Amazônia tem terceiro maior recorde de desmatamento na década

Perda de cobertura vegetal acumulada entre agosto de 2020 e julho de 2021 foi a segunda maior da atual gestão

Satélite da Nasa mostra fumaça de incêndios na Amazônia em 1º de agosto
Satélite da Nasa mostra fumaça de incêndios na Amazônia em 1º de agosto Foto: Nasa

Adriana Freitas, da CNN, no Rio de Janeiro

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O desmatamento acumulado entre agosto de 2020 e julho de 2021 foi o segundo maior da atual gestão (iniciada em 2019) e o terceiro maior da década, segundo os mais recentes dados do sistema Deter do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Com os números de alertas de julho de 2021, divulgados nesta sexta-feira (6), é possível ver o consolidado dos últimos 12 meses, equivalente ao período usado pelo sistema PRODES, que gera os dados reconhecidos oficialmente pelo governo.

 

“Os números do Deter sugerem a possibilidade de fecharmos 2021 como terceiro ano consecutivo com taxas de desmatamento da Amazônia acima de 10 mil km2 – uma marca histórica desde 2008. Está ficando evidente que um dos grandes legados do governo Bolsonaro será a destruição da maior floresta tropical do planeta”, ressalta Mariana Napolitano, gerente de Ciências do WWF-Brasil.

Os 8.712 km2 registrados em alertas de desmatamento pelo Deter colocam o período 2020/2021 atrás apenas dos 9.216 km2 desmatados entre agosto de 2019 e julho de 2020, de acordo com os dados dos últimos seis anos.

 “Os números falam por si: em três anos de governo Bolsonaro, temos três recordes de desmatamento na Amazônia desde 2008. Todos os brasileiros já estão sentindo as consequências dessa política da destruição: o aumento da conta da luz, o risco de falta de água e as dificuldades do homem do campo com suas lavouras têm relação com uma Amazônia cada vez mais perto do seu limite”, alerta Maurício Voivodic, diretor-executivo do WWF-Brasil.

O mês de julho fechou com 1.417 km2 de desmatamento na Amazônia. Pará e Amazonas ocupam o primeiro e o segundo lugar no ranking dos maiores desmatadores do mês, com 498 km2 e 402 km2, respectivamente.

No caso do Cerrado, onde vivem 5% dos animais e plantas do planeta, os dados de alertas Deter indicam 661 km2 de desmatamento em julho, totalizando 5.102 km2 entre agosto de 2020 o último mês – um crescimento de quase 24% em relação ao ano anterior (2019-2020).

 

Maranhão, Bahia e Tocantins lideram o ranking dos estados com maior área desmatada no último ano. Assim como o desmatamento da Amazônia, a destruição do Cerrado tem sérias consequências para o Brasil: o bioma desempenha um papel essencial no apoio ao ciclo da água no Brasil, já que é fonte de oito das 12 bacias hidrográficas do país. O desmatamento contínuo reduz as chuvas e aumenta as temperaturas locais, colocando também em risco a vegetação remanescente e a produção de alimentos.

“Enquanto o desmatamento aumenta, PIB, renda per capita, nível educacional, saúde infantil e expectativa de vida no Brasil recuam. O que também cresceu nos últimos anos foi o desemprego e a desigualdade social. Estamos perdendo os dois maiores biomas do Brasil sem que isso gere crescimento, qualidade de vida ou renda para o país”, ressalta Maurício.

O Brasil já figurava como um dos campeões de desmatamento e de fragmentação de florestas e outros ecossistemas entre 2000 e 2018, segundo relatório do WWF-Internacional lançado no começo deste ano.

O estudo se concentra em 24 frentes de desmatamento na América Latina, na África Subsaariana, no Sudeste Asiático e na Oceania, onde ocorreu mais da metade (52%) do desmatamento total registrado nessas regiões – uma área de 43 milhões de hectares, quase a mesma extensão do Marrocos.

“O Brasil tem duas frentes simultâneas entre as regiões (Amazonia e Cerrado) que mais devastam a vegetação nativa do planeta”, destaca Edegar de Oliveira Rosa, diretor de Conservação e Restauração do WWF-Brasil.

Pelo menos dois terços da perda de cobertura florestal global nesse período ocorreram nessas regiões tropicais e subtropicais. Não por acaso, o surgimento de novas doenças é elevado em regiões tropicais, biodiversas e historicamente cobertas por florestas e savanas que estão passando por mudanças no uso da terra.

“Quando saudáveis, as florestas oferecem uma proteção contra doenças como a Covid-19. No entanto, quando as florestas se encontram sob ataque, suas salvaguardas são enfraquecidas, o que leva a uma disseminação de doenças”, explica Marco Lambertini, diretor do WWF-Internacional.

O desmatamento e a degradação florestal estão entre os principais fatores para o surgimento de doenças zoonóticas como HIV/AIDS, Ebola, SARS, Febre do Vale Rift e, a partir de 2020, a Covid-19. Isso ocorre porque o aumento da densidade de animais em áreas desmatadas e degradadas também eleva as doenças nessas populações de animais selvagens que, por sua vez, têm mais interações com pessoas devido à maior presença humana nas áreas de floresta degradada. Resultado: mudanças no uso da terra contribuíram para quase metade das doenças zoonóticas que afetaram humanos entre 1940 e 2005.

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