Relembre a explosão nas Ilhas Marshall após teste nuclear dos EUA

Impacto das explosões equivalem a uma bomba de Hiroshima por dia durante 20 anos; estima-se que a contaminação tenha causado 100 mil mortes

Brad Lendon, da CNN
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O recente apelo de Donald Trump para que os Estados Unidos retomem os testes de armas nucleares reacendeu o temor de uma nova corrida armamentista e trouxe à tona um capítulo sombrio da história americana: as explosões atômicas realizadas nas Ilhas Marshall, no Pacífico.

Entre 1946 e 1958, os EUA detonaram 67 bombas nucleares no arquipélago, então sob administração americana.

Segundo o Instituto de Pesquisa de Energia e Meio Ambiente (IEER), o impacto dessas explosões equivaleu a uma bomba de Hiroshima por dia durante 20 anos.

Os efeitos foram devastadores: cerca de 55% dos casos de câncer em alguns atóis estão ligados à radiação, e estima-se que a contaminação tenha causado 100 mil mortes por câncer em todo o mundo.

Elementos radioativos continuam presentes no solo e nas plantas, contaminando alimentos e comprometendo o modo de vida tradicional das comunidades locais.

“A radiação roubou dos ilhéus sua renda e oportunidades”, afirmou Shaun Burnie, ativista do Greenpeace, que visitou a região em 2025.

Em Runit Island, nas Ilhas Marshall, o chamado “dome”, uma cúpula de concreto construída nos anos 1970 para conter 85 mil m³ de resíduos radioativos, ameaça ruir com o avanço do nível do mar. “Aquela estrutura simboliza o elo entre a era nuclear e a crise climática”, disse o ativista Alson Kelen.

 

Outro local emblemático é o Atol de Bikini, palco do teste “Castle Bravo”, mil vezes mais potente que a bomba de Hiroshima.

Os moradores foram removidos “pelo bem da humanidade”, segundo registros da época, mas nunca puderam voltar já que os níveis de radiação continuam altos.

Em 2024, a Campanha Internacional para Abolir Armas Nucleares (ICAN) relatou que, por décadas, mulheres das ilhas deram à luz bebês com graves deformações, apelidados de “bebês água-viva”.

A ONU reconhece que os efeitos vão além da saúde física.

“O legado nuclear está enraizado em uma dor que não pode ser medida”, afirmou Nada Al-Nashif, alta comissária adjunta de Direitos Humanos.

Os EUA também realizaram mais de 900 testes no deserto de Nevada, até 1992.

Embora subterrâneos, muitos liberaram radiação na atmosfera.

Após os últimos testes nucleares da França, em 1996, o Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT) foi aberto.

Apesar de EUA, Rússia e China terem aderido, nenhum dos três o confirmou — e o tratado ainda não entrou em vigor. Desde então, apenas Índia, Paquistão e Coreia do Norte realizaram testes.

Agora, com o discurso de Trump, especialistas alertam para os riscos de retrocesso.

“Retomar os testes seria uma decisão imprudente e perigosa”, disse o grupo antinuclear Ploughshares.

Enquanto o mundo debate novas ameaças, as Ilhas Marshall seguem como testemunhas permanentes da era atômica.

O plutônio-239, resquício das explosões, tem uma meia-vida de 24 mil anos — um lembrete duradouro do preço da corrida nuclear.