Visão do Talibã sobre as mulheres não reflete o Alcorão, dizem especialistas

Fundamentalistas afirmaram que irão respeitar direitos das mulheres de acordo com a lei islâmica, mas estudiosos apontam interpretação equivocada do grupo

Marcelle Souza, colaboração para a CNN

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Com um histórico de restrições e violações impostas às mulheres e aos direitos humanos em geral, o Talibã se apressou em tentar apresentar uma posição moderada em sua volta ao poder no Afeganistão em meio ao processo de retirada das tropas dos Estados Unidos do país. Esta nova postura do grupo é vista, porém, com desconfiança por quem estuda o islamismo.

Na última terça-feira (17), o porta-voz Zabihullah Mujahid afirmou que as mulheres “são partes importantes da sociedade” e terão os direitos garantidos dentro da lei islâmica. “Não haverá nenhuma discriminação contra as mulheres”, disse. De acordo com ele, as mulheres poderão trabalhar.

Por outro lado, o Talibã já decidiu obrigar as mulheres a usar véu e cobrir o rosto. Segundo especialistas ouvidos pela CNN, as medidas adotadas pelo Talibã no passado e no presente refletem interpretações equivocadas da sharia, a lei islâmica que se baseia no Alcorão, livro sagrado do islamismo. Pesam também as tradições tribais do Talibã e do próprio Afeganistão.

O texto sagrado do islamismo trata do direito de todos ao conhecimento, fala de liberdade dos seguidores e não há uma leitura única sobre, por exemplo, o uso do véu. “Você não pode obrigar o adepto a adotar as práticas que [você] considera corretas, isso é uma atitude anti-islâmica, porque o texto sagrado prega a liberdade e o respeito ao diferente”, explica Ali Zoghbi, vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras).

Há 20 anos, em outro período em que o Talibã controlava o Afeganistão, as tropas extremistas restringiam os direitos das mulheres a serviços básicos – elas não podiam trabalhar e estudar, por exemplo — e há relatos de que algumas eram submetidas a estupros e casamentos forçados. “Esse tipo de interpretação equivocada e maliciosa, que não acontece apenas com o Islã, faz afronta ao conteúdo como um todo do Alcorão”, diz Zoghbi.

O que é a sharia? 

Docente da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, no interior paulista, e coordenadora do Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes, Francirosy Campos Barbosa explica que a sharia significa a lei islâmica baseada no Alcorão, onde está registrada a palavra de Deus revelada a Maomé, e na Sunnah, que são os ensinamentos do profeta. “Esses documentos servem de base para a fé islâmica”, afirma a antropóloga.

Nesses escritos estão, por exemplo, orientações sobre direitos, deveres, jejum, orações, papeis e códigos de convivência social.

A professora Gisele Fonseca Chagas, vice-coordenadora do Núcleo de Estudos do Oriente Médio da Universidade Federal Fluminense (UFF), frisa que não se compra um livro chamado sharia, porque ela não é um código fixo nem universal.

“A sharia não está pronta, não está codificada em leis textualmente acessíveis em um livro, não é como uma Constituição de um país, no sentido ocidental do termo”, explica. “Desse modo, as interpretações das autoridades religiosas são sempre contextualizadas”, afirma a professora.

A sharia pode ser utilizada individualmente, por seguidores guiados por estudos do texto sagrado, mas também pode servir de referência para Estados, que se baseiam na escritura para construir leis e políticas públicas.

Por que há diferentes interpretações da sharia?

Como não existe um texto definitivo, há diferentes interpretações sobre as condutas descritas na sharia, que levam em conta fatores históricos e culturais. 

Especialistas ouvidos pela CNN explicam que isso acontece, em primeiro lugar, porque os textos foram escritos há muito tempo — o Alcorão data do século 7 da Era Cristã. Dessa forma, os religiosos precisam interpretá-los e adaptá-los ao mundo contemporâneo.

Zarmina Zakar, ativista dos direitos das mulheres no Afeganistão
Zarmina Zakar, ativista dos direitos das mulheres no Afeganistão, chora pelo temor das ações do Talibã
Foto: Mariam Zuhaib/AP

Em segundo lugar, as leituras diferentes da sharia levam em conta o contexto cultural em que ela é aplicada, que não é o mesmo para os 1,6 bilhão de muçulmanos que vivem, em sua maioria, na Ásia, no Oriente Médio e no norte da África.

“Não podemos pensar o Islã como um bloco monolítico. Essa população está espalhada pelo mundo todo, então óbvio que a cultura tem um papel determinante no modo com que essas interpretações, que podem ser desde mais conservadoras até mais liberais, são feitas”, afirma Ali Zoghbi, vice-presidente da Fambras.

Assim, em comunidades de raízes tribais, como no Afeganistão, é comum a adoção de leituras mais restritas, enquanto muçulmanos que vivem em grandes cidades, como Dubai ou Nova York, podem ter condutas vistas como mais liberais.

Há, no entanto, alguns consensos internacionais, ou jurisprudências, como a proibição da ingestão de bebidas alcoólicas ou da carne de porco por muçulmanos.

Por que o Talibã tem uma interpretação tão restrita da sharia?

Os especialistas dizem que a resposta é complexa e deve levar em conta as bases teóricas, consideradas leituras equivocadas da sharia pela maioria dos estudiosos, mas também o contexto histórico de surgimento do Talibã.

O grupo é formado majoritariamente pela etnia pachtuns, de tradições milenares, que teologicamente se inspirou em linhas puritanas da sharia. A visão sobre o papel das mulheres na sociedade também tem relação com a herança deste código tribal.

Combatentes do Talibã patrulham rua em Cabul
Combatentes do Talibã patrulham rua na capital Cabul nesta quinta-feira (19), dia em que o grupo celebrou a independência do Afeganistão
Foto: Rahmat Gul/AP

No plano teológico, a professora Gisele Chagas explica que a leitura do Talibã é resultado, grosso modo, da influência de uma interpretação militante de movimentos ultraconservadores e fundamentalistas dentro do islamismo sunita – a salafiyya com influência wahhabita.

“O Talibã produz uma interpretação restrita dos textos sagrados, de acordo com influências teológicas particulares. Como as interpretações religiosas, em geral, são conectadas à realidade social na qual são produzidas, muitas vezes costumes locais são mobilizados como parte da religião”, diz a professora da Federal Fluminense.

O que o Alcorão diz sobre os direitos das mulheres? 

Como o texto do Alcorão data do século 7, não há referências a elementos modernos, como a possibilidade de dirigir ou estudar. Assim, é preciso recorrer às interpretações dos estudiosos e ao contexto local.

“Na maioria dos países muçulmanos, mulheres podem dirigir, votar, trabalhar, estudar, ocupar posições no governo, e essas atividades são consideradas de acordo com os valores islâmicos”, explica a professora Gisele Chagas.

 

Na Arábia Saudita, no entanto, apesar de as mulheres terem acesso à educação, só em 2018 foram autorizadas a dirigir.

Sobre o direito à escola, o vice-presidente da Fambras diz que o Islã defende o conhecimento e a pesquisa como um papel do muçulmano. “O texto sagrado não fala de homem ou mulher, mas de humanidade. Então, qualquer interpretação para coibir a mulher de adquirir conhecimento, estudar ou trabalhar não é o compatível com o que prega o Islã e com a jurisprudência islâmica”, afirma.

Sharia e o véu islâmico

Sobre o uso do véu – o hijab –, a professora da USP explica que o texto não é claro, abrindo diferentes interpretações sobre a obrigatoriedade e o tipo de cobertura. “Há vários versículos que falam sobre a cobertura da cabeça e do colo pelas mulheres, mas eles não dizem o tamanho, a cor, daí que as próprias mulheres adotam uma variedade de modelos de lenço”, afirma Francirosy Barbosa.

Para os especialistas, o grande problema não é o uso do véu em si, mas a definição de um tipo e a obrigatoriedade do seu uso por autoridades locais.

Mulheres no Afeganistão
Mulheres no Afeganistão temem pelo futuro, relembrando a opressão exercida pelo Talibã no passado
Foto: Paula Bronstein/Getty Images

“Na Síria, onde até os anos 1980 o uso do véu era desestimulado pelo Estado, nas últimas décadas várias mulheres passaram a adotá-lo como forma de demonstrar sua ligação religiosa e autonomia moral frente às políticas de Estado”, explica Gisele Chagas.

Em países que usam a sharia como base para a lei local, é possível ver nas ruas desde mulheres com diferentes tamanhos de véu (e estrangeiras sem o adereço), como nos Emirados Árabes Unidos, até a obrigatoriedade da cobertura total com a burca, como no Afeganistão dominado pelo Talibã.

Mudança de postura?

Na primeira entrevista após a retomada ao poder, um porta-voz do Talibã disse que vai garantir todos os direitos das mulheres “dentro dos limites do Islã”, o que é visto com desconfiança por quem estuda o tema.

“’Dentro dos limites do Islã’ provavelmente se refere às interpretações que o grupo faz da religião”, ressalta a professora Gisele Chagas, para quem ainda é cedo para fazer projeções e saber como será a vida das mulheres sob o domínio do grupo.

A volta do Talibã ameaça avanços recentes do país. “A sociedade afegã não é a mesma do passado. Apesar de pouco, algumas melhorias nas condições de vida da população foram conquistadas nos últimos anos, inclusive o acesso das mulheres à educação e aos postos de trabalho”, comenta.

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