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    Cientistas identificam que Leonardo da Vinci e outros mestres usavam ovo nas tintas

    Estudo foi publicado terça-feira (28) na revista Nature Communications e aponta que inclusão da proteína era proposital

    Santa Ceia, de Leonardo Da Vinci, pintado em Milão
    Santa Ceia, de Leonardo Da Vinci, pintado em Milão Universal History Archive/Getty Images

    Jacopo Priscoda CNN

    Mestres das artes como Leonardo da Vinci, Sandro Botticelli e Rembrandt podem ter usado proteínas, especialmente gema de ovo, em suas pinturas a óleo, de acordo com um novo estudo.

    Vestígios de resíduos de proteína há muito são detectados em pinturas a óleo clássicas, embora muitas vezes tenham sido atribuídos à contaminação. Um novo estudo publicado na terça-feira  (28) na revista Nature Communications descobriu que a inclusão foi provavelmente intencional – e lança luz sobre o conhecimento técnico dos Velhos Mestres, os pintores europeus mais habilidosos dos séculos 16, 17 ou início do século 18, e a maneira como eles prepararam suas tintas.

    “Há muito poucas fontes escritas sobre isso e nenhum trabalho científico foi feito antes para investigar o assunto com tanta profundidade”, disse a autora do estudo Ophélie Ranquet, do Instituto de Engenharia de Processos Mecânicos e Mecânica do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, na Alemanha, em uma entrevista por telefone.

    “Nossos resultados mostram que, mesmo com uma quantidade muito pequena de gema de ovo, é possível obter uma incrível mudança de propriedades na tinta a óleo, demonstrando como isso pode ter sido benéfico para os artistas”, afirmou a pesquisadora.

    Simplesmente adicionar um pouco de gema de ovo às suas obras pode ter efeitos duradouros que vão além da estética.

    Ovos x óleo

    Em comparação com o meio formulado pelos antigos egípcios chamado têmpera – que combina gema de ovo com pigmentos em pó e água – a tinta a óleo cria cores mais intensas, permite transições de cores muito suaves e seca muito menos rapidamente, por isso pode ser usada por vários dias após sua preparação.

    No entanto, a tinta a óleo, que usa óleo de linhaça ou cártamo em vez de água, também apresenta desvantagens, inclusive sendo mais suscetível ao escurecimento da cor e danos causados ​​pela exposição à luz.

    Como fazer tinta era um processo artesanal e experimental, é possível que os Velhos Mestres tenham acrescentado gema de ovo, um ingrediente familiar, ao novo tipo de tinta, que apareceu pela primeira vez no século 7 na Ásia Central antes de se espalhar pelo norte da Europa – na Idade Média e na Itália durante o Renascimento.

    No estudo, os pesquisadores recriaram o processo de fabricação de tintas usando quatro ingredientes – gema de ovo, água destilada, óleo de linhaça e pigmento – para misturar duas cores historicamente populares e significativas, branco chumbo e azul ultramarino.

    “A adição de gema de ovo é benéfica porque pode ajustar as propriedades dessas tintas de maneira drástica”, disse Ranquet, “por exemplo, mostrando o envelhecimento de maneira diferente: leva mais tempo para a tinta oxidar, por causa dos antioxidantes contidos na gema.”

    As reações químicas entre o óleo, o pigmento e as proteínas da gema afetam diretamente o comportamento e a viscosidade da tinta.

    “Por exemplo, o pigmento branco de chumbo é bastante sensível à umidade, mas se você o revestir com uma camada de proteína, torna-se muito mais resistente a ela, facilitando a aplicação da tinta”, disse Ranquet.

    “Por outro lado, se você quiser algo mais rígido sem ter que adicionar muito pigmento, com um pouco de gema de ovo você pode criar uma tinta de alto empastamento”, acrescentou ela, referindo-se a uma técnica de pintura em que a tinta é disposta em um traço grosso o suficiente para que as pinceladas ainda sejam visíveis.

    Usar menos pigmento teria sido desejável séculos atrás, quando certos pigmentos – como o lápis-lazúli, usado para fazer o azul ultramarino – eram mais caros que o ouro, segundo Ranquet.

    Uma evidência direta do efeito da gema de ovo na tinta a óleo, ou a falta dela, pode ser vista na “Madona do Cravo”, de Leonardo da Vinci, uma das pinturas observadas durante o estudo. Atualmente em exibição na Alte Pinakothek em Munique, Alemanha, a obra mostra rugas evidentes no rosto de Maria e da criança.

    “A tinta a óleo começa a secar da superfície para baixo, e é por isso que enruga”, disse Ranquet.

    Uma razão para o enrugamento pode ser a quantidade insuficiente de pigmentos na tinta, e o estudo mostrou que esse efeito poderia ser evitado com a adição de gema de ovo: “Isso é incrível porque você tem a mesma quantidade de pigmento na tinta, mas a presença da gema do ovo muda tudo.”

    Como o enrugamento ocorre em poucos dias, é provável que Leonardo e outros Velhos Mestres tenham captado esse efeito específico, bem como as propriedades benéficas adicionais da gema de ovo na tinta a óleo, incluindo resistência à umidade. A “Madona dos Cravos” é uma das primeiras pinturas de Leonardo, criada numa época em que ele ainda tentava dominar o então popular meio de pintura a óleo.

    Nova compreensão dos clássicos

    Outra pintura observada durante o estudo foi “A Lamentação sobre o Cristo Morto”, de Botticelli, também exposta na Alte Pinakothek. O trabalho é feito principalmente com têmpera, mas tinta a óleo foi usada para o fundo e alguns elementos secundários.

    “Sabíamos que algumas partes das pinturas mostram pinceladas típicas do que chamamos de pintura a óleo, mas detectamos a presença de proteínas”, disse Ranquet.

    “Por ser uma quantidade muito pequena e difícil de detectar, isso pode ser descartado como contaminação: nas oficinas, os artistas usaram muitas coisas diferentes e talvez os ovos fossem apenas da têmpera”.

    No entanto, como a adição de gema de ovo teve efeitos tão desejáveis ​​na tinta a óleo, a presença de proteínas no trabalho pode ser uma indicação de uso deliberado, sugeriu o estudo. Ranquet espera que essas descobertas preliminares possam atrair mais curiosidade para esse tópico pouco estudado.

    Maria Perla Colombini, professora de química analítica da Universidade de Pisa, na Itália, que não participou do estudo, concorda. “Este artigo empolgante oferece um novo cenário para a compreensão de antigas técnicas de pintura”, disse ela.

    “O grupo de pesquisa, relatando resultados desde o nível molecular até a escala macroscópica, contribui para um novo conhecimento no uso de aglutinantes de gema de ovo e óleo. produzem efeitos maravilhosos e brilhantes, empregando e misturando os poucos materiais naturais disponíveis. Eles tentam descobrir os segredos de receitas antigas das quais pouco ou nada está escrito”, acrescentou.

    “Este novo conhecimento contribui não só para uma melhor conservação e preservação das obras de arte, mas também para uma melhor compreensão da história da arte.”