Travessia de migrantes é "violação" da soberania da Espanha, diz premiê

Cerca de 49 mil pessoas cruzam fronteira para Ceuta, território espanhol no norte da África, em 24 horas

David Latona, da Reuters
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A travessia em massa de dezenas de milhares de pessoas de Marrocos para o enclave espanhol de Ceuta, no norte da África, foi uma "violação da soberania territorial da Espanha", declarou o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, a jornalistas nesta sexta-feira (31).

Sánchez visitou Ceuta nesta sexta-feira com o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska.

O Ministério do Interior da Espanha disse que, segundo estimativas, cerca de 49 mil migrantes cruzaram para o enclave nas últimas 24 horas, enquanto corriam por mar e por terra vindos do Marrocos.

Juan Jesús Vivas, líder do governo local, afirmou a jornalistas que estimativas apontam que cerca de 60 mil pessoas cruzaram a fronteira nos últimos dias, o que representa mais da metade da população do enclave.

 

Espanha e Marrocos reforçaram a cerca fronteiriça do território espanhol e aparentemente interromperam as travessias em massa, após a chegada de milhares de pessoas por mar e terra, com pelo menos 34 mortes.

A travessia em massa para Ceuta, uma faixa de terra controlada pelos espanhóis que se projeta do Marrocos para o Mediterrâneo, causou divisão na Europa, com a Itália ameaçando suspender o programa de fronteiras abertas internas da União Europeia.

Nos portões de entrada de Ceuta, as autoridades marroquinas utilizaram caminhões com canhões de água e repeliram as pessoas. Os restos carbonizados de um ônibus e sete carros podiam ser vistos nas proximidades, resultado dos confrontos com a multidão.

As autoridades espanholas afirmaram que tentariam expulsar aqueles que entraram ilegalmente o mais rápido possível, apesar de uma decisão judicial que impôs novas restrições às regras especiais de "rejeição de fronteira" que permitem expulsões imediatas.

O ministro da Política Territorial, Ángel Víctor Torres, afirmou nesta sexta-feira (31) que, entre os fatores que contribuíram para o aumento das tentativas de travessia, pode ter sido uma decisão do Supremo Tribunal da Espanha, no início deste mês, que impede a devolução sumária de migrantes interceptados no mar enquanto tentavam chegar a Ceuta ou Melilla, segundo regras especiais.

Migrantes invadem cidade no lado marroquino da fronteira

Torres disse a uma rádio local que o governo espanhol reagiu imediatamente ao fluxo migratório e que procederia ao retorno dos migrantes, respeitando as decisões judiciais e os direitos dos migrantes.

No lado marroquino da fronteira, milhares de migrantes invadiram a cidade de Fnideq durante a noite, apesar do reforço da segurança que frustrou a maioria das tentativas de travessia.

Embora a passagem parecesse bloqueada, grupos se deslocavam ao longo da costa em busca de rotas alternativas à cerca. Alguns se preparavam para nadar.

"Cheguei atrasado", disse Brahim, de 32 anos, que se identificou apenas pelo primeiro nome. Ele contou que havia chegado de Tânger na esperança de atravessar pelo portão, mas o encontrou praticamente fechado.

Entre os que tentavam atravessar, havia mulheres e crianças, tanto do Marrocos quanto de países da África Subsaariana mais ao sul.

Em uma publicação na rede social X, a associação da Guarda Civil espanhola, AUGC, afirmou que havia poucos policiais no local para monitorar a cerca durante o fluxo migratório de quinta-feira (30), o que os impediu de impedi-lo.

"As políticas migratórias exigem uma revisão profunda que leve em conta a realidade da fronteira sul e garanta o respeito à dignidade e aos direitos humanos dos migrantes e refugiados que chegam a Ceuta", afirmou um comunicado conjunto de diversos grupos locais de apoio a migrantes, acrescentando que os recursos em Ceuta são insuficientes.