Chefe do clima da ONU: Acordo de Paris avança, mas COP deve lutar por mais
Simon Stiell discursou na abertura da Cúpula do Clima em Belém nesta segunda-feira (10); veja íntegra
O secretário executivo da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), Simon Stiell, disse que o Acordo de Paris promete entregar bons resultados, mas que é preciso fazer muito mais para frear os danos da mudança climática.
O chefe do clima da ONU discursou na abertura oficial da COP30 nesta segunda-feira (10), em Belém.
Stiell afirmou que o futuro imaginado no momento da assinatura do Acordo de Paris, em 2015, finalmente chegou e que agora é preciso implementar com urgência tudo o que vem sendo negociado nas últimas cúpulas do clima.
“Temos muito mais trabalho a fazer. Devemos avançar muito, muito mais rapidamente tanto na redução das emissões [...] A ciência é clara: podemos e devemos reduzir as temperaturas para 1,5ºC após qualquer ultrapassagem temporária. Lamentar não é uma estratégia. Precisamos de soluções”, disse o secretário.
Stiell também ressaltou o aspecto rentável das energias renováveis. Durante o discurso, ele citou a energia eólica e a energia solar como as mais baratas em 90% do mundo; ressaltou que as renováveis superaram o carvão como principal fonte de energia global este ano; e apontou para o recorde de investimentos em energia e infraestrutura sustentável previsto para 2025.
“Já concordamos que abandonaremos os combustíveis fósseis. Agora é a hora de nos concentrarmos em como fazemos isso de maneira justa e ordenada [...] Em Belém, temos de casar o mundo das negociações com as ações necessárias na economia real”, afirmou o chefe do clima.
Simon Stiell reforçou que a NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) de uma única nação não é capaz de preencher as lacunas da ação climática. Ele traçou um paralelo entre o Rio Amazonas e o sucesso da COP30: a cúpula só pode ter sucesso se contar com a cooperação internacional de centenas de países e atores globais, assim como o sistema fluvial amazônico, alimentado por mais de mil afluentes.
O secretário alertou ainda que a inação pode cobrar um preço catastrófico: “Os desastres climáticos dizimam a vida de milhões de pessoas, enquanto já temos as soluções. Isso nunca, jamais, será perdoado”.
Simon Stiell já havia citado em uma publicação nas redes sociais os estragos causados por eventos climáticos extremos, como o tornado que deixou mortos no Paraná no fim de semana.
Por fim, Stiell disse que a agenda climática não é apenas desejável, mas indispensável para o interesse de todas as nações.
“Cada gigawatt de energia limpa reduz a poluição e cria mais empregos. Cada ação para criar resiliência ajuda a salvar vidas, fortalecer comunidades e proteger as cadeias de abastecimento globais das quais todas as economias dependem”, afirmou.
O chefe do clima da ONU concluiu o discurso relembrando as delegações presentes de a COP30 não é sobre um país lutando contra o outro, mas sim todas as nações unidas para enfrentar a crise climática.
Veja íntegra do discurso:
Excelências,
Há dez anos, em Paris, estávamos desenhando o futuro – um futuro em que a curva das emissões viraria claramente para baixo. Colegas – Bem-vindos a esse futuro.
A curva de emissões foi virada para baixo. Por causa do que foi acordado em salas como esta, com os governos legislando e os mercados respondendo.
Mas não estou aliviando isso. Temos muito mais trabalho a fazer.
Devemos avançar muito, muito mais rapidamente tanto na redução das emissões como no reforço da resiliência.
A ciência é clara: podemos e devemos reduzir as temperaturas para 1,5ºC após qualquer ultrapassagem temporária.
Lamentar não é uma estratégia. Precisamos de soluções.
Estamos aqui em Belém, na foz do Amazonas. E podemos aprender muito com este poderoso rio.
A Amazônia não é uma entidade única, mas sim um vasto sistema fluvial sustentado e alimentado por mais de mil afluentes.
Para acelerar a implementação, a COP deve ser apoiada da mesma forma – impulsionada pelas muitas correntes de cooperação internacional.
Porque os compromissos nacionais individuais, por si só, não estão reduzindo as emissões com a rapidez suficiente.
Não precisamos de esperar que as NDC tardias cheguem lentamente, para detectar a lacuna e conceber as inovações necessárias para resolvê-la.
Nenhuma nação entre nós pode se dar ao luxo, já que os desastres climáticos retiram dois dígitos do PIB.
Vacilar enquanto as mega-secas destroem as colheitas nacionais, fazendo disparar os preços dos alimentos, não faz qualquer sentido, econômica ou politicamente.
Disputar enquanto a fome se instala, forçando milhões de pessoas a fugir das suas terras, isto nunca será esquecido, à medida que os conflitos se espalham.
Enquanto os desastres climáticos dizimam a vida de milhões de pessoas, quando já temos as soluções, isso nunca, jamais, será perdoado.
A economia desta transição é tão indiscutível como os custos da inação.
A energia solar e a eólica são agora as energias de menor custo em 90% do mundo.
As energias renováveis ultrapassaram o carvão este ano como a principal fonte de energia do mundo.
O investimento em energias limpas e infraestruturas atingirá outro recorde este ano – com os investimentos em energias renováveis superando os combustíveis fósseis na proporção de 2 para 1.
Então, o que precisa ser decidido aqui em Belém para adequar as oportunidades à dimensão da crise que enfrentamos?
Porque já concordamos que abandonaremos os combustíveis fósseis. Agora é a hora de nos concentrarmos em como fazemos isso de maneira justa e ordenada. De nos concentrarmos nos acordos a fechar, para acelerar a triplicação das energias renováveis e a duplicação da eficiência energética.
Já concordamos em disponibilizar pelo menos 300 bilhões de euros em financiamento climático, com os países desenvolvidos na liderança. Precisamos agora colocar em prática o Roadmap Baku-Belém. Para começar a caminhar em direção aos 1,3 trilhão.
Já concordamos com um objetivo global em termos de adaptação. Precisamos agora chegar a um acordo sobre os indicadores que ajudarão a acelerar a implementação, para libertar o seu potencial.
Já concordamos que os caminhos de transição devem ser inclusivos e justos – abrangendo economias e sociedades inteiras. Agora temos de chegar a um acordo sobre medidas concretas para transformar aspirações em ações.
Já concordamos com um Programa de Implementação de Tecnologia. Vamos colocá-lo em movimento.
Resultados fortes e claros sobre todas estas questões são essenciais. É assim que sinalizamos ao mundo que a cooperação climática está dando resultados.
Em Belém, temos de casar o mundo das negociações com as ações necessárias na economia real.
A Agenda de Ação não é algo “bom de ter” – é crítica para a missão. Mais do que isso, é inteiramente do interesse próprio de cada nação.
Cada gigawatt de energia limpa reduz a poluição e cria mais empregos.
Cada ação para criar resiliência ajuda a salvar vidas, fortalecer comunidades e proteger as cadeias de abastecimento globais das quais todas as economias dependem.
Esta é a história de crescimento do século XXI – a transformação econômica da nossa época. Aqueles que optam por sair ou dão passos pequenos enfrentam estagnação e preços mais elevados, enquanto outras economias avançam.
Parafraseando o presidente Roosevelt há mais de um século. Não é o crítico que conta ou aquele que aponta onde o executor das ações poderia ter feito melhor. O crédito pertence àqueles que estão realmente na arena com os rostos manchados de poeira, suor e sangue e que se esforçam valentemente.
Mas, amigos, deixem-me ser claro: nesta arena da COP30, o seu trabalho aqui não é lutar uns contra os outros – o seu trabalho é combater esta crise climática, juntos.
Paris deve conseguir progressos reais. Não vamos esquecer isso.
Mas amigos – devemos lutar valentemente por mais.
Obrigada



