee Jae-myung, novo presidente da Coreia do Sul
Ex-operário, advogado e sobrevivente de tentativa de assassinato, novo líder foi um dos parlamentares que derrubou lei marcial decretada no país no ano passado
Aos 14 anos, Lee Jae-myung era um operário pobre. Nesta quarta-feira (4), se tornou líder de uma das economias mais poderosas da Ásia, aliado dos Estados Unidos e um gigante cultural.
Mas, após obter uma vitória decisiva sobre o rival conservador Kim Moon-soo na terça-feira (3), Lee enfrenta uma tarefa desafiadora.
A Coreia do Sul permanece profundamente dividida, tendo o antecessor de Lee declarado lei marcial em uma breve tomada de poder em dezembro, deixando muitos eleitores preocupados com o estado de sua democracia.
Seis meses de turbulência política subsequente aprofundaram as fissuras existentes, com protestos — tanto a favor quanto contra o ex-presidente Yoon Suk-yeol e seu Partido do Poder Popular — lotando as ruas da capital, Seul.
As condições internacionais instáveis agravaram a incerteza do país.
As tarifas globais do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atingiram duramente a economia da Coreia do Sul, dependente do comércio, sem um líder permanente no comando para conduzir as negociações com Washington.
Novo presidente pode levar estabilidade
A eleição do novo presidente — após uma sucessão de líderes interinos no último semestre — pode finalmente oferecer ao país a estabilidade tão necessária, explicou Cho Hee-kyoung, professora de direito na Universidade Hongik, em Seul.
“Não tínhamos nem mesmo alguém que pudesse dialogar com Trump sobre a guerra tarifária, e para uma economia voltada para a exportação, isso é um problema sério”, disse Cho.
Acrescentando que a eleição — que teve o maior comparecimento desde 1997 — representou uma dura crítica pública ao Partido do Poder Popular.
“Para muitas pessoas, acredito que esta eleição significou responsabilizar os causadores do caos no país”,
Um eleitor, Kim Yong-gung, disse à CNN que estava tão feliz com a vitória de Lee que se sentia como se estivesse voando.
Ele dirigiu por duas horas de sua casa até a capital na noite da lei marcial, sem saber se retornaria em segurança; a Coreia do Sul já teve sua cota de repressões sangrentas em seu passado autoritário, antes de se tornar uma democracia.
“Então, liguei para minha esposa e pedi para ela avisar meus filhos que eu iria (à Assembleia Nacional) pelo bem do meu neto”, relatou. “Para construir um mundo melhor para a geração deles, precisamos acabar com a lei marcial. Não posso simplesmente ignorá-la e dormir.”

Histórico do novo líder sul-coreano
Mas ainda não se sabe se Lee, de 60 anos, conseguirá sanar as divisões políticas — especialmente porque ele traz consigo sua própria bagagem, envolvido em vários desafios legais e enfrentando alegações de corrupção e abuso de poder.
Não está claro o que acontecerá com seus julgamentos criminais em andamento; presidentes em exercício normalmente são imunes a processos, mas há divergências sobre se isso se aplica a casos que começam antes de eles assumirem o cargo.
Em sua posse nesta quarta-feira (4), no entanto, o novo líder buscou se apresentar como um portador de unidade e um novo começo para a nação de mais de 50 milhões de pessoas.
“É hora de substituir o ódio e o confronto pela coexistência, reconciliação e solidariedade — para inaugurar uma era de felicidade nacional, de sonhos e esperança”, expressou ele em um discurso. “Responderei ao chamado sincero para construir uma nação completamente nova”.
Do passado de pobreza à riqueza

Nascido em meados da década de 1960, ele é o quinto de sete filhos de uma família pobre de Andong, uma cidade ribeirinha a sudeste da capital do país, Seul.
Seu pai trabalhava como faxineiro de mercado, enquanto sua mãe era cobradora de taxas em banheiros públicos, segundo seu escritório e biografias que incluem trechos dos diários do próprio Lee.
Com a Coreia do Sul, devastada pela guerra civil, no início de uma rápida industrialização que a transformaria em uma potência industrial, o presidente começou a trabalhar em fábricas ainda adolescente — de joias a linhas de montagem de refrigeradores.
Enquanto trabalhava em uma fábrica de luvas de beisebol, ele machucou permanentemente o braço esquerdo.
Em seu diário, Lee escreveu sobre sua inveja dos alunos que via usando uniformes escolares e daqueles que tinham o suficiente para comer.
Apesar da origem humilde, ele passou nos exames escolares e ganhou uma bolsa integral para estudar Direito na Universidade Chung-Ang, uma das principais instituições privadas de Seul.
A partir daí, Lee tornou-se advogado de direitos humanos e ingressou na política em 2010 como prefeito da cidade de Seongnam, nos arredores da capital, representando o Partido Democrata liberal.
Isso o levou a outro mandato, mais significativo, a partir de 2018, como governador da província de Gyeonggi, a mais populosa do país, que circunda a capital.
Busca pela presidência
Naquela época, ele já estava de olho na faixa presidencial — e deixou o governo para concorrer nas eleições de 2022, perdendo para Yoon por menos de um ponto percentual.
Lee tornou-se legislador depois disso, sobrevivendo a uma tentativa de assassinato em janeiro de 2024, quando um homem o esfaqueou no pescoço durante um evento público na cidade de Busan, no sul do país, no que seu partido denunciou como um “ato de terror político”.
Mais tarde naquele ano, ocorreu a tomada de poder malfadada por Yoon.
Lee voltou às manchetes como um dos legisladores que correram para a Assembleia Nacional e empurraram soldados para realizar uma votação de emergência para suspender a lei marcial.
Ele fez uma transmissão ao vivo pulando uma cerca para entrar no prédio, em um vídeo viral visto dezenas de milhões de vezes.
Apesar de sua crescente popularidade, Lee é visto com desconfiança por muitos oponentes devido aos seus julgamentos criminais — incluindo por suposto suborno e acusações relacionadas a um escândalo imobiliário.
Separadamente, ele foi condenado por violar a lei eleitoral ao fazer, conscientemente, uma declaração falsa durante um debate na campanha presidencial de 2022. O caso foi enviado a um tribunal de apelações.
O novo líder do país nega todas as acusações contra ele.
Em entrevista à CNN em dezembro, ele alegou ter sido indiciado por várias acusações “sem qualquer prova ou fundamento” e que as alegações têm motivação política.
Expectativas para o novo mandato
O decreto de lei marcial de Yoon foi, em parte, alimentado por sua frustração com um impasse político de meses, com o Partido Democrata de Lee impedindo o presidente de levar adiante muitas de suas promessas e políticas de campanha.
Agora, o Partido Democrata controla tanto o parlamento quanto a presidência — o que pode representar “um retorno à política normal”, analisou Celeste Arrington, professora associada de ciência política e relações internacionais da Fundação Coreia na Universidade George Washington, na capital dos Estados Unidos.
“Pode ser mais fácil aprovar políticas do que foi sob o impeachment do presidente Yoon”, acrescentou.
E Lee tem muito a fazer agora — incluindo lidar com a economia estagnada e se envolver nas negociações comerciais entre EUA e Coreia do Sul.

“Acionarei imediatamente uma força-tarefa de resposta econômica emergencial para restaurar a subsistência da população e reanimar a economia”,
Acrescentando que “transformaria a crise econômica e de segurança global em uma oportunidade para maximizar nosso interesse nacional” e fortaleceria a cooperação trilateral com os EUA e o Japão.
Arrington pontuou que Lee vê claramente a aliança com os americanos como a “espinha dorsal” da segurança nacional do país — mas ele terá que equilibrar isso com as relações com a China.
O rival de Washington também é o maior parceiro comercial de Seul.
Yoon adotou uma linha dura em relação à Coreia do Norte, e as relações despencaram.
Em contraste, Lee vem de um partido político que historicamente adotou uma abordagem mais conciliatória com o vizinho autocrático.
O novo presidente reiterou o objetivo de longa data de paz na Península Coreana, prometendo “responder firmemente às ameaças nucleares da Coreia do Norte, mantendo os canais de comunicação abertos”.
Mas, acima de tudo, Lee enfatizou a importância de reconstruir a confiança pública, gravemente abalada pela crise da lei marcial — e punir os responsáveis.
“Reconstruirei tudo o que foi destruído pela insurreição e criarei uma sociedade que continue a crescer e se desenvolver”, exclamou ele. “Uma insurreição que usa o poder militar para tomar a soberania do povo nunca deve se repetir”.



