Trump quer construir "maior arco do mundo" em Washington
Monumento teria 76 metros de altura e comemoraria 250º aniversário dos EUA, mas projeto pode atrapalhar tráfego aéreo e bloquear paisagens históricas
O presidente dos Estados Unidos Donald Trump quer construir um arco, e quer que seja o maior do mundo. Mas, mesmo sugerindo que assinará uma ordem executiva para a construção, o projeto enfrenta resistência e provavelmente encontrará obstáculos legais.
Trump quer uma versão americana do Arco do Triunfo de Paris, só que maior do que os 50 metros de altura do monumento francês. O chamado Arco da Independência teria 76 metros de altura, e comemoraria o 250º aniversário da nação.
Com base em medidas padrão, isso seria o equivalente a um prédio de 16 a 20 andares.

Este é apenas o mais recente — e mais alto — esforço de Trump para impor seu estilo e gostos à capital do país, e ele tem se envolvido de forma extremamente direta na construção do arco.
Mas ambientalistas alertam que a estrutura proposta, que ficaria situada do outro lado do Rio Potomac, em frente ao Lincoln Memorial, em Washington DC, bloqueará vistas historicamente significativas em ambas as direções e poderá representar um risco para o tráfego aéreo no Aeroporto Nacional Ronald Reagan, que fica nas proximidades.
A estrutura do arco proposto teria 50 metros de altura e 50 metros de largura, com um pedestal de 7,6 metros e uma imponente escultura de bronze dourado da Estátua da Liberdade, com 18 metros de altura, no topo, segundo uma fonte familiarizada com os planos, que pediu anonimato para falar sem sofrer represálias profissionais.
Um escultor ainda não foi selecionado para essa parte do projeto, disse a fonte. Versões menores — com 50 e 37 metros de altura e esculturas de 12 e 9 metros de altura — foram consideradas, de acordo com a fonte, mas Trump está “determinado a construir este enorme arco”.
Em sua dimensão atual, o arco terá aproximadamente metade do tamanho do Monumento a Washington, que tem 169 metros de altura, e mais que o dobro do tamanho do Memorial Lincoln, com 30 metros. E seria o maior arco monumental do mundo, cerca de 9 metros mais alto que o Monumento à Revolução, na Cidade do México.
As representações mais recentes do arco de pedra proposto apresentam colunas, águias, coroas de louros e a Estátua da Liberdade dourada.
"O Arco vai se tornar um dos marcos mais icônicos não só em Washington, DC, mas em todo o mundo", disse o porta-voz da Casa Branca, Davis Ingle, à CNN.
Segundo um funcionário da Casa Branca, o projeto está sendo "aprimorado" e será apresentado para aprovação a duas comissões importantes: a Comissão de Planejamento da Capital Nacional e a Comissão de Belas Artes — dois órgãos que Trump nomeou para cargos de liderança.
No entanto, diferentemente do seu extenso projeto de salão de baile, o arco não fica nos terrenos da Casa Branca e, portanto, não está isento da avaliação de preservação histórica.
"Isto é grande demais"
O monumento seria construído sobre uma rotunda na base da Ponte Memorial de Arlington, exatamente entre o Cemitério Nacional de Arlington e o Lincoln Memorial. O local está tecnicamente dentro dos limites de Washington, D.C.
Mas essa localização bloqueará drasticamente a vista entre o Lincoln Memorial e a Arlington House, antiga residência do líder confederado Robert E. Lee e agora peça central do Cemitério Nacional de Arlington. Essa vista possui um significado histórico especial.
Depois que a família Lee abandonou a casa no topo da colina em maio de 1861, na sequência da secessão da Virgínia da União, o Exército dos EUA começou a usá-la como acampamento e, eventualmente, para sepultamentos militares.
Em parte, isso era uma forma de dissuadir o retorno da família Lee, de acordo com o site do Cemitério Nacional de Arlington.
“A ideia de construir um monumento neste local poderia ser realmente interessante se fosse dimensionado corretamente”, disse ele. “Acho que este é grande demais. Vai dominar completamente o local, ofuscar os monumentos ao redor.”
A Casa Branca não respondeu à solicitação da CNN sobre o possível impacto do arco no Cemitério Nacional de Arlington.

Preocupações com a segurança aérea
As preocupações com o projeto estendem-se à segurança aérea.
A FAA (Administração Federal de Aviação) exige que os construtores notifiquem, com pelo menos 45 dias de antecedência, qualquer estrutura com mais de 60 metros de altura acima do nível do solo, e também estruturas mais baixas localizadas perto de aeroportos ou instalações de navegação.
Embora a FAA não emita alvarás de construção, os governos locais geralmente consideram as conclusões da agência sobre o impacto de uma estrutura na segurança antes de aprovar os projetos.
Uma análise da CNN de registros de obstáculos disponíveis publicamente mostra que o espaço aéreo num raio de cinco quilômetros do Aeroporto Nacional Reagan já está repleto de obstruções. Ao longo do último ano, a FAA avaliou centenas de estruturas, incluindo guindastes de até 102 metros e edifícios com mais de 97 metros, nessa área.
O arco proposto por Trump ficaria a poucos metros do corredor usado por voos que se aproximam do aeroporto pelo norte.
Uma análise da CNN sobre a trajetória de aproximação final ao aeroporto mostra que a localização proposta para o arco seria em um ponto onde as aeronaves passam a uma baixa altitude de apenas 150 metros, o que levanta preocupações sobre a estreita margem de erro do piloto em uma das áreas mais restritas do espaço aéreo do país.
A CNN entrou em contato com a FAA, que encaminhou as perguntas à Casa Branca. A Casa Branca não respondeu às perguntas da CNN sobre segurança aérea.
Próximos passos e possíveis obstáculos
É provável que os planos para o arco sejam aprovados pelos dois órgãos sediados em Washington, D.C., que Trump preencheu com aliados, mas o arco pode enfrentar outras avaliações mais complexas que exigem participação pública, inclusive sob a Lei Nacional de Política Ambiental e a Lei Nacional de Preservação Histórica.
Como parte dessas avaliações, espera-se que as partes interessadas sejam consultadas, incluindo o Cemitério Nacional de Arlington, o Serviço Nacional de Parques e o Escritório de Preservação Histórica do Estado de Washington, D.C., entre outros.
E é quase certo que o projeto enfrentará contestações judiciais que poderão atrasá-lo — em parte porque os oponentes podem ver isso como sua única opção para desafiar uma administração que nem sempre respeita as normas processuais.
“Há poucos motivos para acreditar que esses limites seriam respeitados”, disse Greg Werkheiser, advogado especializado em preservação histórica que está processando o governo Trump por causa dos planos do presidente de pintar o Edifício Executivo Eisenhower.
“Isso deixa o litígio como a última salvaguarda, colocando um peso extraordinário sobre os tribunais federais – e mesmo assim, a questão passa a ser se as ordens judiciais legais serão cumpridas”, acrescentou.
A CNN entrou em contato com o National Trust for Historic Preservation, que está atualmente envolvido no processo judicial sobre o salão de baile de Trump, para comentar sobre os planos do arco.
Um juiz federal expressou ceticismo no mês passado quanto à autoridade legal da Casa Branca para construir o salão de baile sem a autorização expressa do Congresso.
A principal questão jurídica para o arco, disse Werkheiser, é se o presidente e o comitê por ele selecionado seguem o processo exigido.
“Não se trata de saber se um arco é bom ou ruim. Trata-se de saber se uma estrutura de 76 metros que ofuscaria o Lincoln Memorial e bloquearia vistas icônicas do Cemitério Nacional de Arlington prejudicaria o patrimônio histórico e se deveria ser construída em outro lugar.
O presidente seguirá as leis que dão voz ao público nessas decisões?”, questionou ele.



