No Rio, blocos de rua lançam campanha por 'carnaval em casa'

Grupos manifestam preocupação com a manutenção do feriado em fevereiro, apesar de o prefeito Eduardo Paes ter cancelado o carnaval em julho

Paula Martini, da CNN, no Rio de Janeiro 
25 de janeiro de 2021 às 12:53 | Atualizado 09 de fevereiro de 2021 às 12:58
Desfile do bloco Carmelitas durante Carnaval do Rio de Janeiro: bloco somente em casa
Foto: Pilar Olivares/Reuters (1º.mar.2019)

Mais de 150 blocos e ligas carnavalescas do Rio de Janeiro lançaram um manifesto reafirmando a posição de não desfilar em 2021. Batizado de 'Carnaval 2021 é em casa', o documento tem a assinatura de blocos tradicionais, como o centenário Cordão da Bola Preta e o bloco das Carmelitas, e até de grupos que desfilam sem autorização da prefeitura – os chamados blocos 'não oficiais'.

Os grupos manifestam preocupação com a manutenção do feriado em fevereiro, apesar de o prefeito Eduardo Paes ter cancelado o carnaval em julho. O texto afirma que ficar em casa será a forma de resistência da festa.

"A resistência ao negacionismo como instrumento de política de uma política de morte. É vital que marquemos uma posição firme", diz a nota compartilhada nas redes sociais com a hasthag #carnaemcasa. O principal objetivo do movimento é conscientizar a população para que o distanciamento social seja respeitado durante o feriado e que os festejos só sejam retomados com a ampla vacinação da população. 

 "Através dessa iniciativa, queremos conscientizar a população, estimulando que evitem aglomerações, e respeitem o isolamento social durante o feriado de fevereiro", disse Camila Marandino, musicista e uma das idealizadoras do movimento. 

"Tivemos uma adesão muito forte, a lista conta com 159 signatários mas, depois de publicada, muitos outros apoiaram e também estão compartilhando o manifesto e a imagem da campanha com a hashtag #carnaemcasa", disse Camila Marandino, musicista e uma das idealizadoras do movimento. 

No fim de semana, a Sebastiana (Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro do Rio de Janeiro) também lançou uma campanha bem humorada para incentivar os foliões a ficarem em casa. Marchinhas e músicas brasileiras estão sendo adaptadas com trocadilhos como "Eu quero botar meu bloco na rua, mas esse ano não dá" e "Cabelo e serpentina no cabelo da menina, mas no sofá da sala".

A ideia é lançar um vídeo por dia até o carnaval com a hasthag #carnavalemcasa. A associação também vai disponibilizar a playlist dos blocos, e estuda até a realização de lives na semana do carnaval.

"Essa decisão foi muito difícil e muito dolorida para nós que fazemos carnaval há quase 40 anos. A gente faz carnaval porque  ama a folia e a cidade, e não por ser uma obrigação. Decidir pela não realização e ainda ter que dizer para as pessoas não saírem e não aglomerarem é muito difícil, mas não tem alternativa", afirma Rita Fernandes, presidente da Sebastiana.

"Nesse momento, o que importa é a vida. É manter as pessoas seguras para brincar direito em 2022. Se a gente não conseguir conter essa pandemia agora, aí é que fica muito mais difícil não só para carnaval, mas para a vida como um todo", completou. 

Confira a íntegra do manifesto

O prefeito Eduardo Paes declarou que não haverá carnaval em julho, devido à ausência de condições para imunização total da população. No entanto, o feriado de fevereiro está mantido.

O carnaval de rua é um movimento, uma força que resiste e ocupa, tomando de volta para as pessoas um espaço que lhes pertence. Este ano, porém, por mais paradoxal que possa parecer, ficar em casa será a nossa forma de resistência. A resistência ao negacionismo como instrumento de uma política de morte. É vital que marquemos uma posição firme.

Portanto, nós, blocos, ligas, fanfarras e movimentos do carnaval de rua do Rio de Janeiro, declaramos por meio desse manifesto que não desfilaremos em 2021. Fazemos a todos os cidadãos e cidadãs o apelo de que se juntem a nós nesse momento histórico tão difícil que vivemos.

Quando estivermos todos seguros e imunizados, faremos a maior folia que essa cidade já viu. Neste momento, entretanto, estamos todos e todas unidos pela vida. Pedimos que não aglomerem e fiquem em casa.

O carnaval vive e alimenta nossas almas. A hora em que ele sair, não vai ter quem segure.