Em momento de união, socorristas muçulmano e judeu oram juntos

Para os dois socorristas, a oração conjunta não era novidade; para muitos outros, foi uma imagem inspiradora no meio da pandemia global do coronavírus

Oren Liebermann e Michael Schwartz, da CNN
Compartilhar matéria

Quase não houve tempo para fazer uma pausa.

Avraham Mintz e Zoher Abu Jama tinham acabado de atender ao chamado de uma mulher de 41 anos com problemas respiratórios no sul da cidade israelense de Be'er Sheva. Antes disso, haviam socorrido um homem de 77 anos. Mais ligações viriam a seguir. Disso, não havia dúvida.

À medida que o relógio se aproximava das seis da tarde, Mintz e Abu Jama perceberam que esse momento poderia ser sua única pausa no turno. Os dois membros do Magen David Adom (MDA), serviço de resposta a emergências de Israel, fizeram uma pausa para orar.

Mintz, um judeu religioso, parou de frente para Jerusalém, com seu xale de oração branco e preto pendurado nos ombros. Abu Jama, um muçulmano praticante, ajoelhou-se de frente para Meca, com seu tapete de oração marrom e branco desdobrado debaixo de seus joelhos.

Leia também:
Jornalista que mostrou crise da Covid-19 em Wuhan é condenada a 4 anos de prisão
Investigadores buscam motivações após identificarem homem-bomba de Nashville
Tubarão mais velho do mundo possui 400 anos de idade

Para os dois socorristas, que costumam trabalhar juntos duas ou três vezes por semana, a oração conjunta não era novidade. Para muitos outros, foi uma imagem inspiradora no meio da pandemia global do coronavírus.

A foto dos dois homens tirada por um colega de trabalho no final de março e rapidamente viralizou, ganhando milhares de curtidas nas redes sociais e aparecendo na cobertura da mídia internacional. Um usuário escreveu no Instagram: “Estou orgulhoso de todos os serviços de resgate, não importa de qual comunidade ou religião”. No Twitter, outro usuário disse: “Uma luta! Uma vitória! Vamos nos unir”.

“O fato de ser algo tão simples torna o momento tão poderoso. Eu acredito que Zoher e eu e a maior parte do mundo entendemos que temos que elevar nossas mentes e orar. Isso é tudo o que resta”, disse Mintz à CNN. Pai de nove filhos e morador de Be'er Sheva, o homem de 42 anos trabalha em tempo integral no serviço de emergência MDA e treina voluntários.

Abu Jama, pai de sete filhos e morador da vizinha cidade beduína de Rahat, foi um desses voluntários. Ele deixou seu trabalho como instrutor de autoescola para ajudar tanto quanto possível durante a pandemia.

“Em termos de crença e personalidade, acreditamos nas mesmas coisas e temos algo em comum”, afirmou o homem de 39 anos à CNN. “Eu acredito que ele é uma pessoa que oferece e carrega em si um sentimento de honra e isso é importante”.

Socorristas oram juntos
Jama e Minz: para os colegas, a oração conjunta não era novidade. Para o resto do mundo, foi uma imagem inspiradora.
Foto: Arquivo Pessoal

Em Israel, as equipes do MDA atendiam na época uma média 100 mil ligações em dias de pico, mais de 10 vezes o volume normal, de acordo com Zaki Heller, porta-voz do MDA.

Além do trabalho normal dos socorristas e paramédicos, as equipes do MDA são responsáveis por levar os pacientes com coronavírus ao hospital ou aos hotéis de quarentena designados, realizar testes de coronavírus, coletar doações de sangue e muito mais.

No primeiro semestre, eles até organizaram seções eleitorais para os eleitores que faziam quarentena. O Diretor Geral do MDA, Eli Bin, sorriu com orgulho ao falar sobre sua equipe, composta por 2.500 funcionários em tempo integral e 25 mil voluntários.

“O pessoal do MDA está enfrentando o vírus, encarando-o de frente. Os trabalhadores do MDA trabalham com as mãos, luvas e máscara”, disse à CNN. “Nós somos os heróis de Israel”.

Leia também:
Em 2021, o Congresso quer andar com as reformas que ficaram paradas em 2020
De olho na Mega da Virada? Saiba quantas pessoas já ganharam na Mega-Sena
Saiba quais são os países que já estão vacinando; Brasil está fora

Se Mintz e Abu Jama se veem como heróis, certamente não deixaram transparecer. Eles conhecem tanto seu trabalho como sua fé. “Todo mundo tem medo do vírus”, afirmou Mintz. “Nós também, mas temos a crença de que tudo está sob o controle de Deus, bendito seja Ele. Ambos acreditamos nisso”.

Abu Jama faz eco ao seu parceiro. “Acredito que Deus vai nos ajudar e vamos superar isso. Devemos todos orar a Deus para nos ajudar a passar por isso, e vamos sair dessa crise mundial”.

Os dois oraram por cerca de 15 minutos. Em seguida, entraram na ambulância. E voltaram ao trabalho.

Tópicos