Quarentena intensiva traria benefício de R$ 298 bi por mês ao país, diz pesquisa


André Spigariol e Cecília do Lago Da CNN, em Brasília e São Paulo
22 de abril de 2020 às 11:32
Ruas desertas são cenário comum durante quarentena em Londres

Ruas desertas são cenário comum durante quarentena em Londres

Foto: CNN Brasil

O dinheiro que o Brasil está gastando com medidas econômicas anticíclicas de proteção de renda e empregos é bastante baixo diante do benefício econômico de manter uma quarentena rígida para enfrentar a pandemia do novo coronavírus.

É o que argumenta um estudo feito pelos economistas brasileiros Diego Cardoso, da Cornell University, e Ricardo Dahis, da Northwestern University. Segundo eles, o benefício financeiro de vidas poupadas por medidas de isolamento social intensivo pode chegar a R$ 298 bilhões ao mês.

O cálculo é baseado nos parâmetros de mortalidade estimada no estudo de impacto de medidas de isolamento publicado em 26 de março feito por pesquisadores da Imperial College of London, e mede o valor atribuído ao benefício de poupar vidas que seriam perdidas para a COVID-19 caso nenhuma medida de contenção fosse adotada. 

Os economistas explicam que o cálculo leva em consideração o chamado ‘valor da vida estatístico’. “Não é que estamos colocando preço na vida. O valor de uma vida individual é infinito. A pergunta que queremos responder é ‘quanto que vale salvar vidas?’. O ideia aqui é quantificar o valor gerado pelo benefício em vidas que foram salvas por conta de todas as medidas do governo”, explica Cardoso. 

“Pessoas constantemente fazem escolhas com base nos riscos que encontram. Algumas evitam dirigir à noite ou durante uma tempestade; outras modificam hábitos alimentares e estilo de vida visando uma vida mais longa e saudável. Ocupações com maior risco, na média, pagam mais devido à exposição adicional”, dizem os autores. “Cada uma dessas escolhas tem um benefício (reduzir o risco de vir a morrer) e custo implícito (deixar de fazer algo que se desejaria ou receber menos)”.

É como se apostar numa mudança de hábito, aderir à quarentena, funcionasse como um seguro contra o risco de vir a morrer por ação da doença. Calcula-se o quanto a população estaria disposta a pagar para reduzir esse risco e se compara com as estimativas de mortes evitadas ao se evitar o cenário mais pessimista da pandemia.

Quanto mais vidas poupadas, maior o benefício econômico em economizar esse seguro. Na prática, ele poderia ser ainda maior, porque pessoas também atribuem valor à redução do risco a vida de outras pessoas, como amigos e familiares, e se beneficiam direta ou indiretamente quanto mais pessoas saudáveis estiverem na economia em sociedade. 

A análise indica que a redução no risco de mortalidade ao se passar de um cenário de nenhuma ação para o isolamento intermediário da população, com um distanciamento social de entre 35% e 45% da população, geraria um benefício de R$171 bilhões por mês (2.3% do PIB anual).

No cenário em que são adotadas medidas de proteção intensiva de idosos, somadas ao isolamento intermediário, o ganho em vidas poupadas seria equivalente a R$ 212 bilhões por mês (2.9% do PIB anual). “Por fim, um cenário de isolamento social intensivo amplo, no qual se poupam mais vidas, valeria R$298 bilhões por mês (4% do PIB anual)”, dizem os economistas. 

A CNN teve acesso antecipado ao estudo, que está em vias de ser publicado pelo Instituto Mercado popular. 

Estudo britânico

O Imperial College calculou que o Brasil teria 44 mil mortos se a quarentena mais rígida fosse aplicada desde o início no país. Os pesquisadores britânicos estimaram, ainda, que o país poderia ter mais um milhão de mortes pela Covid-19 caso nenhuma providência de contenção da doença fosse adotada.

Mas há algumas limitações metodológicas que os pesquisadores assumiram: a taxa de reprodução do vírus é extrapolada a partir de como ele se alastra em países ricos e na China. 

Além disso, fatores culturais e econômicos dos países não foram considerados no cálculo do potencial de mortos. Os estudiosos acreditam que países pobres poderiam desenvolver mortalidades ainda maiores do que as estimativas apresentadas, tanto devido a fatores econômicos quanto por dificuldades estruturais em aplicar medidas de isolamento. 

Ou seja, para eles o Brasil poderia ter um cenário ainda mais pessimista, mas não é possível mensurar isso agora porque não há parâmetro de disseminação do vírus nas nossas condições. Isso só poderá ser definido depois de acabada a primeira epidemia de coronavírus no Brasil e os cientistas poderem se debruçar nos registros consolidados.