Feminicídio cresce em SP e passa a se concentrar em dias de semana, diz estudo


André Catto Da CNN, em São Paulo
30 de abril de 2020 às 17:41 | Atualizado 30 de abril de 2020 às 17:41
Violência contra a mulher

Estudo aponta aumento de ocorrências de feminicídio durante pandemia

Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil

Vinte casos de feminicídio foram registrados em São Paulo em março deste ano, o que torna este o segundo mês mais violento contra as mulheres nos últimos 15 meses. O número só fica atrás de dezembro de 2019, quando foram contabilizadas 27 vítimas no estado.

Os dados, que foram analisados pelo Instituto Sou da Paz e enviados com exclusividade à CNN, mostram, no entanto, um indício de mudança no comportamento dos agressores. Se os finais de semana concentravam a maioria dos casos de violência contra a mulher, as ocorrências passaram a ser registradas também de segunda a quinta-feira. 

Das 20 mortes registradas em março deste ano, nove ocorreram durante os dias úteis, sendo três delas nos primeiros dias de quarentena no estado. A alteração na dinâmica da violência tem relação direta com os efeitos do novo coronavírus no comportamento social, indica o estudo. Para a diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, há um conjunto de situações que pode estar contribuindo para este cenário.

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“Além de os agressores permanecerem por mais tempo dentro de casa com as vítimas, fatores como insegurança econômica e crise financeira, aliados ao consumo de álcool, tendem a agravar o contexto agressivo”, diz Carolina. “A convivência diária, de fato, agrava a situação. Você não separa mais semana e fim de semana, contribuindo para mudanças nos números”, explica.

Para a pesquisadora, uma forma de minimizar os efeitos da violência contra as mulheres – especialmente em tempos de pandemia – é fortalecer as redes de apoio e conscientização. “É fundamental a criação de campanhas e canais para facilitar as denúncias.” Outra medida importante, afirma, é a estruturação de abrigos.

Assassinatos

A mesma dinâmica se reflete nos homicídios dolosos. Assim como nos casos de feminicídio (assassinato de mulheres pelo fato de serem mulheres), março deste ano teve o segundo maior número de assassinatos nos últimos 15 meses, com 296 casos registrados – atrás apenas de dezembro do ano passado, que somou 310 vítimas. Nesse tipo de crime, a violência seguiu a mesma tendência, com maior distribuição ao longo da semana.

De acordo com o estudo, “normalmente, esses são os dias em que as pessoas socializam e nos quais podem surgir conflitos violentos que culminam em assassinatos. No entanto, nos dias após o início da quarentena o que se viu foi uma certa homogeneização dos dias de ocorrências dos homicídios".

Carolina Ricardo, entretanto, pondera ser necessário maior rapidez nas investigações e na qualificação dos crimes cometidos. “Assim, é possível analisar com mais precisão o que está impactando ou não nessa mudança.”