'Não será o último', alertam especialistas sobre desabamento de prédio no RJ

Ocorrência lança luz um problema histórico da capital fluminense: construções frágeis, erguidas de forma irregular em territórios dominados por milicianos

Rayane Rocha, Adriana Freitas e Leandro Resende, da CNN, no Rio
03 de junho de 2021 às 14:22 | Atualizado 03 de junho de 2021 às 19:24
Desabamento de prédio residencial em Rio das Pedras, na zona oeste do Rio de Jan
Bombeiros procuram vítimas em desabamento de prédio residencial em Rio das Pedras, na zona oeste do Rio de Janeiro
Foto: Jose Lucena/Thenews2/Estadão Conteúdo

 

O desabamento de um prédio em Rio das Pedras, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro que deixou uma criança morta nesta quinta-feira  (3) jogou luz sobre um problema histórico da capital fluminense: construções frágeis, erguidas de forma irregular em territórios dominados por milicianos. Uma criança de dois anos morreu em uma tragédia similar (e próxima) àquela ocorrida na Muzema, em 2019, que deixou 24 pessoas mortas. A CNN conversou com especialistas em meio ambiente que ressaltaram de casos similares voltarem a acontecer.

“Rio das Pedras surgiu sobre um solo extremamente instável, como se a construção fosse sobre uma esponja. Isso já foi informado inúmeras vezes e vai voltar a acontecer. A cada chuva mais intensa, há, potencialmente, penetração de água nesse solo. Um terreno que não é devidamente tratado, é um perigo em potencial", afirmou à CNN o biólogo e ambientalista Mário Moscatelli.

O especialista explicou os motivos pelos quais imóveis como esse podem vir a desabar no local. "O solo vira uma verdadeira geleia. À medida que você vai fazendo peso, ele vai se deformando. Qualquer tipo de construção nesse tipo de terreno exige custo elevadíssimo. É preciso usar estacas no interior do solo, a 15 ou 20 metros de profundidade, até encontrar areia, que é um pouco mais sólido", disse Moscatelli.

 

Já o presidente da ONG SOS Mata Atlântica, Mario Mantovani, afirmou que o maior agente de desmatamento ilegal no Rio de Janeiro é a milícia. “Desmatar para construir moradias é um grande negócio e o crime percebeu isso”, disse Mantovani.

Estudo do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, da Universidade Federal Fluminense, e pelo Observatório das Metrópoles, da Universidade Federal do Rio de Janeiro exibido pela CNN em outubro do ano passado demonstrou que as milícias têm enriquecido e expandido sua ação no Rio graças a três pontos:  “grilagem de terrenos, construções ilegais e domínio sobre habitações do Minha Casa, Minha Vida, em meio à omissão histórica do poder público”.

O prefeito Eduardo Paes adotou, em 2021, um discurso de tolerância zero com construções irregulares erguidas em bairros controlados por milícias. “O que a gente precisa fazer são melhorias habitacionais e, óbvio, tentar ver como que faz com essas construções irregulares para que elas parem com esse tipo de risco. Comigo, a milícia não vai construir porcaria nenhuma nessa cidade. Estamos demolindo permanentemente”, declarou Paes nesta quinta-feira em Rio das Pedras.

 

Para o secretário estadual de Meio Ambiente, Thiago Pampolha, a atuação de milícias é o grande algoz do desmatamento, especialmente na região metropolitana. A fiscalização, ele relata, envolve uma série de cuidados e preparações, por ser em área de risco.   "A capacidade de fiscalização do estado é muito reduzida, temos poucas viaturas para coordenar trabalhos de polícia ambiental. Envolve muita gente, há sempre um risco de vazar informação, há uma morosidade na fiscalização", admitiu Pampolha.

O estado, segundo ele, prepara a ampliação do programa "Olho No Verde", como forma de detectar mais rapidamente o avanço do desmatamento em diversas áreas do Rio. “São muitos anos de falência do poder público em relação ao controle dessas áreas. Muito precisa ser feito", finalizou.