De junho de 2019 a maio deste ano, RJ teve 856 mortos em operações policiais

Levantamento da Rede de Observatórios de Segurança aponta que entre os mortos estão 29 crianças e adolescentes; outras 727 pessoas ficaram feridas nessas ações

Isabelle Resende, da CNN, no Rio de Janeiro
22 de julho de 2021 às 07:32 | Atualizado 22 de julho de 2021 às 10:09

O Rio de Janeiro registrou 856 mortos e 727 feridos em operações policiais, segundo levantamento da Rede de Observatórios de Segurança. O estudo mostra que a cada 33 minutos é registrado um caso de violência nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Ceará e Pernambuco.

O levantamento, publicado nesta quinta-feira (22), revela que 57% dos 31.535 eventos violentos correspondem a ações policiais. Os dados foram coletados de junho de 2019 a maio de 2021.  

Dos 8.016 casos monitorados pela Rede de Observatórios no Rio de Janeiro em dois anos, 5.617 foram ações de policiamento, incluindo operações policiais, patrulhamentos e ações de combate ao coronavírus.  

“No caso do Rio de Janeiro o que impressiona é o papel fundamental que as operações policiais têm na vida da cidade e do estado. É comum vermos operações ocorrendo simultaneamente em diferentes pontos da cidade, o que afeta o cotidiano dos moradores dessas regiões e isso se expressa nos números coletados pela pesquisa”, pontua Pablo Nunes, coordenador da Rede de Observatórios de Segurança.  

Só em 2021, o estado registrou oito operações policiais por dia, mesmo com a vigência da proibição do Supremo Tribunal Federal (STF). O STF determinou que ações policiais só ocorram em casos excepcionais e com autorização do Ministério Público, durante a pandemia. Nessas ações, foram contabilizadas 189 mortes.

Entre as vítimas mais recentes estão a designer Katlhen Romeo, de 24 anos, morta com um tiro de fuzil durante um patrulhamento da Polícia Militar, na zona norte do Rio, no mês passado, e João Pedro Matos, de 14 anos, baleado dentro de casa, em São Gonçalo, durante uma ação policial.  

De acordo com o levantamento, 43,6% das operações policiais ocorreram em favelas, periferias e bairros populares. O levantamento da Rede de Observatórios de Segurança, aponta um aumento de 33,9% apenas nas operações policiais, realizadas entre janeiro e maio de 2021, em relação ao mesmo período do ano passado.  

Outro dado que chama a atenção dos pesquisadores, é a ocorrência de chacinas. O Rio lidera o ranking entre os estados pesquisados, com 92 casos.

No levantamento, os pesquisadores consideraram como chacina a morte de 28 pessoas, incluindo um policial civil, durante uma operação policial realizada pela Polícia Civil, em maio, na favela do Jacarezinho, na zona norte da capital.

A operação foi a mais letal da história do estado do Rio. Uma força-tarefa foi criada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro para apuração as mortes.  

O enteado do policial morto na operação da comunidade do Jacarezinho chora durante o enterro do padastro
Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo

O estado do Rio também lidera no número de agentes vitimados e mortos. Em dois anos, foram 388 feridos, sendo a maioria (309) policiais militares, e 130 agentes mortos. Mais da metade deles (212) estavam fora de serviço, o que revela maior vulnerabilidade fora do horário de trabalho. E 62 agentes foram mortos em briga, vingança ou execução e 42 em latrocínios. 

“É importante que a gente tenha uma política pública de segurança no estado do Rio que diminua a violência de suas ações, tanto para redução de danos aos moradores dessas favelas e periferias, que sofrem com essas ações violentas da polícia, quanto dos próprios agentes do estado que tem níveis de vitimização altíssimos, em relação aos de outros estados” conclui o coordenador da pesquisa, Pablo Nunes.