Símbolos, em geral de nacionalismo, marcam discursos de Cúpula do Clima

Em um ambiente de home office planetário, cada líder acabou responsável pela arquitetura do cenário do próprio discurso

Roberto Lameirinhas, colaboração para a CNN

Ouvir notícia
Cúpula de Líderes sobre o Clima
Cúpula de Líderes sobre o Clima, convocada pelo presidente americano Joe Biden, reúne outros 39 líderes mundiais
Foto: Reprodução/CNN Brasil (22.abr.2021)

O uso de símbolos é, historicamente, parte indissolúvel do discurso político. Tanto quanto a retórica verbalizada em discursos repletos de promessas, compromissos e demandas, os símbolos estiveram presentes como nunca no encontro de cúpula virtual sobre mudanças climáticas, no qual mais de 40 líderes mundiais discursaram desde a quinta-feira, dia 22 – num evento marcado pelo retorno dos Estados Unidos às discussões sobre o Acordo de Paris.

E a eloquência da simbologia política não esteve somente na gravata verde-azulada do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que pronunciou um discurso considerado oposto às falas que acentuavam o ceticismo em relação ao aquecimento global de reuniões anteriores. Mas ela se mostrou presente também na mensagem de vários governantes importantes ao redor do mundo – e nem sempre essa mensagem se relaciona à questão ambiental.

É importante contextualizar o evento. Tratava-se da primeira oportunidade de troca de impressões entre líderes mundiais desde a chegada de Joe Biden à Casa Branca – que protagonizou um giro político poucas vezes testemunhado em Washington desde a saída de Donald Trump do governo dos EUA.

Biden não é mero sucessor de Trump. Cabe a ele remanejar todas as relações políticas – internas e externas – do presidente anterior, obcecado pela doutrina “America First” que cunhou à custa de fricções diplomáticas com boa parte do mundo.

Outro ponto importante para contextualizar a reunião é que ela se realizou em meio à segunda onda da pandemia de Covid-19, num período em que chefes de Estado e governo estão lançados em busca de escassas vacinas para tentar recuperar economias devastadas pelos efeitos da pandemia.

Além disso, num ambiente de home office planetário, cada líder acabou responsável pela arquitetura do próprio cenário – num rompimento com fundos neutros em tons pouco chamativos que de forma cerimonial costumam marcar encontros como esse.

Assim, simultaneamente ao discurso verbal, mensagens subliminares de diversos matizes espalharam-se pelas telas que transmitiam e recebiam os pronunciamentos. Muitos destes recados estavam vinculados a fervores nacionalistas. Outros, de reafirmação de posições antagônicas, principalmente aos EUA.

1. Joe Biden

Joe Biden na  Cúpula de Líderes sobre o Clima
O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, abriu a Cúpula de Líderes sobre o Clima nesta quinta-feira (22)
Foto: Reprodução/CNN Brasil

O presidente americano, Joe Biden, foi o ponto central do encontro – que, na verdade, tinha como meta esboçar propostas para a reunião de novembro em Glasgow, na Escócia. A reunião do dia 22 marcou, efetivamente, o retorno dos EUA ao Acordo de Paris, com o qual Trump havia rompido unilateralmente por considerar que os compromissos estabelecidos para a redução de emissão de gás carbônico ameaçavam os interesses americanos.

Biden fez questão de marcar a diferença. Saudou e foi saudado de forma efusiva por parceiros europeus como a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Emmanuel Macron.

Num cenário formado por uma mesa de reuniões coberta por grama – em alusão à vegetação de biomas ameaçados pela mudança climática –, Biden voltou a se comprometer com a busca de alternativas energéticas limpas e o incentivo às pesquisas que visam a substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis.

A presença ou ausência do presidente americano durante o pronunciamento dos demais líderes também foi considerada como simbólica em relação à receptividade dos discursos proferidos no encontro.

2. Jair Bolsonaro

Cúpula de Líderes sobre o Clima
O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, destacou ações ambientais do país na Cúpula de Líderes sobre o Clima
Foto: Reprodução/CNN Brasil (22.abr.2021)

A impressão generalizada, após o discurso do presidente Jair Bolsonaro, foi a de que a saída de Trump da Casa Branca moderou a retórica do brasileiro. O negacionismo em relação às mudanças climáticas deu lugar à demanda por recompensa bilionária pelos esforços do governo do Brasil de preservar suas florestas, principalmente a Amazônica.

Os símbolos, no entanto, não faltaram. Se o tom do pronunciamento pareceu mais cordato e menos belicoso do que o de discursos anteriores sobre o mesmo tema, a fila de bandeiras nacionais que serviu de cenário para o presidente não deixou dúvidas sobre o caráter nacionalista do governo Bolsonaro.

E, por nacionalismo, neste caso, se entende a contraposição ao que formuladores da doutrina bolsonarista entendem como “globalismo” – algo como uma conspiração de poderes globais para se sobrepor aos interesses dos Estados nacionais. Foi uma amostra de que, embora afastado da chefia da diplomacia em Brasília, as ideias do ex-chanceler Ernesto Araújo, ferrenho inimigo dos “globalistas”, ainda não foram totalmente eliminadas da atual administração.

Além da gravata verde, Bolsonaro exibiu também durante o discurso um pin que fazia alusão a uma honraria concedida a civis e militares: a Medalha do Pacificador com Palma. O presidente recebeu a medalha por evitar que um colega de farda morresse afogado durante uma instrução militar nos anos 70.

Bolsonaro foi o 20.º, entre os 40 líderes, a discursar. E Biden alegou a necessidade de manter uma reunião de urgência com os líderes de seu governo para não acompanhar a fala de Bolsonaro da sala de transmissão.

3. Vladimir Putin

Vladimir Putin
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante a Cúpula de Líderes sobre o Clima
Foto: Kremlin

O discurso do presidente russo, Vladimir Putin, na Cúpula do Clima era um dos mais esperados do evento. Menos pelo que ele falaria sobre questões ambientais, mas principalmente pela série de troca de farpas que ele e Joe Biden têm protagonizado desde que o líder democrata chegou à Casa Branca.

E a tensão entre Washington e Moscou, que ganhou corpo com o envio de soldados russos para a fronteira com a Ucrânia e a greve de fome mantida pelo opositor russo Alexei Navalny, acabou resultando numa tragédia técnica: a palavra foi dada a Putin no momento em que o discurso do presidente francês, Emmanuel Macron, foi cortado bruscamente.

Na tela principal, por alguns segundos constrangedores, foi exibida a imagem silenciosa do líder indonésio, Joko Widodo. Depois do discurso de Putin, o secretário de Estado dos EUA, Anthony Blinken, pediu desculpas pelas falhas técnicas.

No pronunciamento em si, em meio a um cenário futurista dos anos 70 – que remetia aos anos de corrida tecnológica da Guerra Fria –, Putin reiterou compromissos de reduzir significativamente as emissões de carbono na atmosfera até 2050. Mas fez menções às vantagens da energia nuclear para o alcance dessas metas.

4. Xi Jinping

O presidente da China, Xi Jinping
O presidente da China, Xi Jinping, destacou políticas ambientais do país na Cúpula de Líderes sobre o Clima
Foto: Reprodução/CNN Brasil (22.abr.2021)

Símbolos nacionais também marcaram o cenário do discurso do presidente chinês, Xi Jinping, na Cúpula do Clima. A participação chinesa na cúpula era amplamente aguardada por se tratar do país que mais lança gás carbônico na atmosfera global e um dos mais resistentes à adoção de alternativas ambientais sustentáveis.

Pequim também travou com o governo de Donald Trump uma intensa queda de braço comercial, que não foi totalmente superada com a chegada de Joe Biden à Casa Branca.

O orgulho nacionalista chinês, porém, embora presente no discurso, não se sobrepôs ao compromisso de Pequim de levar a Glasgow propostas ambiciosas de redução de emissão de poluentes.

5. Angela Merkel

Cúpula de Líderes sobre o Clima
A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, na reunião virtual da Cúpula de Líderes sobre o Clima
Foto: Reprodução/CNN Brasil (22.abr,2021)

Tendo ao fundo o pavilhão da União Europeia e o logo do evento, coube à chanceler alemã, Angela Merkel, apresentar a mensagem de compromisso coletivo de  nações com a redução das emissões de poluentes.

Em conjunto com Macron, que apresentou um discurso gravado, Merkel é uma das principais impulsionadoras do esforço comunitário para a neutralização dos efeitos das mudanças climáticas.

No pronunciamento, a chanceler alemã foi a encarregada de dar as boas-vindas ao retorno de Washington às discussões do Acordo de Paris e reiterou o compromisso europeu de zerar as emissões de carbono até 2050.

Mais Recentes da CNN