Suposto espancamento de cientistas lança sombra sobre triunfo espacial chinês

Entre os supostos atacados por oficial chinês, estão uma mulher de 85 anos que sofreu fratura na coluna e um homem de 55 anos que teve costelas quebradas

A China vai enviar três astronautas em órbita na quinta-feira (17) em sua primeira missão tripulada em quase cinco anos
A China vai enviar três astronautas em órbita na quinta-feira (17) em sua primeira missão tripulada em quase cinco anos Foto: Kevin Frayer/Getty Images

Nectar Gan e Jessie Yeung, da CNN

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Enquanto a China celebrava o sucesso de sua primeira caminhada espacial fora da nova estação espacial de Tiangong no domingo (4), a principal empresa aeroespacial do país estava chamando a atenção online por um motivo muito diferente.

A estatal China Aerospace Science and Technology Corporation (CASC) enfrentou uma reação adversa depois que surgiram notícias de que um oficial do Partido Comunista em sua subsidiária teria supostamente espancado dois renomados cientistas espaciais – incluindo uma mulher de 85 anos.

 O alegado ataque brutal, ocorrido no início de junho, foi trazido à atenção do público no sábado (3) por uma reportagem da revista estatal China News Weekly. Os líderes chineses têm enfatizado repetidamente a importância da inovação científica e tecnológica, vendo-a como um “campo de batalha principal” para a competição com o Ocidente. O próprio presidente chinês, Xi Jinping, saudou os principais cientistas do país como “o tesouro nacional, o orgulho do povo e a glória da nação”.

Mas o fato chocante de que cientistas chineses ainda podem ser supostamente pisoteados – neste caso, aparentemente literalmente – por um funcionário inescrupuloso do Partido Comunista que aparentemente ficou impune por semanas gerou uma mistura de raiva, decepção e vergonha.

De acordo com a reportagem da mídia estatal, Zhang Tao, o secretário do partido e presidente da China Aerospace Investment Holdings, um braço de investimentos do CASC, atacou os dois cientistas depois que eles recusaram seu pedido de recomendação para ser membro da Academia Internacional de Astronáutica, organização não governamental com base em Estocolmo, capital sueca.

Wu Meirong, 85, sofreu uma fratura na coluna, enquanto Wang Jinnian, de 55 anos, teve várias costelas quebradas e lesões em tecidos moles por todo o corpo. Ambos permaneceram no hospital um mês após o ataque, enquanto Zhang estava “indo para o trabalho normalmente”, de acordo com o relatório.

Chamadas repetidas para a China Aerospace Investment Holdings não foram atendidas na manhã de segunda-feira (5).

Nas redes sociais chinesas, muitos questionaram por que o incidente foi ocultado do público por semanas e por que Zhang parecia ter enfrentado poucas consequências por sua suposta birra violenta.

No Weibo, a versão do Twitter fortemente censurada da China, os usuários inundaram a conta oficial do CASC com comentários furiosos exigindo respostas para o suposto ataque. Uma hashtag relacionada obteve mais de 130 milhões de visualizações.

Em meio à crescente pressão, o CASC finalmente emitiu um breve comunicado no final da tarde de domingo, reconhecendo que Zhang havia conduzido a surra “depois de consumir álcool” e anunciando sua suspensão. Não disse o que levou ao suposto ataque nem ofereceu outros detalhes, apenas que a empresa enviou uma equipe para investigar o incidente e prometeu “lidar com isso com seriedade com base nos resultados”.

A declaração falhou em acalmar a raiva pública. Abaixo da postagem, os principais comentários questionando por que o CASC decidiu suspender Zhang apenas um mês depois do incidente – e somente após a indignação pública – receberam dezenas de milhares de “curtidas”.

O silêncio de semanas em torno do incidente é provavelmente devido à censura severa antes do centenário do Partido Comunista em 1º de julho.

Uma semana após o suposto ataque, a China enviou com sucesso três astronautas para sua estação espacial em construção, um marco comemorado com orgulho pela mídia estatal e por milhões de pessoas na China.

Sob o governo de Xi, o partido lançou uma campanha abrangente para endurecer a disciplina, punindo milhões de funcionários por corrupção e má conduta. Mas o alegado ataque flagrante de Zhang aos cientistas expôs um fato incômodo para o partido de que, na realidade, alguns funcionários ainda se sentem no direito de exercer seu poder como quiserem, tratando os outros com pouca dignidade ou respeito – e pior ainda, não há meios reais de para-los.

Cientistas e intelectuais chineses têm uma história complicada com o Partido Comunista. Em 1957, a campanha anti-direitista lançada pelo presidente Mao Zedong levou à perseguição política de centenas de milhares de intelectuais. Menos de uma década depois, escritores, acadêmicos e cientistas chineses foram novamente alvos da Revolução Cultural, com muitos sujeitos à humilhação pública e ataques violentos pelos Guardas Vermelhos.

Mesmo os cientistas que lideram o programa espacial nascente do país não foram poupados na turbulência política. Yao Tongbin, um importante especialista em mísseis, foi espancado até a morte por uma multidão do lado de fora de sua casa. Zhao Jiuzhang, projetista-chefe do primeiro satélite da China, suicidou-se.

Mas a China percorreu um longo caminho desde a ilegalidade da Revolução Cultural e as intermináveis lutas ideológicas e políticas da era Mao. E o suposto espancamento dos dois cientistas é supostamente contra tudo o que Xi afirma que sua nova China representa.

Como diz um comentário no Weibo: “O incidente de Zhang Tao revelou um fato: o império da lei é muito mais difícil de alcançar do que enviar uma nave espacial ao céu.”

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original.)

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