Moradores e Defensoria Pública denunciam falta de água durante a pandemia no Rio

Jairo Nascimento Da CNN, no Rio
28 de março de 2020 às 14:51
Com máscara de proteção, homem espera ônibus na Rocinha, no Rio: moradores de favelas da cidade se queixam de falta d'água
Foto: Ricardo Moraes - 18.mar.2020/ Reuters
 

Um morador reclama que está “pegando água do poço pra lavar o banheiro. 20 dias sem água”. O lamento se repete morro acima. “Nenhum pingo d’água. Tentando dar um banho nos meus filhos. Assim é bravo, ter que lavar a mão toda hora, com criança pequena em casa. Não tem condições” ou “tem vezes que subimos à meia-noite pra pegar água. Tá osso!”, dizem duas moradoras da região do Morro dos Cabritos e dos Tabajaras, favelas no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro.

Enquanto tenta encher um galão com água em uma torneira comunitária, Rute chora. Ela explica que sempre sofreu com a falta de água, mas o problema se intensificou. “Uma semana e pouco sem água. No começo pedi água pra beber. Se eu não morrer de coronavírus, vou morrer de fome e sede. Sem água pra higiene, é impossível. Tava pedindo pra que Deus botasse chuva, porque com a água da chuva eu ia me virar. Tô me sentindo incapaz de cuidar dos meus filhos. Eu tenho hérnia, problema de coluna. Se eu ficar carregando muita água, vou ficar de cama. Como é que vai lavar a mão?”, desabafa.

As reclamações engrossam um relatório produzido após uma campanha da ouvidoria da Defensoria Pública em parceria com o Ministério Público, ambos do estado do Rio de Janeiro. O problema vinha sendo relatado desde o verão e a crise da qualidade da água que afetou, principalmente, a capital e cidades do entorno desde janeiro deste ano.

Porém, com o surgimento da pandemia, a falta da capacidade dos bairros desabastecidos terem água para cumprir as medidas sanitárias de prevenção ao coronavírus chamou atenção das autoridades.

O ouvidor da Defensoria Pública, Guilherme Pimentel, explica que recebeu várias denúncias. “Em cinco dias, recebemos 475 respostas denunciando problemas de abastecimento de água em 14 municípios do Rio de Janeiro, a maioria na região metropolitana, num total de 140 bairros e favelas com torneiras secas.”

O relatório pode, a longo prazo, se transformar em medidas judiciais, mas ações mais imediatas têm probabilidade de render algum resultado. “A gente montou um relatório, entregamos aos núcleos especializados da Defensoria Pública. O Ministério Público está atuando em conjunto em busca de uma solução junto aos governos responsáveis pelo fornecimento de água no Rio de Janeiro.

Essas informação estão servindo no canal de diálogo com a CEDAE para tentar uma solução extrajudicial. A gente precisa de rapidez”, explicou o ouvidor. Por nota, a companhia estatal de água e esgoto do Rio, a CEDAE, disse que o abastecimento na região das favelas de Copacabana foi reforçado com 4 caminhões-pipa e visita de técnicos. Serão colocados, em caráter de urgência, mais 40 caminhões-pipa para atender demais favelas na região metropolitana do Rio.

De acordo com Édison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil, as obras em caráter de urgência são as soluções do momento em vários lugares do país para um problema estrutural.

“O Brasil está atrasado em termos de saneamento básico. Mesmo na água potável, que o acesso vem melhorando desde os anos 70, ainda temos 35 milhões de pessoas sem acesso a água limpa. É equivalente a população do Canadá. A pessoa se vira com a água que tiver, poço, açude. São as mais vulneráveis. Quando a gente fala de esgoto, aí é a metade da população. Cerca de 100 milhões. Em momento de pandemia, a gente sente falta desse bem tão essencial”, argumenta.

Dentre as regiões, o norte do Brasil tem a pior situação. O presidente executivo diz que “Quase metade da população não tem água tratada, 10% apenas tem coleta de esgoto. É uma região que parou no tempo com relação a infraestrutura de saneamento. Água tratada é um luxo na região norte”. Mas a região sudeste, mais populosa do Brasil, concentra um grande número de afetados.

“Essa gente está nas áreas mais periféricas, favelas, invasões”, explica. Paralelamente, os estados de São Paulo e Rio de Janeiro concentram o maior número de casos de COVID-19. A região do Morros dos Cabritos, citada nesta reportagem, está no foco da doença na capital. De acordo com levantamento da prefeitura do Rio de Janeiro, o bairro de Copacabana juntamente com Ipanema e Barra da Tijuca concentram o maior registro de casos de coronavírus.

Para o presidente do Trata Brasil, é preciso tomar atitude, pois “É uma operação de guerra. As pessoas precisam de água pra se higienizar, em qualquer lugar do Brasil isso terá que ser feito em caráter de emergência”.