Carioca se equipou ao saber de epidemia na China e hoje higieniza favela no RJ


Flora Charner Da CNN
10 de abril de 2020 às 22:25
Thiago Firmino - Santa Marta

Thiago Firmino, de 39 anos, soube das notícias iniciais a respeito da pandemia e decidiu buscar equipamentos para proteger ele e a comunidade da favela Santa Marta, no Rio de Janeiro

Foto: CNN

Quando o coronavírus surgiu, ele parecia uma ameaça distante para o Brasil e as espalhadas e empobrecidas favelas. No entanto, conforme o vírus se dissemina pelo país, um morador de uma favela está assumindo para si a tarefa de proteger a vizinhança.

Thiago Firmino, 39, ouviu as notícias sobre o início da pandemia e decidiu comprar equipamento para proteger a si e à comunidade da favela Santa Marta, no Rio de Janeiro. "Eu comecei a prestar atenção nisso quando [a epidemia] ainda estava na China e pensei: 'Se está fora de controle lá, quem sabe o que pode acontecer aqui?'", disse, em entrevista à CNN por telefone.

O ativista comunitário e empreendedor comprou dois sprays de desinfetante e dois trajes de proteção brancos que encontrou em uma loja local de tintas. Ele já tinha uma máscara de gás, que comprou no passado para se proteger do gás lacrimogênio lançado pela polícia para reprimir protestos contra o governo.

No último final de semana, Firmino se vestiu e começou a espalhar o alvejante nas ruas laterais, becos e cantos da sua favela em um calor de 26 graus. A Comlurb, serviço de saneamento do Rio, está limpando muitos dos pontos de ônibus, estações de trem e outras de grande circulação desde março, mas Firmino disse nunca ter visto eles no Santa Marta ou em qualquer outra favela.

De acordo com o Ministério da Saúde, 19.638 pessoas já foram infectadas com o novo coronavírus no Brasil e 1.056 morreram. O número de casos está subindo bruscamente, com autoridades de saúde alertando que o pico deva ocorrer entre abril e maio. No Rio de Janeiro, segundo o ministério, são 2.464 casos e 147 mortes.

Estima-se que 13 milhões de pessoas vivam nas favelas, atingidas pela pobreza e densamente populosas. No Rio de Janeiro, as favelas são construídas nos morros onde o acesso até a água limpa pode ser um desafio. Produtos como sanitizadores são caros demais, enquanto muitos moradores sobrevivem com rendas variáveis e dependem de empregos que foram impactados pela pandemia.

Sebastião Soares, vendedor da Cidade de Deus, disse à CNN que ele divide sua casa de 37 metros quadrados com outras seis pessoas, incluindo seus três filhos. Ele habitualmente vende bebidas nas praias do Rio de Janeiro como seu sustento, mas precisou parar depois que um decreto estadual proibiu a atividade. Apesar de estar em alto risco, por ser um diabético que sofre de hipertensão, Soares disse à CNN que trabalharia se pudesse.

Condução confusa

A condução a respeito do distanciamento social no Brasil está sendo, em geral, confusa. Governos estaduais e municipais nas áreas mais atingidas pelo coronavírus no país estão promovendo o distanciamento social com campanhas online e com a atuação da polícia nas ruas convocando a população a permanecer em casa.

No Rio de Janeiro, o governador Wilson Witzel (PSC) estendeu as medidas de quarentena na maior parte das maiores cidades do estado até o final de abril e convocou as pessoas a permanecer em casa.

"Nós ainda estamos nos estágios iniciais dessa pandemia. As pessoas precisam entender que nós precisamos ficar em casa", disse Witzel durante entrevista coletiva. "Não é o momento de estar fora de casa nas ruas, com exceção daqueles que exercem atividades essenciais".

A medida se aplica a escolas, às praias do Rio e aos locais turísticos, como a estátua do Cristo Redentor. De acordo com recente pesquisa Datafolha, 76% da população apoia as políticas de distanciamento social em nome de conter a disseminação do novo coronavírus.

No entanto, o presidente Jair Bolsonaro continua a pressionar contra essas políticas nas últimas semanas, diminuindo o coronavírus como uma "gripezinha" e dizendo que o Brasil sofrerá mais se a economia colapsar.

O governo federal lançou nesta semana um programa de auxílio-emergencial que vai distribuir R$ 600 mensais nos próximos três meses para as pessoas que fazem parte da economia informal e perderam seus empregos.

Neste meio tempo, moradores de várias favelas, incluindo na Cidade de Deus, estão recebendo doações itens de limpeza, como sabão e detergente, assim como alimentos para os que ficaram desempregados. Alguns fizeram parcerias com ONGs locais, enquanto outros iniciaram campanhas por doações online.

"Esses produtos não são muito caros, mas nós sabemos que eles são inacessíveis para alguns, devido a realidade da nossa favela", disse Victor Andrade, um dos voluntário, à CNN. "As pessoas aqui simplesmente não tem como comprar esses itens".

Dezenas de casos de coronavírus estão agora sendo confirmados nas favelas pela cidade. A primeira morte relacionada ao COVID-19 foi registrada pela prefeitura no Rio de Janeiro na última quarta-feira. Ao menos duas mortes foram registradas em Manguinhos e outras duas na Rocinha, a maior favela do Brasil, onde vivem perto de 150 mil pessoas.

Até agora, nenhum caso foi confirmado no Santa Marta, mas Firmino teme que o vírus esteja logo depois da esquina.

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