William Waack

Waack: Trump testa limites da própria força na América do Sul

Donald Trump declarou estar em guerra com os cartéis latino-americanos do narcotráfico e afirmou que o governo da Venezuela faz parte desse esquema

William Waack
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Donald Trump embarcou recentemente em pelo menos duas arriscadas aventuras políticas na América do Sul. A primeira consiste em tentar derrubar a ditadura venezuelana por meios militares. O presidente norte-americano declarou estar em guerra com os cartéis latino-americanos do narcotráfico e afirmou que o governo da Venezuela faz parte desse esquema. Por esse motivo, Trump declarou, nesta quinta-feira (23), que não exclui a possibilidade de ataques a alvos terrestres dentro do território venezuelano, após já ter autorizado ofensivas contra embarcações acusadas de servir aos traficantes em águas internacionais no mar do Caribe e no Pacífico.

O risco dessa empreitada é elevado. Não há sinais de que o regime de Nicolás Maduro esteja prestes a implodir, e, mesmo que isso ocorra, permanece a dúvida sobre quem poderia substituí-lo.

A segunda aposta de Trump é igualmente ousada: tentar salvar a Argentina de mais um colapso financeiro. Para isso, ele pretende recorrer a uma linha de crédito de US$ 20 bilhões, com garantias do Tesouro dos Estados Unidos. Na prática, isso significa que o contribuinte americano arcará com os custos — e muitos já demonstram insatisfação com essa possibilidade.

Embora o enfrentamento ao crime organizado e às crises de dívida seja um tema recorrente nas relações entre os Estados Unidos e a América do Sul, a novidade agora está na forma como Trump pretende alcançar seus objetivos: pela força.

Há ainda um componente geopolítico relevante. Tanto o combate ao narcotráfico é apresentado como uma questão de segurança nacional americana quanto um eventual colapso da economia argentina é visto, por Trump, como uma oportunidade para o aumento da influência estrangeira na região — algo que ele deseja evitar.

No entanto, ao adotar essa postura agressiva, Trump pode estar armando uma cilada para si mesmo. Caso não consiga, em curto prazo, atingir seus objetivos — derrubar Maduro e estabilizar a Argentina —, sua imagem pode sair enfraquecida, passando a impressão de que foi derrotado em suas próprias iniciativas.