Prime Time

seg - sex

Apresentação

Ao vivo

A seguir

    #CNNPop

    Bienal de SP sofreu boicote de artistas brasileiros e estrangeiros durante ditadura militar

    Mostra entrou para a história como a Bienal do Boicote em 1969

    “O Presente” (1967-2018), de Cybèle Varela – Coleção Lili e João Avelar, Belo Horizonte
    “O Presente” (1967-2018), de Cybèle Varela – Coleção Lili e João Avelar, Belo Horizonte Ariane Varela Braga

    Diego Braga Nortecolaboração para a CNN

    São Paulo

    Com 34 edições realizadas desde 1951, a Bienal de Arte de São Paulo já acumulou boas memórias. Muitas bienais, por diferentes motivos, já entraram para a história. Uma das mais lembradas e importantes foi a 10ª edição, de 1969. O Brasil vivia sob uma ditadura instaurada depois do golpe militar de 1964 e o regime havia acabado de decretar, em dezembro de 1968, o Ato Institucional número 5, o AI-5.

    O conjunto de leis acabou com o habeas corpus, fechou o Congresso Nacional e deu poderes para o presidente militar instaurar o estado de sítio por tempo indeterminado, demitir pessoas do serviço público sem justificação, cassar mandatos, confiscar bens privados e intervir em todos os estados e municípios, indicando governadores e prefeitos, sem necessidade de eleições.

    Nesse ambiente sufocante, com muitos presos políticos, pessoas sendo sequestradas, liberdade de imprensa restrita e outros cerceamentos, artistas brasileiros e estrangeiros decidiram não participar da exposição, que entrou para a história como a Bienal do Boicote.

    Dois anos antes, na 9ª Bienal, de 1967, a repressão já dava mostras do que estaria por vir. Antes mesmo da abertura do evento, a polícia política mandou retirar da exposição uma obra da artista Cybele Varela por julgá-la “ofensiva” ao regime. A obra “O Presente” é um díptico, um quadro dobrável com duas telas, retratando a figura de um militar sobre o mapa do Brasil.

    Nesta mesma edição, o artista Quissak Júnior quase foi preso por seu trabalho — uma série de cinco pinturas representando a bandeira brasileira —, também considerado uma afronta. Na edição seguinte, veio o boicote. Antes mesmo da seleção das obras e artistas, a organização do evento, dependente de verbas federais, fez circular no meio artístico orientações em tom de censura, desaconselhando o envio de obras de cunho político ou erótico à mostra.

    Em 16 de junho de 1969, meses antes da abertura do evento, ocorreu uma reunião em Paris entre artistas brasileiros exilados e franceses. Os relatos dos brasileiros motivaram o boicote dos artistas franceses. Juntos, eles criaram o manifesto “Non a la Biennale de São Paulo”, que relatava diversos acontecimentos motivados pela repressão política no Brasil. A petição de boicote rodou o mundo, com artigos no “Le Monde”, “The New York Times”, “Corriere dela Sera” e outros. Até o espanhol Pablo Picasso, um dos maiores artistas vivos na época, assinou-a.

    Capa do manifesto contra a Bienal de 1969

    No Brasil, cerca de 80% dos artistas brasileiros convidados não compareceram; nomes como Hélio Oiticica, Lygia Clark, Carlos Vergara, Roberto Burle Marx, Rubens Gerchman, Sérgio Camargo, dentre outros.

    Delegações internacionais inteiras, como da França, Estados Unidos, México, Argentina, Itália, Bélgica, Suécia e Holanda, se recusaram a enviar artistas, obras ou sequer representantes oficiais ao evento. Com a imprensa amordaçada, as notícias sobre o boicote eram escassas no país, mas o jornal “Correio da Manhã”, do Rio de Janeiro, publicou uma reportagem assinada pelo jornalista Luiz Rodolpho em 30 de agosto de 1969.

    “A arte brasileira vinha sendo censurada e arbitrariamente retirada de exposições há cerca de dois anos. Os atos de censura e violência praticados na II Bienal da Bahia, no Salão de Belo Horizonte e Ouro Preto, e sobretudo na 6ª Bienal de Paris precipitaram o movimento de boicote à 10ª Bienal de São Paulo, uma reação dos artistas e críticos contra a censura.”

    A recusa de delegações inteiras e o desfalque de outras provocaram muitos problemas na montagem das exposições, que ficou com vários espaços vazios e teve de se readequar. Mas, no dia 27 de setembro de 1969, a 10ª Bienal foi aberta sem protestos. Com a censura, a maior parte do público brasileiro sequer tinha conhecimento do imenso boicote e da repercussão internacional.

    A pesquisadora Verena Pereira, doutora em Artes Visuais pela Unicamp, afirma que “a Bienal do Boicote serviu para delimitar e se contrapor ao regime durante um período triste da história brasileira”.

    Pesquisadora Verena Pereira / Arquivo pessoal

    Ela ainda vê a recusa dos artistas em exporem na 10ª Bienal como algo que ajudou a mostrar ao mundo a ditadura que regia no país, com muita censura na imprensa, no cinema, na literatura, no teatro e nas artes plásticas. “Foi algo que levou muitos artistas e pessoas a refletirem sobre o próprio modelo da Bienal, de ser algo representativo do Brasil. Numa ditadura, o que queremos representar? O boicote foi uma resposta importante a esse modelo então vigente”.

    Em sua dissertação de mestrado na USP, a historiadora de arte Caroline Schroeder entrevistou na primeira década do ano 2000 alguns artistas ainda vivos sobre a participação deles na Bienal de 1969. Ela afirma entre os artistas que optaram por expor, a presença deles não significou descaso ou apoio ao contexto político, mas sim uma oportunidade de exercer a liberdade de expressão dentro de um espaço importante no métier artístico.

    “Foi o caso do crítico Mário Schenberg, de alguns jovens artistas como Carmela Gross e Marcello Nitsche, e de outros já consagrados como Cláudio Tozzi e Mira Schendel”, escreve ela.

    Marcos Moraes, curador e coordenador do curso de artes plásticas e do programa  de residência artística da FAAP, relembra ainda que em muitas edições as bienais ultrapassaram os limites do “mundinho das artes” e se tornaram marcantes por diferentes motivos, seja por refletirem bem o espírito do tempo ou por acontecimentos importantes.

    Além da Bienal do Boicote, ele cita ainda a 2ª, de 1953, que trouxe o quadro “Guernica”, de Picasso, pela primeira (e única) vez na América do Sul; a 18ª, de 1985, que ficou conhecida como a Bienal da Grande Tela, com curadoria de Sheila Leirner, que apresentou corredores enormes com pinturas expostas lado a lado, numa montagem ousada, mas que desagradou até alguns artistas.

    Teve ainda a 18ª, de 1998, a Bienal da Antropofagia, que é uma das que mais obteve repercussão e reconhecimento internacional. O curador Paulo Herkenhoff partiu do Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade, para organizar uma edição também antropofágica, ingerindo tendências e influências externas para apresentar algo novo e potente.

    E, por fim, a chamada Bienal do Vazio, de 2008. Em sua 28ª edição, organizada em meio a uma crise de financiamento, os curadores Ana Paula Cohen e Ivo Mesquita decidiram deixar um andar inteiro vazio no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera. O espaço foi invadido e pixado por um coletivo de artistas urbanos, mas serviu também “para a Bienal e os artistas refletirem sobre o modelo de gestão da mostra”, diz Moraes.

    “Foi um ponto de virada na organização da Bienal, um marco mesmo”.