Dez anos após tomada pela PM, Complexo do Alemão ainda espera serviços básicos


Paulo Franco*
13 de setembro de 2020 às 21:25
Complexo do Alemão

Moradores do Complexo do Alemão, dizem que tráfico de drogas continua no comando mesmo com a presença das UPPs

Foto: Foto: CNN

O início da década de 2010 marcou a expansão da política de pacificação nos morros do Rio de Janeiro, com a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora e a redução dos índices de criminalidade em vários pontos da cidade. A proposta foi elogiada por especialistas em segurança pública.

“O projeto inicial das UPPs parecia muito completo. Você tinha uma proposta de levar, junto com a polícia, todo um aparato de serviços que essas comunidades precisam”, diz a pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Fernanda Cruz.

Em novembro de 2010, uma megaoperação policial com apoio do exército brasileiro abriu caminho para a instalação das UPPs nas comunidades que formam o complexo do Alemão. Mas a promessa de expulsar traficantes de drogas e levar serviços públicos aos quase 70 mil moradores ficou só no papel. “Durante esses dez anos, o que a gente viu foi um dinheiro desperdiçado. O governo só investiu em polícia, munições e armas e pouco em educação, cultura, saúde e acesso a água”, diz a moradora Rene Silva.

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Rene conta que mesmo com todo investimento em polícia, os traficantes de drogas continuam ditando as regras no Complexo. “Antes, nós não tínhamos tiroteios todos os dias. E hoje a gente não sabe quando vai acontecer um tiroteio. Estamos em um ambiente com a presença do tráfico e da polícia, então os dois podem se confrontar a qualquer momento”, alerta.

Além do cenário de violência, a população convive com o lixo jogado a céu aberto, já que a empresa pública responsável por fazer a coleta não tem dia nem horário para aparecer na comunidade. A falta de água encanada e de coleta de esgoto também afeta a vida de quem mora no Alemão, como Marcela Silva, que está desempregada e cuida sozinha dos dois filhos: “Aqui não tem um lugar para as crianças brincarem. Se for aqui é lixeira. Se for ali, é o esgoto que passa.”

Dez anos depois 

As Unidades de Polícia Pacificadora foram implantadas em várias comunidades e chegaram a melhorar alguns índices de violência no estado, mas o cenário atual ainda é preocupante. Só em 2019 foram 3.955 homicídios dolosos, quando há intenção de matar, segundo a Secretaria de Segurança Pública. Entre as vítimas, 67 eram policiais civis ou militares. Ainda de acordo com a pasta, 1.810 pessoas morreram em decorrência de ações policiais em todo o estado em 2019, número 18% maior do que no ano anterior.

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*da DOC. Films, especial para a CNN Brasil