Menos de 10% das pessoas com deficiência foram vacinadas contra Covid no Rio 

Especialista afirma à CNN que o sistema de vacinação não é inclusivo para todas as pessoas do grupo  

Beatriz Puente e Mylena Guedes, da CNN, no Rio de Janeiro 
19 de julho de 2021 às 09:38 | Atualizado 19 de julho de 2021 às 12:09

Com cerca de 46,5 mil pessoas com deficiência permanente vacinadas com a primeira dose ou dose única no Rio de Janeiro, o estado tem uma adesão menor que 10% deste grupo. A pequena quantidade de pessoas com deficiência indo aos postos de saúde é explicada por diversos fatores, mas principalmente, pela dificuldade de acessibilidade aos postos e às informações referentes à vacinação, segundo especialistas ouvidos pela CNN.  

Na capital fluminense, dos 290 mil PCDs adultos estimados pela Secretaria Municipal de Pessoa com Deficiência (SMPD), apenas 22 mil receberam a primeira dose do imunizante. Na última semana, a prefeitura destinou todos os dias para repescagem desse público, mas a medida não funcionou como o esperado. 

A enfermeira Carla Schubert, coordenadora do curso de Enfermagem da Univeritas e especialista em acessibilidade da saúde, chama atenção para a falta de inclusão e adaptação dos pontos de vacinação. Ela afirmou à CNN que o sistema não é inclusivo para todas as deficiências, já que é feito em um modelo único de vacinação.  

“Nem sempre tem um intérprete de libras na unidade, nem sempre o cadeirante consegue chegar no posto, você não tem a data da segunda dose escrita em braile na caderneta de vacinação. A acessibilidade é um fator que geralmente dificulta nessas horas, por mais que tenham leis que garantam isso. Outro ponto é que quando a pessoa não tem autonomia, depende de alguém, muitas vezes esse cuidador ou familiar ainda não foi vacinado, então há um medo dessa exposição”, explica a especialista.  

Além disso, ela diz que a informação sobre a campanha pode chegar para esses grupos de forma prejudicada, por exemplo, para deficientes auditivos ou visuais. 

“Também temos uma campanha de divulgação que não chega para todos os deficientes da mesma forma. Para quem não vê o mundo com os olhos ou ouve com os ouvidos, por exemplo, essa divulgação não chega. É muito pequena ou até inexistente”, pontuou a enfermeira. 

Das cinco unidades de saúde indicadas para PCDs, abertas pela capital em abril para facilitar a vacinação do grupo, todas encerraram a aplicação das doses. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde disse que os centros de referência para essa população funcionaram como ponto de vacinação na ocasião em que o calendário era voltado para as pessoas com deficiência. 

O estádio do Maracanã também serviu como posto especial para pessoas com deficiências permanentes. Inaugurado no final de abril, a unidade vacinou em cerca de um mês pouco mais de quatro mil pessoas com a primeira dose e encerrou as atividades. A Secretaria Estadual de Saúde esclareceu que retomará a vacinação no local no próximo dia 28 exclusivamente para aplicar a segunda dose do imunizante nas pessoas com deficiência.  

O advogado Geraldo Nogueira, fundador e presidente de honra da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OABRJ, afirmou à CNN que vários fatores podem influenciar para que o número de PCDs imunizados seja tão baixo. Para ele, há a possibilidade de registro inadequado e de indicação médica para uma farmacêutica específica.  

“Primeiro que muitos deficientes foram vacinados por idade e, portanto, não ficou registrado como pessoa com deficiência. Outro motivo é que alguns médicos têm feito indicações para que se dê preferência por determinada marca de vacina, dependendo do tipo de deficiência e se a pessoa tem alguma doença ou comorbidade. Por isso, podem ter registrado no posto como comorbidade”, aponta o presidente da comissão. 

Na cidade, cerca de 37% dos deficientes são moradores da Zona Oeste, região em que há um menor número de postos de saúde comparado a outras partes do município. 

À CNN, a secretária municipal da Pessoa com Deficiência, Helena Werneck, afirmou que o número é preocupante e que a equipe tenta entender esses dados.  

“Estamos preocupados com a baixa adesão, a vacinação é muito necessária. Acreditamos que há várias razões para isso, como a falta de informação, o medo de sair de casa e pegar a doença ou outra classificação nos postos. Podem ter colocado, de forma errada, como comorbidade, por exemplo”, disse a secretária.  

Segundo ela, das 2.081 pessoas cadastradas nos centros de referência do município, cerca de 97% se vacinaram contra o vírus.  

Como opção para mudar esse cenário, Carla Shubert diz que a vacina precisa ser acessível e que a comunidade de saúde de cada bairro deve ser atuante diante dessa baixa adesão. Ela explica que a vulnerabilidade de um grupo ao vírus pode impactar toda a sociedade.  

“É preciso que os profissionais de saúde encontrem estratégias para captar essas pessoas. Chamar a responsabilidade para si. Se essa pessoa com deficiência não estiver lá, que ela seja alcançada. Em alguns municípios o agendamento em casa e esse contato local nos bairros foi adotado. Os postos de saúde trabalham por território, é uma responsabilidade de todos”, alerta a coordenadora. 

O problema não atinge só o estado do Rio de Janeiro. Em todo o Brasil, foram aproximadamente 667.800 PCDs vacinados com a primeira dose ou com dose única, incluindo os institucionalizados. Este número representa cerca de 8,6% de toda a população estimada pelo Ministério da Saúde.