Conheça os detalhes do Gripen, novo jato supersônico da Força Aérea Brasileira


Murillo Ferrari, da CNN, em São Paulo
25 de setembro de 2020 às 12:21 | Atualizado 25 de setembro de 2020 às 20:22
O caça Gripen brasileiro antes do primeiro voo de testes

O caça Gripen antes do primeiro voo de testes no espaço aéreo brasileiro

Foto: Bianca Viol - 24.set.2020/ Força Aérea Brasileira

O primeiro dos 36 caças Gripen fabricados pela sueca Saab para a Força Aérea Brasileira (FAB) fez seu primeiro voo de de teste no espaço aéreo brasileiro na quinta-feira (24). 

A aeronave decolou de Navegantes, em Santa Catarina, com destino Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, onde fica o Centro de Ensaios em Voo do Gripen e uma fábrica da Embraer.

O contrato assinado no fim de 2013, no valor de 39,3 bilhões de coroas suecas (R$ 23,7 bilhões, no câmbio atual), prevê, além da produção das 36 aeronaves até 2024, um programa de transferência de tecnologia à indústria aeroespacial brasileira para o desenvolvimento do Gripen no Brasil.

Batizado de F-39 pela FAB, a aeronave está prevista para ser entregue oficialmente ao governo federal em 2021.

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O Gripen será operado em dois modelos no país: monoposto (os modelos E, como o testado na quinta-feira) e biposto (modelos F) – uma novidade na linha da Saab, desenvolvida em parceria com os militares brasileiros.

Informações técnicas

Os Gripen NG, versão comprada pelo Brasil, possuem 15,2 m de comprimento por 8,6 m de envergadura. Os jatos pesam 8 toneladas vazios e têm capacidade para decolar com mais do que o dobro de seu peso, 16,5 toneladas, em uma distância mínima de 500 metros.

Em termos de velocidade, o jato pode voar acima de 1.400 km/h ao nível do mar e passa de Mach 2 – duas vezes a velocidade do som, ou seja, 2.448 km/h – em altas atitudes.

A Saab destaca ainda que o avião precisa de apenas 10 minutos para retomar o combate ar-ar e que o troca completa do motor do caça pode ser feita em menos de uma hora.

Os diferenciais 

De acordo com a FAB, o Gripen é conhecido pela sua “eficiência, baixo custo de operação, elevada disponibilidade e avançada capacidade tecnológica”.

O jato já é usado pelas Forças Aéreas de países como Suécia, África do Sul, Hungria e Tailândia, além da escola de Pilotos de Teste do Reino Unido (ETPS, em inglês).

Raio X do caça sueco Gripen, batizado pela Força Aérea Brasileira de F-39

Raio X do caça sueco Gripen, batizado pela Força Aérea Brasileira de F-39

Foto: Reprodução/ Saab

Em muitos desses países, é o principal jato usado na garantia da soberania e proteção do espaço aéreo em missões variadas.

No Brasil, seu uso deve dar um salto qualitativo e tecnológico ao incorporar “recursos embarcados até então inéditos”, diz a FAB.

Caça polivalente

De acordo com a Saab, o jato é um dos primeiros do mundo que pode ser utilizado em outros funções além dos combates aéreos.

“Significa que pode cobrir uma ampla gama de requisitos de missão, poupando os clientes dos custos de ter que comprar aviões dedicados ao ataque ao solo e à superioridade aérea separadamente”, segundo material promocional da empresa sobre a aeronave.

Na prática, isso significa que o Gripen pode desempenhar, simultaneamente, missões ar-ar para interceptar e neutralizar outras aeronaves, ar-terra para destruir  veículos, navios e instalações militares inimigas, e de reconhecimento, nas quais identifica ameaças e patrulha fronteiras.

Além disso os sensores do Gripen identificam o inimigo usando métodos ativos e passivos, ao mesmo tempo em que apresenta assinatura pequena nos radares e sensores infravermelhos dos adversários.

"Os sistemas embarcados de Guerra Eletrônica (EW) do Gripen também podem embaralhar os sensores e mísseis inimigos, e o seu tamanho relativamente pequeno faz com que seja difícil detectá-lo visualmente", afirma a empresa sueca.

Configurações de uso

A Saab diz que o raio de combate do Gripen na configuração ar-terra é de aproximadamente 800 nm (milhas náuticas), cerca de 1.500 quilômetros.

Isso significa que se os F-39 brasileiros decolarem do 1º Grupo de Defesa Aérea (GDA), na Base Aérea de Anápolis (GO), distante 151 km de Brasília, podem atacar alvos em todos os estados das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, além de cobrir parte das regiões Norte e Nordeste, e retornar para a base.

Já o raio de combate depende da configuração da carga paga da aeronave, seus perfis e a disponibilidade de tanques de combustível externos. “Em uma configuração típica ar-ar, por exemplo, o Gripen NG pode patrulhar por mais de duas horas”, diz a fabricante.

Além disso, os jatos podem realizar reabastecimento durante o voo, o que aumenta o raio de combate consideravelmente.

Os armamentos

O Gripen pode usar desde bombas guiadas para missão de precisão até mísseis ágeis e de longo alcance, além de armamentos pesados antinavios.

Outra característica do jato é poder transportar casulos e sensores para reconhecimento e missões especiais.

Exemplo de armas e casulos que podem ser acoplados ao Gripen

Exemplo de armas e casulos que podem ser acoplados ao Gripen

Foto: Reprodução/ Saab

Além disso, o novo caça da FAB tem o recurso de guerra centrada em rede (NCW, em inglês) com características desenvolvidas especialmente para o Brasil que permitem seu uso tanto em operações militares nacionais como regionais.

Transferência de Tecnologia

Faz parte do contrato entre o governo brasileiro e a Saab o programa de transferência de tecnologia para país. As primeiras fases do programa incluíram extensivo treinamento para os brasileiros na Suécia. 

Além disso, a previsão é que a indústria brasileira desenvolva grande parte do sistema único do Gripen brasileiro, como por exemplo, a versão biposto.

Polêmicas

As negociações para a compra dos caças começaram ainda no governo de Luiz Inácio Lula da Silva — e lhe renderam, em 2016, uma denúncia do Ministério Público Federal (MPF) que apontou irregularidades na compra de 36 unidades do Gripen no âmbito da operação Zelotes. 

Em 2018 o primeiro-ministro suedo, Stefan Löfven, e executivos da Saab depuseram em Estocolmo, no âmbito da operação brasileira Zelotes. Eles foram chamados pelo Ministério da Justiça do Brasil a pedido da defesa de Lula, que nega as acusações. À época, Löfven disse “não ter conhecimento” sobre qualquer irregularidade no processo de venda dos caças Gripen ao Brasil. 

(Com informações de Estadão Conteúdo e Agência Brasil)