UNICEF estima que 20 milhões de crianças sofreram abuso sexual online

Relatório da organização reuniu casos que aconteceram em países da África, Ásia, Europa Ocidental e América Latina, incluindo o Brasil, em 2025

Olivia Le Poidevin, da Reuters
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Cerca de 20 milhões de crianças usuárias da internet em 21 países foram vítimas de exploração ou abuso sexual em plataformas digitais em um único ano, com a maioria dos casos ocorrendo em redes sociais, informou um relatório da UNICEF divulgado nesta quarta-feira (2).

Mais de uma em cada cinco crianças entre 12 e 17 anos na África, Ásia, América Latina e Europa Oriental sofreu pelo menos uma forma de abuso ou exploração sexual em plataformas online no ano anterior à pesquisa, estimou o relatório do UNICEF.

Cerca de 15 milhões de crianças nos países pesquisados ​​foram expostas a conteúdo sexual indesejado, 9 milhões foram pressionadas a participar de conversas sexuais ou a compartilhar imagens de cunho sexual, e 4 milhões tiveram imagens sexuais compartilhadas sem o seu consentimento, constatou o relatório.

O número de crianças submetidas a esse tipo de abuso em todo o mundo certamente chega à casa das dezenas de milhões, afirmou o documento.

A pesquisa, descrita pela UNICEF como um dos maiores estudos do gênero, baseou-se em levantamentos nacionais representativos realizados entre 2020 e 2025 com cerca de 21 mil crianças usuárias da internet nos 21 países analisados, incluindo Brasil, Quênia, Paquistão e Sérvia.

Foco nas redes sociais

Quase 60% dos casos de abuso relatados ocorreram em redes sociais — lideradas por Facebook, WhatsApp, Instagram, Snapchat e TikTok —, enquanto 14% aconteceram em jogos online, apontou o relatório.

Um porta-voz da Meta — proprietária do Facebook, WhatsApp e Instagram — afirmou que os dados das pesquisas remontam a 2020, período anterior à implementação, pela empresa, de proteções recomendadas pelo UNICEF, como definir automaticamente contas de adolescentes como privadas e impedir que adultos enviem mensagens a adolescentes com quem não possuem conexão.

A empresa acrescentou que classifica o WhatsApp como um aplicativo de mensagens privadas, e não como uma rede social.

"Embora o relatório não apresente evidências específicas de abuso, continuaremos a combater agressivamente a exploração infantil em nossos aplicativos e a apoiar as autoridades na responsabilização criminal dos autores desses atos", disse o porta-voz da Meta.

O Snapchat encaminhou a Reuters a uma publicação no blog da empresa assinada por Jacqueline Beauchere, chefe global de segurança da plataforma. Ela afirmou que a companhia combate ativamente a extorsão sexual online por meio de detecção proativa, remoção de contas, ferramentas de denúncia pelos usuários e recursos de segurança projetados para proteger usuários vulneráveis.

O TikTok afirmou ter implementado diversas medidas de proteção para menores, incluindo a restrição de certos recursos para usuários mais jovens, a configuração padrão de contas privadas para menores de 18 anos e o uso de tecnologia para detectar comportamentos potencialmente predatórios.

O relatório do UNICEF indicou que mais da metade dos casos envolvia alguém que a criança já conhecia — como amigos, parentes ou parceiros românticos —, enquanto 38% das crianças conheceram o agressor inicialmente pela internet.

Segundo a pesquisa, menos de 1% dos casos envolvendo crianças foram relatados à polícia, a assistentes sociais ou a serviços de ajuda.

O relatório também destacou preocupações crescentes em relação à inteligência artificial. Nos nove países onde os dados foram coletados, estima-se que 1,1 milhão de crianças relataram a criação de imagens ou vídeos de natureza sexual gerados por IA que as retratavam.

A pesquisa apontou que crianças vítimas de exploração sexual facilitada pela tecnologia apresentaram uma probabilidade cerca de quatro vezes maior de relatar pensamentos suicidas ou automutilação, além de níveis de ansiedade significativamente mais elevados do que seus pares.

"Essas experiências causam profundo sofrimento emocional e mental. Muitas crianças sofrem em silêncio, sem saber a quem recorrer em busca de ajuda", afirmou a diretora executiva do UNICEF, Catherine Russell, em um comunicado.

O UNICEF instou governos e empresas de tecnologia a reforçarem as medidas de segurança em plataformas digitais, a atualizarem as leis para lidar com formas emergentes de abuso — incluindo conteúdos gerados por IA — e a aprimorarem os sistemas de proteção infantil e de denúncia.