"6 7": entenda por que as crianças não param de gritar o número

Popular nas escolas, expressão revela como a geração Alpha usa a linguagem para criar identidade e excluir adultos

Scottle Andrew, da CNN
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Desde 1969, nenhum número havia causado tanta perturbação. "6 7", pronunciado "six-seveeen" (seis sete, em inglês), está ecoando pelos corredores das escolas de todo o mundo, tornando-se a expressão "nonsense" do momento da geração Alpha. As crianças a gritam nas salas de aula quando um professor abre a página 67, quando faltam de 6 a 7 minutos para o intervalo ou sem motivo algum. O número ficou tão onipresente que o Dictionary.com a nomeou a palavra do ano de 2025.

"É como uma praga, um vírus que tomou conta da mente dessas crianças", disse Gabe Dannenbring, professor de ciências do sétimo ano em Sioux Falls, Dakota do Sul. "Você não pode dizer nenhuma variação dos números 6 ou 7 sem que pelo menos 15 crianças gritem: '6 7!'"

É uma piada sem graça (ou sem contexto). "6 7" não significa nada, mas usá-la pode fazer um aluno se sentir parte de um grupo mais descolado de seus colegas.

"Para eles, isso se torna um jogo de linguagem que, ao que parece, só as pessoas do grupo deles sabem jogar", disse Gail Fairhurst, professora da Universidade de Cincinnati que leciona comunicação de liderança (e a linguagem da geração Alpha).

O termo "6 7" provavelmente está destinado ao cemitério das gírias em breve, agora que os adultos falam tanto sobre ele. Mas há algo quase profundo em suas infinitas interpretações, em sua recusa em ser definido.

"Acho que isso é parte do que incomoda as pessoas e, ao mesmo tempo, parte do que elas gostam", disse Taylor Jones, linguista e cientista social.

Uma tentativa de explicar "6 7" (mas não se preocupe, ninguém sabe o que significa)

Pode não haver uma explicação coerente para "6 7", mas aqui vai de qualquer forma: o número aparece no refrão de "Doot Doot (6 7)", uma música viral do rapper Skrilla, da Filadélfia. No caso de Skrilla, segundo Jones, "6 7" provavelmente é uma referência ao código policial 10-67, frequentemente usado para comunicar uma morte nos Estados Unidos.

Em dezembro de 2024, quase ao mesmo tempo em que "Doot Doot" começou a se popularizar, o fenômeno do basquete do ensino médio Taylen Kinney pareceu criar um gesto para acompanhar a expressão. Em um vídeo compartilhado pela liga Overtime Elite, um colega de time pede que Kinney dê uma nota de 0 a 10 para uma bebida do Starbucks.

"Tipo um 6… 6… 6-7", diz ele, acrescentando um gesto indeciso, como se estivesse ponderando duas opções nas palmas das mãos.

Pouco tempo depois, Kinney começou a incorporar a música e o gesto em seus vídeos no TikTok, onde tem mais de 1 milhão de seguidores.

A música começou a aparecer em vídeos de melhores momentos de esportes, incluindo os do armador LaMelo Ball, do Charlotte Hornets. (Ele tem 6 pés e 7 polegadas de altura, que significa 2,01 metros).

Em março do ano passado, surgiu um rosto para o número "6 7", quando um vídeo flagrou um jovem empolgado em um jogo de basquete amador gritando "6 7" com o gesto característico. Ele se tornou a personificação daquele colega de classe irritante que não para de falar frases sem sentido. De alguma forma, a Internet decidiu que o nome desse estereótipo seria Mason — e assim, Mason 67 se tornou mais uma piada interna.

Então, se uma criança usar alguma das explicações acima quando você perguntar o que diabos significa "6 7", ela provavelmente está certa. Mas a maioria das crianças nem sabe de onde veio esse número, disse Dannenbring. "Ninguém sabe o que isso significa", disse ele. "E essa é a parte engraçada da coisa."

A sua falta de significado deve-se em parte ao que Jones chama de "esvaziamento semântico", onde uma frase é dissociada do seu contexto original e passa a significar algo completamente diferente (ou, neste caso, nada).

Crianças gritam "6 7" para pertencerem a um grupo (e isso é ótimo)

Claro, é um absurdo, mas o número "6 7" cumpre uma função social crucial. É um código, uma frase que indica que alguém pertence a um grupo seleto, disse Jones. Quem não usa ou não entende o código fica de fora. E qual criança não quer pertencer a um grupo?

"A linguagem é uma forma de as pessoas formarem comunidades", disse Fairhurst. "Mesmo que seja um termo sem sentido, se as pessoas parecerem saber o que significa, isso pode ser uma força unificadora. E se alguém não entender o termo, isso também pode excluir pessoas dessa comunidade."

O termo "6 7" também está sobrevivendo por mais tempo do que outras palavras sem sentido da Internet provavelmente porque "os adultos ficam muito irritados com isso", disse Jones.

"O fato de você conseguir uma grande reação de alguém por algo totalmente sem sentido pode dar a isso uma longevidade maior do que teria de outra forma", disse Jones.

Nos Estados Unidos, professores cansados estão proibindo a música em suas salas de aula ou fazendo vídeos no TikTok sobre quantas vezes a ouviram em um único dia letivo. Gritar "6 7" depois que a música é proibida se torna uma "forma de demonstrar resistência", disse Fairhurst.

Agora, os professores estão se defendendo usando o "6 7" eles mesmos. Uma professora de coral de uma escola de ensino fundamental em Michigan conseguiu evitar gritos de "6 7" incorporando-o a uma música de aquecimento.

 

Ao instruir seus alunos a abrirem seus livros didáticos na página 67, Dannenbring repentinamente adota o tom de voz de seus entusiasmados alunos do sétimo ano, que imediatamente protestam contra o uso de uma expressão que não lhe pertence. (Aos 27 anos, Dannenbring é um membro mais velho da Geração Z. Mas um professor jovem ainda é um professor e, portanto, velho demais para brincar.)

"Se você não entrar no jogo, sim, é extremamente perturbador", disse Dannenbring. "Se você reconhecer a situação, ela se resolve em cerca de 15 segundos." E se isso não encerrar a conversa, ele disse que usa a expressão incorretamente de propósito: "'Isso é tão '6 7' da parte de vocês.'"

"A maneira mais fácil de acabar com isso é os professores dizerem que é legal", disse Jones.

Talvez "6 7" não seja exatamente um sinal de "brain rot"

Não se preocupem, pais. Gritar incessantemente "6 7" não é suficiente para provar que seus filhos estão sofrendo com "brain rot" (ou cérebro apodrecido). As preocupações com a queda na alfabetização e a diminuição das habilidades de pensamento crítico são legítimas, mas estão sendo "projetadas em comportamentos normais da juventude", afirmou Jones.

"Estamos reescrevendo nossa própria história", disse. "Isso não é nem de longe um fenômeno novo."

Cada geração inventa sua própria gíria, e a linguagem evolui de maneiras que a maioria de nós jamais perceberá conscientemente, explicou Jones. As crianças sempre inventarão novas expressões, e os adultos ficarão perplexos.

Expressões sem sentido como essa não são inerentemente prejudiciais, e a expressão "6 7" certamente não vai causar o fim da língua, disse Fairhurst. Mas sua popularidade pode ser um sintoma benigno de nossa sociedade "pós-verdade", afirmou ela, onde o significado e a especificidade da comunicação importam menos do que a interpretação que as pessoas fazem dela.

"Parece ser uma espécie de parente daquele tipo de fenômeno, em que usamos a linguagem simplesmente por usar, e não porque vemos algo particularmente significativo ou real nela", disse ela.

Talvez o "6 7" já esteja com os dias contados — já sobrevive há mais de um ano, o que equivale a um século em tempo de TikTok. Alguns dos alunos de Dannenbring já começam a revirar os olhos quando ouvem os colegas gritando esse número. O professor do ensino fundamental e comediante Philip Lindsay disse que já ouve possíveis substitutos em sua sala de aula — "41", por exemplo, outro número igualmente sem sentido que faz as crianças rirem inexplicavelmente.

"O 41 foi iniciado para tentar destronar o '6 7'", disse Lindsay. "O '6 7' simplesmente aconteceu. O 41 foi impulsionado."

Na visão de Dannenbring, a gíria pode ser muito pior do que "6 7". Tendências passadas inspiraram alunos a enfiar lápis em seus laptops fornecidos pela escola para incendiá-los ou arrancar pias das paredes dos banheiros escolares. "Já ouvimos outras expressões antes", disse ele. "Mas essa é bem menos irritante."

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