'Racismo à brasileira' degrada sociedade como um todo, diz Comissão Arns


Iuri Pitta
Por Iuri Pitta, CNN  
20 de novembro de 2020 às 16:25 | Atualizado 20 de novembro de 2020 às 16:30

Segundo delegada Roberta Bertoldo, João Alberto Silveira Freitas sofreu asfixia


Em nota pública divulgada na tarde de sexta-feira, a Comissão de Defesa de Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns (Comissão Arns) afirma que o "racismo à brasileira" degrada a sociedade como um todo e alerta para a "escalada da violência contra a juventude negra e pobre, assim como para o racismo em empresas que lidam diretamente com o público – como supermercados, lojas, shopping-centers –, em eventos recorrentes, que vão da humilhação verbal
à tortura".

A nota foi produzida após vir a público a morte de João Alberto Silveira Freitas, dentro de um supermercado Carrefour na zona Norte de Porto Alegre, ocorrida na véspera do Dia da Consciência Negra. A Comissão Arns tem acompanhado casos semelhantes, como o ocorrido em São Paulo no ano passado, quando um jovem negro foi chicoteado por seguranças do supermercado Ricoy.

Fazem parte da Comissão lideranças e expoentes da defesa dos direitos humanos no Brasil, assim como intelectuais e acadêmicos ligados à causa, como o reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente, e a filósofa Sueli Carneiro, diretora do Geledés, entre outros.

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Pela vida perdida de João Alberto
A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns vem a público manifestar o seu mais veemente repúdio à morte, por espancamento brutal e manobras de asfixia, de João Alberto Silveira Freitas, nas dependências do supermercado Carrefour, na zona Norte de Porto Alegre. Crime hediondo, mancha com sangue e vergonha este Dia da Consciência Negra.

A morte de João Alberto acrescenta mais um capítulo ao racismo histórico, estrutural, com o qual a sociedade brasileira convive – e, frequentemente, tolera. Mais uma triste página de um país que todos os dias pune cidadãs e cidadãos negros, sob múltiplas formas de discriminação e violência. Não é à toa que a taxa de homicídios da população negra brasileira tenha alcançado 37,8 por 100 mil habitantes, enquanto está em 13,9 para os brancos, como informa o Atlas da Violência de 2020 (Ipea-FBSP).

Esta Comissão vem alertando a sociedade para a escalada da violência contra a juventude negra e pobre, assim como para o racismo em empresas que lidam diretamente com o público – como supermercados, lojas, shopping-centers –, em eventos recorrentes, que vão da humilhação verbal à tortura. Mas o “racismo à brasileira” parece seguir o seu caminho, impávido, degradando a sociedade como um todo e cada um de nós como indivíduos.


Exigimos que a vida perdida de João Alberto não vire estatística. Que a sua morte seja apurada com o rigor que a gravidade impõe. Que se apure a responsabilidade do estabelecimento comercial pela contratação de empresa de segurança adepta de práticas abusivas e tratamento desumano. Que os perpetradores do crime sejam investigados, julgados e respondam por seus atos. E que o mundo empresarial brasileiro incorpore, de uma vez para sempre, o respeito aos direitos humanos no seu dia a dia. Não podemos tolerar tanta injustiça. Basta!

São Paulo, 20 de novembro de 2020
Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo
Arns – Comissão Arns