Quais os riscos do avanço do desmatamento na Amazônia?


Da CNN Brasil, em São Paulo
08 de março de 2020 às 17:08 | Atualizado 08 de março de 2020 às 17:10
Céu escuro na cidade de São Paulo no dia 19 de agosto de 2019

Céu fica escuro na cidade de São Paulo durante a tarde de 19 de agosto. Na foto, vista da Marginal Pinheiros, na zona oeste da capital paulista

Foto: Nilkton Fukuda - 19.ago.2019/ Ag. Estado

Em 19 de agosto de 2019, o dia virou noite em São Paulo. Os relógios marcavam 15h, mas o céu escuro desafiava as horas. O fenômeno que surpreendeu os paulistanos e é recorrente em parte do Centro-Oeste e Norte evidenciou um problema que ocorria a mais de 3 mil quilômetros da capital paulista: aumento das queimadas e do desmatamento na Amazônia. 

As partículas geradas pela fumaça do fogo na maior floresta tropical do mundo encontraram a frente fria que chegava à capital paulista e causaram o “apagão”, explica o climatologista Carlos Nobre, pesquisador do IEA (Instituto de Estudos Avançados) da USP (Universidade de São Paulo). “Teve tudo a ver com as queimadas”, afirma. 

O episódio foi apenas um efeito visível e imediato dos reflexos climáticos do que acontece na Amazônia. A floresta faz o papel de reguladora dos níveis de gás carbônico (CO2) ao absorver e armazenar a substância emitida pelos combustíveis fósseis. As queimadas e derrubadas das árvores fazem com que esses estoques sejam liberados na atmosfera, além de acabar com o potencial de filtro de gases do efeito estufa. 

“As florestas da Amazônia absorvem 30% de todo gás carbônico que a gente joga na atmosfera”, explica Nobre. “Se elas desaparecem, perdemos essa capacidade de tirar o CO2 do ar”, completa. 

O climatologista também alerta para o risco da região amazônica se transformar numa savana degradada e tornar-se mais uma fonte emissora do gás que contribui para a mudança climática. “Se a gente perder a floresta, a gente aumenta o aquecimento global”, conclui o cientista. 

Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e estudiosa dos processos das queimadas na Amazônia há mais de 25 anos, também é taxativa ao dizer que o desmatamento e as queimadas da floresta amazônica têm efeitos negativos para o clima a curto e longo prazo. 

A pesquisadora ressalta que muitas consequências devem ser vistas nas próximas décadas, mas que estamos vivendo os primeiros efeitos do que o aquecimento global pode causar. “As mudanças climáticas globais têm alterado os padrões de chuva e afetado os ciclos naturais de seca, como com o El Niño, que se tornou mais extenso e intenso”, exemplifica, citando o fenômeno que provoca o aumento da temperatura das águas do Oceano Pacífico. 

A especialista aponta que, a longo prazo, as mudanças provocadas pelo desmatamento podem “alterar o microclima, causar a perda da biodiversidade e mudar os ciclos hidrológicos” - e ressalta que isso desencadeia um círculo vicioso: “Esses eventos têm uma sinergia. É complexo e está interligado”.  

Nesse cenário de intensificação dos fenômenos meteorológicos, a região mais gelada da Terra, a Antártida, já não é mais tão fria assim. Em 9 de fevereiro deste ano, a temperatura foi a 20,75°C — um novo recorde no continente.  

“O aumento da temperatura do oceano austral acaba fazendo com que o jato polar — ventos fortes por vários quilômetros de altura na atmosfera entre o oceano e o continente antártico — fique mais sinuoso, apresentando destacados meandros. Um destes meandros fez com que o ar mais quente do verão nas latitudes médias do Hemisfério Sul atingisse a Península Antártica, quebrando recordes de temperatura”, explica Nobre. 

Crise política 

A crise ambiental ganhou dimensão política desde a divulgação, pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de números que já indicavam o aumento nas áreas desmatadas (crescimento de mais de 200% em agosto de 2019 em relação ao mesmo mês do ano interior) e de focos queimadas (mais de 30 mil no mesmo mês de agosto, o maior índice em nove anos). O ano ainda terminou com um recorde de 9.762 km² de áreas desmatadas, o maior número em onze anos. 

Na ocasião, Jair Bolsonaro colocou em dúvida os dados e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles criticou a metodologia utilizada — que monitora a floresta diariamente. O presidente classificou os dados como mentirosos, declarou não querer “propaganda negativa do Brasil” e afirmou que pediria explicações ao diretor do Inpe, Ricardo Galvão. Bolsonaro ainda sugeriu que o cientista pudesse estar “a serviço de alguma ONG” — depois de rebater o presidente e contar com o apoio da classe científica, ele deixou cargo. 

O caso repercutiu internacionalmente. Ao noticiar as queimadas, a CNN Internacional lembrou que "as políticas ambientais de Bolsonaro foram controversas desde o início" e ressaltou que o presidente já "fez campanha prometendo restaurar a economia por meio da exploração do potencial econômico da Amazônia". 

A Noruega e a Alemanha suspenderam a ajuda financeira destinada a financiar ações de preservação. Durante encontro do G7, o presidente francês Emmanuel Macron alertou a comunidade internacional para o avanço do desmatamento e defendeu o debate sobre a internacionalização da região. Bolsonaro reagiu e atribui à sugestão uma “mentalidade colonialista”. 

Em meio às cobranças externas, o governo federal enviou a Força Nacional para ajudar a combater as queimadas em todos estados que compõem a Amazônia Legal: Pará, Rondônia, Amazonas, Acre, Mato Grosso, Roraima, Tocantins e Maranhão. A iniciativa não impediu que a Amazônia registrasse um aumento de 30% no no número de focos de incêndio no ano — foram 89 mil em 2019 contra 63 mil no ano anterior. 

Alerta 

Embora o início da temporada de chuvas na Amazônia em dezembro tenha freado a proliferação dos focos de incêndio, dados do Deter (Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real) indicam aumento de 108% do desmatamento em janeiro de 2020 com o mesmo período de 2019 — o maior para o mês desde o início da série histórica iniciada em 2016. 

“Para o desmatador não existe o 31 de dezembro”, pontua Nobre. Para a diretora do Ipam, o resultado mostra uma tendência preocupante. “É um reflexo de o que desmatamento está acontecendo de forma sorrateira porque é mais difícil a sociedade se mobilizar quanto a isso”, explica. “O fogo todo mundo consegue ver, a fumaça anda e as pessoas se comovem bem mais do que com o desmatamento”, conclui. 

Os dois especialistas concordam que a solução está nas mãos do poder público. Para Ane Alencar, o ideal seria “inibir e desincentivar o uso do fogo”, principalmente em casos de queimadas — cujo o objetivo é limpar o terreno de uma área já desmatada.  

Ela considera, entretanto, que acabar com o fogo na Amazônia é uma tarefa "quase impossível”. “Há tem pessoas que ainda necessitam ou podem desmatar legalmente e precisam usar o fogo para isso”, justifica. Para ela, é preciso priorizar o combate aos grupos ilegais que atuam na região. 

"Focar em fiscalização, inteligência e quadrilhas que roubam terra vai ter um efeito moral no combate ao desmatamento”, analisa a pesquisadora. “Se focar na ilegalidade em áreas clandestinas já resolve 40% do desmatamento e 35% do fogo. Isso desestimula, as pessoas vão ter mais cuidado”, completa. 

Nobre defende medidas na mesma linha. “Tem que ir para o campo e pegar essas quadrilhas que roubam terra e fazer uma política de controle muito rigorosa”, afirma.