ABL faz acordo inédito com academias de letras de países africanos

Agência Brasil
17 de junho de 2020 às 08:54 | Atualizado 17 de junho de 2020 às 09:01
Fotos e cartas de Machado de Assis e José Veríssimo fazem parte do acervo da ABL
Foto: Fernando Frazão - 15.out.2015 / Arquivo - Agência Brasil

A Academia Brasileira de Letras (ABL) firmou o primeiro acordo de cooperação e amizade com instituições similares africanas. O presidente da ABL, Marco Lucchesi, disse nessa terça-feira (16) que o protocolo assinado é um fato inédito e marca a grande proximidade que existe entre o Brasil e o continente africano.

O acordo envolve as academias Angolana de Letras, de Ciências de Moçambique, Caboverdiana de Letras, São-tomense de Letras, além da Academia de Ciências de Lisboa e da ABL. “Foi um protocolo mútuo, bastante aberto, afirmou Lucchesi. “Mas, sobretudo, ele tem o aspecto simbólico muito importante de proximidade com a África.”

Várias perspectivas práticas de colaboração entre as academias foram levantadas. Entre elas, a publicação mútua de obras dos acadêmicos, “o que já vai dando uma circulação sanguínea de ideias, de formas de ver o mundo, de contribuições”, disse Lucchesi. Há ainda a intenção de promover conferências e mesas redondas virtuais nos diversos países para assuntos de interesse comum.

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O presidente da ABL destacou que espera o surgimento de novas ideias, como publicações conjuntas, após o período de pandemia do novo coronavírus.

Lucchesi avaliou que, no atual cenário, o acordo é motivo de grande esperança. “Neste momento tão difícil de colecionar sonhos ou de projetar ideias para o futuro, porque o presente está muito pesado, a meta é atravessarmos a espessura do presente e planejarmos diversas ações para já e, com o final da pandemia, se Deus quiser, fazermos aproximações físicas.”

Reunião virtual 

Segundo Lucchesi, a reunião para firmar o acordo não foi simples de se viabilizar pela internet, tendo em vista os fusos horários diferentes e o envolvimento das academias com os compromissos em seus países diante da pandemia de Covid-19, cujo combate é mais forte em algumas regiões do que em outras.

“Não foi simples. Mas fomos todos tomados por uma grande alegria e um desejo de cooperação”, comentou.

Ele lembrou que, desde o acordo assinado com a Marinha em 2018, livros de escritores brasileiros têm sido doados para os países de língua portuguesa. “Assim vamos construindo uma rede de proximidade de uma mesma língua, expressa em diversas formas. Mas é sempre esse legado comum.”

Doações de livros a comunidades carentes

No Brasil, a ABL e a Biblioteca da Câmara dos Deputados estão realizando doações de livros a comunidades carentes, mais desprotegidas e vulneráveis, em todo o país, além de hospitais. A medida integra um acordo de cooperação assinado em 2019 entre a Câmara Federal e a ABL, com o objetivo de desenvolver ações conjuntas para a disseminação da cultura nacional e a promoção da valorização da leitura.

Até o momento, já foram distribuídos cerca de 70 kits com 12 livros novos cada, da Editora Câmara. Nessa primeira leva, foram atendidas comunidades de Belém (PA), Porto Alegre e Eldorado do Sul (RS), São Luís (MA), Fortaleza e São Gonçalo do Amarante (CE), Mauá, Guarulhos e São Paulo (SP), Salvador (BA), Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes (PE), Sabará, Betim, Belo Horizonte e Santa Luzia (MG), Paraty, Nova Iguaçu e Duque de Caxias (RJ).

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Quando essa associação não é possível, a parceria entre a ABL e a Biblioteca da Câmara dos Deputados destina as doações para formação de bibliotecas em centros universitários, centros preparatórios de enfermeiros, asilos e bibliotecas comunitárias. “Por enquanto, estamos perto de 70 kits, mas vamos ampliar no território nacional. Queremos ampliar isso drasticamente”, disse Lucchesi.

O presidente da ABL afirmou que, durante a pandemia, as comunidades mais vulneráveis precisam de alimentos e de medidas de profilaxia. “Mas nós entendemos que o livro também pode fazer parte tanto de uma forma, como de outra. O livro dentro da cesta básica. Toda vez que for possível associar cesta básica ao livro, nós trabalhamos com duas fomes: a fome dramática que, infelizmente, o nosso povo está vivendo, e a fome de leitura. Uma coisa não exclui a outra”.