Vance evita tomar partido na crise entre Trump e o papa Leão XIV

Em entrevista à Fox News, vice-presidente dos EUA também disse que acredita que a postagem do presidente supostamente vestido como Jesus Criso seja uma "piada"

Kit Maher, da CNN
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O vice-presidente dos EUA, JD Vance, se manteve neutro na recente crise entre o presidente americano Donald Trump e o papa Leão XIV, atribuindo-a a uma discordância saudável.

"Podemos respeitar o papa. Certamente temos um bom relacionamento com o Vaticano, mas também vamos discordar em questões substanciais de tempos em tempos. Acho que é algo totalmente razoável", disse Vance em entrevista à Fox News.

"Não é particularmente notícia", afirmou o vice-presidente.

Ele acrescentou que achava "na verdade, uma coisa boa que o papa esteja defendendo as causas que lhe são importantes".

Vance, que em breve lançará um livro sobre sua descoberta da fé católica, também defendeu a postagem de Trump na rede social Truth Social na qual ele se retrata como Jesus, alegando que estava fazendo uma "piada" e elogiando a franqueza de Trump como chefe do Executivo.

"Acho que o presidente estava postando uma piada e, claro, apagou a publicação porque percebeu que muita gente não estava entendendo o humor dele", disse Vance, uma explicação diferente da que Trump havia oferecido mais cedo naquele dia, quando disse a repórteres que achava que a imagem o retratava como médico.

"O presidente dos Estados Unidos gosta de variar nas redes sociais. E eu acho que essa é uma das coisas boas sobre ele: não tem filtro", concluiu Vance.

Crise entre Trump e Leão XIV

Na noite de domingo (12), Donald Trump fez uma longa publicação nas redes sociais criticando diretamente o papa Leão XIV.

O presidente começou o texto afirmando que o pontífice "é fraco no combate ao crime e péssimo em política externa".

Além disso, ele citou a pandemia de Covid-19, alegando que a Igreja Católica e outras organizações cristãs "prenderam" padres, pastores e outros indivíduos por realizarem cultos "mesmo ao ar livre, mantendo distanciamento social" -- sem apresentar provas ou dar detalhes.

Trump ainda citou Louis, irmão de Leão XIV, comentando que ele seria apoiador de seu governo e que entenderia as políticas adotadas por sua administração.

Em outro trecho da publicação, Trump diz que "não quer" um papa que "ache normal o Irã ter armas nucleares". O líder da Igreja Católica já falou contra a guerra no Irã anteriormente, pedindo pela paz e fim da violência.

A principal justificativa do governo americano para o início da guerra é a alegação de que o Irã estaria buscando construir armas nucleares, algo que as autoridades iranianas negam.

Além disso, o presidente afirmou que não quer "um papa que ache terrível que os Estados Unidos tenham atacado a Venezuela", renovando acusações de que o país latino-americano enviaria presidiários para os EUA.

Anteriormente, Leão XIV havia pedido que os Estados Unidos não usassem força militar contra Maduro. Após a operação que capturou o ditador, o pontífice pediu respeito aos direitos humanos e ao Estado de Direito "conforme consagrado" na Constituição da Venezuela.

"E eu não quero um papa que critique o presidente dos Estados Unidos, porque estou fazendo exatamente aquilo para o qual fui eleito", adicionou Trump.

O presidente dos EUA ainda alegou que Leão XIV só foi eleito papa por ser americano e que, no entendimento dos líderes católicos, essa seria "a melhor maneira de lidar" com Trump.

"Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano", disse.

Por fim, Donald Trump ainda acusou o pontífice de "ceder à esquerda radical".

"Leão deveria se comportar como papa, usar o bom senso, parar de ceder à esquerda radical e se concentrar em ser um Grande Papa, não um político", concluiu.

Após as críticas de Donald Trump, o papa afirmou à agência Reuters que vai continuar se manifestando contra a guerra e que não quer "entrar em debate" com o líder americano.

"Não acho que a mensagem do Evangelho deva ser deturpada da maneira como algumas pessoas estão fazendo", destacou o pontífice.

"Continuarei a me manifestar veementemente contra a guerra, buscando promover a paz, o diálogo e as relações multilaterais entre os Estados para encontrar soluções justas para os problemas", disse ele, falando em inglês.

Mais tarde, em um discurso na Argélia, ele pediu aos líderes do país que construam uma sociedade baseada nos princípios da justiça e da solidariedade.

"Hoje, isso é mais urgente do que nunca diante das contínuas violações do direito internacional e das tendências neocoloniais".

Post de Trump

No domingo (12), Trump publicou na plataforma Truth Social uma imagem que possivelmente foi gerada por inteligência artificial em que ele se veste de maneira semelhante a Jesus.

A postagem ficou disponível até a manhã desta segunda-feira (13). Porém, a publicação ficou indisponível na tarde desta segunda, indicando que pode ter sido excluída.

Na imagem é possível ver também a bandeira dos Estados Unidos, uma águia, que é símbolo do país, e a Estátua da Liberdade. Há também militares, caças e uma enfermeira.