São João Batista e Xangô: entenda a razão do sincretismo
Celebrado em 24 de junho, São João Batista também é reverenciado em diversas tradições afro-brasileiras por meio do sincretismo religioso com Xangô, orixá ligado à justiça, ao fogo e aos trovões

As festas juninas são uma das manifestações culturais mais populares do Brasil e têm em São João Batista uma de suas principais figuras. No entanto, além da tradição católica, a data também possui um significado especial para adeptos de religiões afro-brasileiras, devido ao sincretismo religioso que associa o santo ao orixá Xangô.
A mistura de elementos religiosos, inclusive, surgiu durante o período da escravidão no Brasil. Diante da proibição do culto aos orixás africanos, pessoas escravizadas passaram a associar suas divindades a santos católicos, preservando suas crenças sob a aparência das práticas religiosas permitidas pelos colonizadores.
Quem foi São João Batista?
Na tradição cristã, São João Batista é conhecido como o profeta que anunciou a chegada de Jesus Cristo e realizou seu batismo nas águas do Rio Jordão. Considerado um símbolo de fé, renovação espiritual e preparação para novos ciclos, ele é celebrado pela Igreja Católica em 24 de junho.
Uma das marcas mais conhecidas das comemorações dedicadas ao santo é a fogueira de São João, elemento que, segundo a tradição popular, teria sido utilizado para anunciar o nascimento de João Batista.
Ligação entre São João e Xangô
Nas religiões afro-brasileiras, Xangô é reconhecido como o orixá da justiça, do equilíbrio e da sabedoria. Também está ligado aos elementos do fogo, dos raios e dos trovões, sendo visto pelos fiéis como uma divindade que promove a ordem, corrige injustiças e restabelece a harmonia.
A associação entre Xangô e São João Batista é explicada por uma série de elementos simbólicos compartilhados. Um dos principais é a relação com o fogo. Enquanto a fogueira ocupa lugar central nas celebrações juninas dedicadas ao santo católico, esse mesmo elemento também está fortemente presente nos atributos de Xangô.
Segundo o sacerdote Diego de Ogum, do Rio de Janeiro, outro ponto de aproximação entre as duas figuras está na ligação com os ciclos agrícolas e as colheitas.
"São João Batista está ligado ao elemento do fogo assim como Xangô aqui nas religiões de matriz africana. Ambos também têm ligação com colheita agrícola: São João com a colheita de milho aqui no Brasil nessa época de junho, e Xangô na Nigéria no mês de agosto com a colheita do inhame novo", explica à CNN Brasil.
Além das conexões com o fogo e a agricultura, tanto São João Batista quanto Xangô são associados à força, à liderança e à transformação. Essas semelhanças simbólicas contribuíram para que, ao longo da história, o santo católico fosse associado ao orixá em diferentes tradições religiosas, especialmente durante o processo de sincretismo desenvolvido no Brasil.

O sincretismo varia conforme a tradição
É importante destacar que não existe uma associação única e universal entre santos e orixás. Dependendo da região do país, da casa religiosa e da tradição seguida, Xangô também pode ser relacionado a outros santos católicos, como São Jerônimo.
Da mesma forma, muitos terreiros, nos dias atuais, têm buscado valorizar cada vez mais as origens africanas dos orixás, reduzindo a necessidade do sincretismo e enfatizando a identidade própria dessas divindades.
"O sincretismo foi uma necessidade dos nossos antepassados. Hoje passamos por um processo de reafricanização que tem justamente como intuito a proximidade com nossas raízes", opina.
Os símbolos e a história de Xangô
Na tradição iorubá, Xangô — ou Sàngó — é uma das divindades mais conhecidas e cultuadas. Sua imagem está associada à força, à liderança, à justiça e ao poder.
Entre seus principais símbolos está o Sèré, um tipo de chocalho utilizado em rituais, e o Oxê, machado de duas lâminas que representa sua autoridade. Outra representação importante é a chamada pedra de raio, conhecida como Edun Ara.
A tradição iorubá também apresenta Xangô como um grande rei do antigo reino de Oyó, lembrado por sua coragem, liderança e capacidade de enfrentar adversidades.
O que oferecer a Xangô?
Para os praticantes que desejam homenagear o orixá, a principal comida votiva é o Amalá. De acordo com o sacerdote, a receita possui algumas diferenças entre o Brasil e a Nigéria.
"A comida votiva preferida de Sàngó é o Amalá, que em terras brasileiras é feito com quiabo e na Nigéria é feito com farinha de inhame seco", explica.
Tradicionalmente, o prato é acompanhado pelo Gbegiri, uma sopa preparada com feijão-fradinho sem casca, azeite de dendê e outros ingredientes.


