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    Suposto espião russo que vivia nos EUA dizia que era brasileiro

    Victor Muller teria passado por universidade para chegar ao Tribunal Penal Internacional e espionar investigações sobre crimes de guerra em ações militares da Rússia

    Victor Muller na verdade se chamava Sergey Vladimirovich Cherkasov
    Victor Muller na verdade se chamava Sergey Vladimirovich Cherkasov Victor Muller/Facebook/Reprodução

    Katie Bo LillisSean Lyngaasda CNN

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    O sotaque de Victor Muller soava esquisito, e pertencia a um homem que foi apontado como um suposto espião russo que estudou na prestigiada Escola de Estudos Internacionais Avançados (SAIS na sigla em inglês) da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, um programa de pós-graduação de elite que é escolhido por militares, jovens diplomatas e, de acordo com fontes, futuros espiões.

    Sociável, gregário, inteligente e muitas vezes visto carregando um capacete para a sua amada moto, “Muller” era bastante conhecido, e até mesmo querido, por seus colegas estudantes e da faculdade na SAIS. Mas o seu sotaque confuso chamou a atenção de alguns colegas de classe. Numa ocasião, um estudante lhe perguntou: “Você é russo?”.

    O espião fugiu da questão. Dizia que era brasileiro, uma resposta que se revelou parte de um elaborado disfarce que ele passou anos construindo.

    “Olhando para trás, isso era um sinal vermelho”, o ex-colega que fez a pergunta contou à CNN, falando sob condição de anonimato. “Lembro-me de pensar na época que a resposta dele não fazia sentido”.

    “Muller” concluiu o mestrado na SAIS em 2020. Na semana passada, uma agência de informação holandesa identificou-o publicamente como Sergey Vladimirovich Cherkasov, um oficial russo de informação militar que, em abril, viajou para a Holanda para iniciar um estágio no Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia.

    Ali, ele teria a incumbência de espionar investigações sobre crimes de guerra em ações militares russas na Ucrânia e outros lugares, dizem as fontes.

    As autoridades holandesas o detiveram na fronteira e o enviaram de volta ao Brasil, onde vivia sob a identidade falsa de um homem brasileiro, Victor Muller, cujos pais já haviam morrido, segundo a polícia brasileira.

    Não se sabe exatamente quando os Estados Unidos souberam da verdadeira identidade de Cherkasov. De acordo com uma fonte familiarizada com os serviços de inteligência, o FBI tem uma investigação ativa aberta sobre o caso.

    As agências de informação do país e da Holanda trocaram informações sobre Cherkasov há algum tempo, de acordo com um representante dos Estados Unidos, embora não seja claro quando isso ocorreu.

    Outra fonte oficial norte-americana disse que não iria contar a forma como a conexão russa surgiu, acrescentando que o FBI trabalhou em estreita colaboração com as autoridades holandesas.

    A revelação da verdadeira identidade de Cherkasov tem revoltado o corpo docente da SAIS. Mas, para ex-membros dos serviços de inteligência, Cherkasov enquadra-se num padrão bem conhecido: a Rússia, entre outras potências estrangeiras, procura colocar os jovens agentes de inteligência em instituições acadêmicas norte-americanas para ajudar a construir suas identidades secretas.

    Muitas vezes, a missão dos chamados “ilegais” (um espião operando sob uma identidade sem nenhuma ligação com o governo russo) é fazer pouco mais do que simplesmente estabelecer sua legitimidade como estudante, como contou John McLaughlin, um ex-vice-diretor da CIA que agora ensina na SAIS.

    “Não é incomum. A impressão que tenho é que passar pela SAIS foi uma espécie de experiência de lavagem de identidade para ele. Os ilegais russos tendem a passar por um longo processo de obtenção de credenciais a fim de estabelecer a credibilidade de quem eles afirmam ser”.

    A SAIS se recusou a comentar o caso com a CNN. Mas, em um e-mail para professores e estudantes obtidos pela CNN, Jim Steinberg, reitor da SAIS, confirmou que Cherkasov se formou em 2020.

    “Continuamos monitorando os desenvolvimentos, mas não temos mais informações para compartilhar neste momento”, escreveu Steinberg.

    Cherkasov não respondeu a uma chamada telefônica e mensagem de texto enviados na sexta-feira (24).

    “Favorito do professor”

    Cherkasov parece ter levado a cabo sua missão com bastante sucesso. Um de seus professores – que deu uma aula sobre genocídio – escreveu sua carta de referência para o estágio no Tribunal Pena de Haia.

    Em outra disciplina da SAIS, “ele era o favorito do professor”, disse um colega de classe que também pediu anonimato por medo de retaliação dos serviços de segurança russos. “Ele era um cara muito agradável, muito aberto, muito ativo na sala de aula. É alguém que eu nunca teria suspeitado [de ser um espião]”, afirmou o ex-colega de classe à CNN.

    Um terceiro ex-colega de classe de Cherkasov, um oficial militar dos Estados Unidos, lembrou de uma conversa que teve com “Muller” sobre o amor de ambos por motos. À época, ele ficou com a impressão de que eles poderiam passear de motos juntos.

    Mas, então, ele perguntou a “Muller” se ele falava russo, pois era o que o seu sotaque parecia demonstrar.

    “Muller” negou saber falar russo e se recolheu, como lembrou o militar. O passeio de moto nunca aconteceu.

    Vários antigos membros dos serviços de inteligência disseram à CNN que não seria incomum que a contrainteligência norte-americana permitisse que um “ilegal” russo continuasse seus estudos a fim de vê-lo e tentar aprender quem são seus contatos, se ele está operando em uma rede maior dentro dos Estados Unidos e saber como ele está construindo seu disfarce.

    Segundo essas fontes, é possível que os Estados Unidos tenham dado a dica ao serviço de inteligência holandês. O gabinete do diretor da Inteligência Nacional se recusou a comentar o caso.

    Mas outro antigo membro da contrainteligência contou que os serviços de informação dos Estados Unidos, por vezes, não estão cientes dos espiões entre os estudantes até eles se envolverem mais ativamente na espionagem.

    Só então eles rastreiam as suas histórias de volta à SAIS ou a outras instituições acadêmicas nos Estados Unidos com uma política externa determinada.

    “Ameaça interna”

    A razão pela qual o Kremlin iria querer infiltrar um espião no Tribunal Penal Internacional é clara, dizem os antigos responsáveis pelos serviços de informação.

    A ação ofereceria à Rússia uma janela crucial para a investigação de alegados crimes de guerra russos na Geórgia em 2008 e na Ucrânia em 2022.

    “Por essas razões, o acesso secreto à informação do Tribunal Penal Internacional seria altamente valioso para os serviços de inteligência russos”, declarou o serviço de inteligência holandesa.

    Infiltrar de forma eficaz um espião é cada vez mais difícil para serviços da inteligência no mundo todo graças à tecnologia onipresente da vigilância e ao grau que, em 2022, a maioria dos povos vive suas vidas inteiras online. Um perfil online que só apareceu há alguns anos ou um perfil que de repente fica inativo podem ser pistas para os membros da contraespionagem.

    O problema é igualmente difícil para espiões norte-americanos que operam em outros países sob “cobertura não oficial”, os chamados NOC na sigla em inglês.

    “Um ilegal duradouro de longo prazo não é membro de uma raça moribunda, mas a atividade é muito mais difícil agora do que antes”, contou antigo funcionário da contrainteligência dos Estados Unidos. “E isso vale para todos”.

    Os Estados Unidos prenderam e deportaram dez agentes russos como parte de uma troca de espiões com governo da Rússia em 2010. Um deles havia se formado na Escola de Governo John F. Kennedy de Harvard dez anos antes e vivia em Cambridge com a sua esposa e dois filhos.

    Harvard posteriormente retirou o diploma de Andrey Bezrukov (que vivia com o nome de Donald Heathfield). Sua esposa, Elena Vavilova, graduou-se na Universidade McGill e foi deportada como parte da mesma troca.

    Da mesma forma, Cherkasov procurou construir calmamente uma identidade alternativa ao longo dos anos. A agência de inteligência holandesa publicou uma “lenda” simples que diz ter sido provavelmente escrita por Cherkasov em meados de 2010.

    De acordo com a história, ele seria um homem de nacionalidade brasileira, nascido em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1989. O texto detalha a história falsa da família através de várias gerações, oferecendo uma miríade de pequenas peculiaridades pessoais: detestava peixes, tinha uma tia amada e foi apaixonado por uma professora de geografia.

    Em 2014, Cherkasov começou a fazer faculdade no Trinity College Dublin, na Irlanda, estudando ciências políticas e graduando-se em 2018. No mesmo ano, ele viajou para os Estados Unidos para fazer o mestrado na SAIS.

    Perguntas não respondidas

    Ao longo de seu tempo como estudante, “Muller” manteve uma vida digital ativa. Em 2017, abriu um blog sobre geopolítica, de acordo com a empresa de investigação jornalística de código aberto Bellingcat.

    Ele manteve contas no Facebook e no Twitter, cheia de amigos de ambas as escolas e, em setembro de 2018, publicou um vídeo no YouTube mostrando sua nova moto. No vídeo, um homem que a Bellingcat identifica como Cherkasov pode ser ouvido rindo e saudando um grupo de turistas que passava perto do rio Potomac.

    Embora não seja claro o quanto a inteligência russa tenha se esforçado para infiltrar Cherkasov em Haia (algumas fontes acham que pode ser tido uma oportunidade de ocasião em vez de um plano de longo prazo), o homem fez aulas que fizeram sentido para um estudante interessado em Haia como um caminho de carreira, incluindo a disciplina de genocídio.

    Um memorando político que Cherkasov escreveu para uma de suas matérias da SAIS exibe uma análise sóbria e rica em casos que se pode esperar de um estudante de assuntos internacionais.

    O trabalho, obtido pela CNN, defende potenciais respostas dos EUA às Nações Unidas para ajudar a deter um genocídio. É o tipo de discussão política que, nos Estados Unidos, tem sido considerada para tentar reduzir a violência russa na Ucrânia.

    De acordo com várias pessoas próximas a ele nos tempos da SAIS, Muller/Cherkasov era um bom aluno – inteligente, engajado e falante na sala de aula.

    Uma matéria para a qual “Muller” se inscreveu foi diplomacia estratégica, popular entre os militares e profissionais de inteligência dos Estados Unidos, e ensinada por Steinberg, ex-vice-secretário de Estado no governo Obama e atual reitor da SAIS.

    O corpo docente e os alunos da SAIS foram surpreendidos com a revelação de que o estudante brasileiro com o sotaque engraçado era, de fato, um espião russo. Um professor da SAIS que falou anonimamente à CNN diz que o comunicado da faculdade a eles foi pífio, pouco mais do que um reconhecimento de um fato público.

    “É desanimador”, disse o ex-aluno que pressionou Cherkasov a respeito de seu sotaque. “Acho que isso traz uma série de questões, entre elas uma sobre a admissão dele na SAIS e outra de como ele podia viajar”.

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