Brasil investe R$ 160 bilhões em segurança, mas só R$ 1,9 bilhão em inteligência
No país, nos anos de 2019 e 2020, apenas 1,2% do total gasto com segurança foi para a área de inteligência e informação; RJ é o pior neste quesito

Um levantamento feito pela CNN com base no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021, mostra que todos os 27 estados brasileiros investiram R$ 157,7 bilhões em segurança pública nos últimos dois anos, mas apenas R$1,9 bilhão foram destinados à inteligência e informação. Sendo assim, o Brasil investiu, nos últimos dois anos, apenas 1,2% do total gasto com segurança na área de inteligência e informação.
Os estados de São Paulo e Rio de Janeiro foram os que mais investiram, respectivamente, em segurança pública nos anos de 2019 e 2020. Enquanto São Paulo teve mais de R$ 24 bilhões em despesas com segurança, o Rio de Janeiro teve quase R$ 20 bilhões em gastos. No entanto, ao contrário do estado paulista, que foi o segundo que mais investiu em inteligência e informação, o Rio de Janeiro foi um dos que não destinou verbas para esse setor.
No levantamento feito pela CNN, utilizando os dados do Anuário, dentre os cinco estados (incluindo o Distrito federal) que mais investiram em segurança pública, apenas o estado de São Paulo aparece entre os cinco que mais investiram em informação e inteligência.
Enquanto São Paulo (1º), Rio de Janeiro (2º), Minas Gerais (3º), Rio Grande do Sul (4º) e Bahia (5º) foram os que mais tiveram despesas com segurança nos anos de 2019 e 2020, quem lidera no quesito investimentos em inteligência e informação são os estados do Paraná (1º), São Paulo (2º), Distrito Federal (3º), Rondônia (4º) e Ceará (5º).
Dentre os cinco estados citados acima que mais investiram em inteligência, o distrito federal é o que tem um maior percentual proporcional de recursos da segurança pública voltado para essa área. Do total investido, 16,5% foram para a área de informação e inteligência. Depois aparece o estado de Rondônia, que gastou 13,7% do total com inteligência, seguidos pelo Paraná, com 8,3%, São Paulo, com 1,3% e Ceará, com 1%.
Paulo Storani, especialista em segurança pública e membro da polícia do Rio de Janeiro por 17 anos, explica que a inteligência é importante tanto para a prevenção quanto para a repressão de crimes. Engloba análise de informações, coleta de dados e treinamento de pessoal, com cursos, inclusive no exterior. “É importante para a qualidade do planejamento e, consequentemente, na solução de crimes. Engloba desde a preparação do policial, a integração entre as polícias e equipamentos para ajudar nas investigações e operações”
Para o professor José Ricardo Bandeira, presidente do Instituto de Criminalística e Ciências Policiais da América, o não investimento em inteligência faz com que crimes como o assassinato da vereadora Marielle Franco fiquem impunes.
“Polícia que não tem inteligência é cega e surda, não tem informações suficientes para desvendar crimes”. Ele acrescenta que, com investimento nessa área, é possível evitar, por exemplo, o tráfico de drogas e armas, o que evitaria a criminalidade, principalmente, no contexto do Rio de Janeiro.
Situação do Rio de Janeiro
Nos últimos 10 anos, menos de 1% dos gastos com segurança pública no estado do Rio foram direcionados para inteligência e informação. Apesar de ser um dos estados com as maiores despesas em segurança pública do país, o Rio é um dos piores quando se fala sobre investimentos em inteligência.
Para o professor Daniel Hirata, especialista em segurança pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), principalmente no contexto do Rio de Janeiro, o investimento em segurança pública deveria ser maior. “É importante otimizar os recursos já existentes e investir em novos. Inteligência não é só aquisição de equipamentos. É algo muito maior para tornar as ações policiais mais eficientes.”
Entre 2010 e 2020, foram gastos mais de R$ 86 bilhões em despesas totais na segurança pública do Rio, mas apenas cerca de R$ 120 mil foram empenhados para aprimorar as áreas de informação e inteligência.
O estado do Rio de Janeiro é o que tem maior número de registros de mortes em intervenções policiais. Só em 2020 foram 775 vítimas. Além disso, somando os anos de 2019 e 2020, 85 policiais (civis e militares) morreram no estado fluminense, em decorrência ou de confrontos em serviço, ou por lesão não natural ou confronto fora de serviço. É o estado que lidera essa estatística.
O governo do estado do Rio respondeu à nossa produção dizendo que essas informações são de competência das polícias Civil e Militar.
Em nota, a Polícia Militar do Rio de Janeiro informou que “ao contrário da informação apresentada pelo Anuário”, a corporação investiu “maciçamente em tecnologia aplicada à área de inteligência, desde janeiro de 2019”. No entanto, a PM do Rio não respondeu quanto foi investido na área de inteligência desde 2019 até então.
Já a Polícia Civil, até o momento, não respondeu aos nossos questionamentos.